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Escrita frenética

Taquígrafos correm para registrar as falas no Congresso

Marcos Amorozo
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Em 17 de abril de 2016, centenas de deputados se amontoaram no plenário da Câmara para votar a favor ou contra o impeachment de Dilma Rousseff. Ali ninguém tinha um posto mais privilegiado para ouvir e ver muito bem o que se passava do que a taquígrafa Juliana Baldoni Figueiredo.

Ela estava sentada, como sempre, logo abaixo da mesa diretora, comandada pelo deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), presidente da Câmara e um dos principais artífices do impeachment. Foi ele quem proclamou, logo no início dos trabalhos: “Que Deus tenha misericórdia desta nação.” Deus, infelizmente, não teve – nem do Brasil nem do próprio Cunha, que foi condenado a 15 anos e 11 meses de reclusão pelos crimes de corrupção passiva e de lavagem de dinheiro, e atualmente cumpre prisão domiciliar.

Figueiredo vinha acompanhando quase sem folga as sessões e os debates nervosos daquele mês de abril. “Eu e meus colegas passamos dias e noites virando, com escala, sessão atrás da outra. No fim de semana do impeachment, trabalhei sem parar, fui para casa só para dormir”, recordou. Deve-se a ela e a seus colegas a anotação de cada palavra do discurso de cada deputado, sem faltar nenhuma.

A rotina frenética no plenário durante o processo de impeachment foi a seguinte: 15 taquígrafos revezavam-se a cada 4 minutos para anotar os pronunciamentos. Terminado o tempo, o taquígrafo corria para uma sala e fazia a transcrição das falas em letras cursivas para o computador, deixando o texto pronto para futura publicação nos arquivos e no site da Câmara. Essa tarefa durava em média 35 minutos e, uma vez terminada, o taquígrafo voltava à fila para substituir o colega no plenário.

“O ritmo foi pesado e intenso, mas foi aquele pesado bom. Acho que todo taquígrafo tem esse orgulho de registrar a história”, afirmou Figueiredo, de 36 anos, servidora da Câmara desde 2009. “Quando o impeachment for objeto de pesquisa, vai ser ao nosso texto que as pessoas vão recorrer.”

A taquigrafia (do grego takhys, depressa, e graphein, descrever) é uma técnica de escrita baseada em signos geométricos que representam fonemas (os sons das sílabas) ou palavras inteiras. Assim, a palavra “inconstitucional”, que tem dezesseis letras, na escrita taquigráfica terá apenas quatro signos. Esse método permite copiar a fala mais rapidamente que a escrita comum. Alguns profissionais são tão velozes que conseguem registrar até 140 palavras por minuto com alta precisão.

A origem da escrita rápida é incerta, mas a taquigrafia moderna começou a ser fixada no século XVIII. Vários métodos foram desenvolvidos, e cada taquígrafo costuma escolher aquele que acha melhor para si, fazendo adaptações pessoais. Entre os taquígrafos do Congresso, os métodos mais usados são o Martí (do espanhol Francisco de Paula Martí Mora) e o Leite Alves (do brasileiro Oscar Leite Alves). No Brasil, a taquigrafia parlamentar foi instituída por José Bonifácio de Andrada e Silva para anotar as discussões da Assembleia Constituinte de 1823. Resiste até hoje, apesar dos registros feitos em áudio e vídeo.

“Várias vezes recorri às anotações dos taquígrafos para tirar dúvidas”, contou a deputada Erika Kokay (PT-DF), que segundo alguns deles é uma das que mais defendem o trabalho que fazem e mais utilizam as anotações para confirmar falas. “É um trabalho de extrema importância, pois registra e resgata toda a memória do Poder Legislativo, evitando que haja distorções ou negacionismos dos fatos ocorridos”, acrescentou Kokay. O Congresso Nacional é uma das poucas instituições que ainda preservam um grupo de taquígrafos – são 90 no Senado e 98 na Câmara, com remuneração mensal que pode chegar a 31,5 mil reais.

Lizete de Almeida Castro aprendeu a escrita rápida com o pai e passou em primeiro lugar no concurso que a levou ao Senado, em 1963. Permaneceu por quase três décadas no Congresso. No ano em que começou a trabalhar, foi testemunha do assassinato, no plenário, do senador José Kairala (PSD-AC) pelo também senador Arnon Afonso de Farias Mello (PDC-AL), pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello.

“Arnon de Mello discursava exaltado. De repente, sacou uma arma e mirou na direção de Silvestre Péricles [PTB-AL], seu adversário, e atirou. Só tive tempo de pegar meu bloquinho de papel, o lápis e me esconder embaixo da mesa”, relembrou Castro, de 86 anos. O senador errou o alvo e acertou em Kairala, que não tinha nada a ver com a disputa política que ele travava com Péricles. Apesar do choque logo no início da carreira, Castro disse que o trabalho no Senado foi em geral tranquilo e prazeroso. “Aprendi muito sobre os mais diversos assuntos.” Depois de aposentada, ela implementou o serviço de taquigrafia na Assembleia Legislativa do Distrito Federal, escreveu um livro sobre técnicas de taquigrafia e deu aulas.

Mesmo com os avanços tecnológicos, Juliana Figueiredo acredita que a sua função não vai morrer, mas se adaptar. “O texto segue sendo um registro fácil para pesquisar e possui um processo muito rigoroso que atesta a sua veracidade.”

Um exemplo disso ocorreu durante a aprovação da PEC Emergencial, em 10 de março. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), encerrou uma sessão deliberativa extraordinária às 21h45 e, em seguida, abriu uma nova sessão para dar continuidade aos debates, mantendo o painel de presenças anterior. Deputados da oposição alegaram que aquilo não era certo e que Lira não teria escutado pedidos para a formação de um novo painel, o que deu início a um bate-boca. “Foi quando pediram as notas taquigráficas para confirmar o que os parlamentares tinham dito. E, pelos registros, não tinha havido manifestação contrária à continuidade do painel”, disse Figueiredo. A sessão, então, continuou. “Nessas horas dá para ver como o nosso trabalho é ágil e resolve problemas como esse.”

Os taquígrafos também estão em posição privilegiada para avaliar a qualidade da oratória dos congressistas ao longo do tempo. Castro considera que, na época em que ela trabalhava no Senado, eles se preparavam melhor para falar na tribuna. “Os senadores eram muito bons oradores, com fala bem articulada e linguagem clara. Um dos que eu mais gostava de ouvir era Jarbas Passarinho, que passava emoção quando falava. Hoje, eles têm uma fala mais enrolada e mudam de entonação em vários momentos, o que acaba prejudicando um pouco o trabalho do taquígrafo.” Figueiredo pensa diferente. “As sessões agora não têm muito espaço para falas longas, e os deputados preferem se comunicar de forma mais direta com as bases, modernizaram o discurso e largaram mão de linguagens muito rebuscadas.”



Marcos Amorozo

Estagiário de jornalismo na piauí, é estudante da Universidade de Brasília (UnB)

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