minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
piauí jogos

    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Escambo cultural

Acampamento indígena promove a convivência entre povos

Marcos Amorozo | Edição 190, Julho 2022

A+ A- A

“Mãe, todos os indígenas no Brasil estão mortos?”, perguntou o pequeno Vinícius Palmieri, em 2019. O menino de 5 anos tinha ouvido de um amigo de escola que os portugueses e espanhóis exterminaram todos os nativos da América durante a colonização. “O colega disse que apenas três indígenas tinham sobrevivido. Vini ficou arrasado”, lembra Beatriz Sant’Anna, mãe de Vinícius. Para acalmar o filho, ela explicou que ainda havia indígenas no Brasil e mostrou num mapa do IBGE onde algumas tribos vivem hoje.

Na mesma época, a Escola Paulistinha de Educação da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), na capital paulista, fez atividades sobre o estado de Pernambuco, e a professora de Vinícius mostrou manifestações culturais do povo Fulni-ô, que ocupa um território indígena no município de Águas Belas, a cerca de 300 km do Recife. O menino se encantou tanto com esse povo que decorou seus cânticos e passou a entoá-los em casa. Chamadas de cafurnas, as músicas falam do cotidiano nas aldeias e da luta pela manutenção da identidade. Costumam ser acompanhadas por danças chamadas toré.

Mas Vini desejava mais. “Ele queria morar na aldeia, queria caçar, ter uma experiência de imersão”, conta a mãe. A fim de proporcionar essa experiência ao filho, Sant’Anna foi com Vinícius e a irmã, Valentina, de 3 anos, para a Aldeia Multiétnica, na Chapada dos Veadeiros, a cerca de 11 km da cidade de Alto Paraíso de Goiás e a 230 km de Brasília. Durante uma semana, eles conviveram com representantes dos fulni-ôs e de outros oito povos: Kayapó/Mebêngôkre (do Pará); Avá-Canoeiro (de Goiás); Krahô (do Tocantins); Guarani Mbya (de Santa Catarina); Xavante (de Mato Grosso); e Yawalapiti, Kamayurá e Wauja, do Alto Xingu (em Mato Grosso).

A Aldeia Multiétnica acontece anualmente desde 2007, sempre na segunda quinzena de julho. O projeto de criá-la surgiu no Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, reunião promovida por diferentes tribos e a sociedade não indígena Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, de Goiás. Em 2020 e 2021, o evento não aconteceu por causa da pandemia, mas o retorno está previsto para este mês de julho, entre os dias 15 e 22.

Na aldeia, os visitantes não indígenas acompanham celebrações, cantos, rezas dos diferentes povos. Também apreciam a sua culinária e conhecem as pinturas e os artesanatos que fazem. A cada dia, uma tribo fica responsável por organizar as atividades e festas, que começam bem cedo e avançam pela noite.

Além das apresentações culturais, rodas de conversa e palestras, os visitantes têm tempo livre para trocar ideias ao pé da fogueira, descansar nas redes e tomar banho de rio. Eles podem escolher se passarão quatro ou sete dias no local, se ficarão alojados no camping ou na hospedaria, e se querem incluir a alimentação no pacote. A depender das escolhas, o valor da estadia vai de 1,3 mil reais (no camping) a 5,3 mil reais (na hospedaria, com tudo incluso). Os pacotes são vendidos no site do evento. Aqueles que não querem se hospedar no local podem fazer uma visita vespertina que custa entre 50 e 60 reais.

 

Para os fulni-ôs, a Aldeia Multiétnica se tornou a principal fonte de renda para o custeio do Ouricuri, um retiro espiritual que fazem durante três meses, entre setembro e novembro, em uma aldeia destinada exclusivamente a esse fim. Eles têm, portanto, duas aldeias, separadas por 5 km na área indígena de mais de 11 mil hectares onde vivem em Pernambuco, reconhecida desde o século XIX, depois que membros dessa tribo lutaram na Guerra do Paraguai.

Na região Nordeste, os fulni-ôs são o único povo que manteve a língua tradicional, o iatê, ensinado em suas escolas e nos rituais religiosos. A sobrevivência extraordinária do idioma pode ser explicada por sua função decisiva no Ouricuri. “É nesse momento que a gente vai passando nossa língua, nossos costumes e nossa religião para os mais novos. Há milhares de anos que nós fazemos as mesmas práticas de nossos antepassados”, conta Aritana Fulni-ô, de 32 anos, uma das lideranças da tribo.

Durante o ritual religioso, todos os fulni-ôs se mudam para a aldeia isolada. Os indígenas que trabalham fora do município de Águas Belas – funcionários, professores, policiais – pedem licença para se ausentar do trabalho, embora nem todos consigam participar dos três meses de ritual. É proibido falar sobre o que acontece no Ouricuri, regra muito respeitada pelos indígenas.

A palavra “ouricuri” também designa uma palmeira nativa da Caatinga, abundante na região onde vivem os fulni-ôs, que a consideram sagrada. É com sua palha que produzem a maioria das peças de artesanato – principalmente bolsas, esteiras, chapéus e abanos –, vendidas no Brasil e no exterior. “A gente se prepara o ano todo para fazer nosso artesanato e trocar com os parentes e visitantes”, diz Aritana. “Essas são as nossas caças, de que tiramos nosso sustento.”

Outra vantagem da Aldeia Multiétnica é permitir que os próprios indígenas façam um intercâmbio entre povos. “Ali nós temos facilidade de encontrar com outros parentes, de divulgar a nossa cultura nordestina e pernambucana, né? A gente não tem condição de conhecer outros povos que vivem longe sem uma atividade como essa. Isso agrega conhecimento, tanto com os parentes como com outras pessoas não indígenas”, afirma Aritana.

 

Desde o primeiro dia na Aldeia Multiétnica, na Chapada dos Veadeiros, Vinícius já espalhava aos quatro cantos: “Sei cantar fulni-ô. Só vim para ver os fulni-ôs.” A aproximação dele com a tribo foi imediata e intensa. O menino estava sempre com um cocar de penas azuis na cabeça e com o rosto e o corpo pintados com urucum.

Batizado segundo os ritos dos fulni-ôs, passou a ser chamado de DjoDjo, que significa “pássaro” em iatê. “O ritual de batismo foi maravilhoso, comovente. Foi uma aproximação natural, fluida. Fomos embora transformados e isso repercutiu em todos que convivem com a gente”, conta Sant’Anna.

Para Fitxyá Fulni-ô, que participou do batismo, fatos assim não acontecem por acaso: “Ficamos emocionados com esse menino. Ele é um grande guerreiro. Estaremos cuidando dele para sempre, mesmo a distância.”