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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

esquina

Esquerda bambolê

Política com purpurina

Luiza Miguez | Edição 103, Abril 2015

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Uma jovem nua aguardava que sua colega a libertasse das várias camadas de filme plástico que a amarravam a um poste. Cabisbaixa, ela encarava fixamente um ponto no chão. Um líquido vermelho viscoso, de natureza incerta, escorria por seu corpo. Sem pressa, a redentora, vestindo apenas uma calça com suspensórios, encarava a performer enquanto esfregava uma machadinha pelos próprios seios. Encerrado o ritual, ela se serviu da mesma machadinha para cortar o plástico que aprisionava a outra, sob os flashes de máquinas fotográficas ao redor.

A cena aconteceu no primeiro domingo de março, sob uma tenda de circo armada na praça Tiradentes, no Centro do Rio de Janeiro. Dispersos pelo ambiente, um rapaz caminhava do alto de um par de pernas de pau, pessoas giravam bambolês. Mais adiante, um grupo de músicos preparava seus instrumentos ao lado de um estandarte carnavalesco com o desenho de uma folha de maconha que jazia no chão.

Quem passasse por ali naquele momento talvez não se desse conta de que estava em curso um ato político. Os organizadores do evento faziam circular um panfleto que tentava dar sentido à encenação. “Somos o Bonde do sonho, da luta e da intrepidez/A nossa arte é doideira e lucidez”, lia-se no manifesto escrito em versos. A autodefinição não parecia capaz de jogar muita luz sobre o entendimento de transeuntes desavisados.

“A gente faz parte de uma série de artistas e coletivos que se juntou para fortalecer as pautas populares”, esclareceu Tomás Ramos, um dos organizadores. Ramos tem 31 anos, cabelos pretos curtos e cara de menino; advogado, trabalha como assessor parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL. Era ele quem distribuía o manifesto-poema e pedia animação aos presentes. “Queremos fazer a política ficar legal e criativa”, afirmou. No que dependesse dele, o ato teria sido ainda mais inventivo. “Era para ter até bambolê com fogo, mas acabou que não conseguimos fazer.”

O encontro na praça era o primeiro realizado pelo Bonde, que se diz “uma frente artística de esquerda”. Surgido no final de 2014 e integrado por poetas, grafiteiros, atores e dançarinos, o grupo promove encontros semanais na Tiradentes; sentados no chão e dividindo cervejas, os participantes discutem política. Com o ato daquele domingo, pretendiam disseminar suas ideias entre um público mais amplo.

 

O evento atraiu algumas centenas de pessoas. Cerca de dez barraquinhas circundavam a tenda de circo montada no meio da praça. Representantes de movimentos sociais distribuíam panfletos e passavam abaixo-assinados cujas pautas e reivindicações giravam em torno de temas cariocas. Alguns pediam a criação de um espaço de memória no antigo prédio do DOPS; outros questionavam a construção de um campo de golfe numa reserva ambiental para as Olimpíadas de 2016. “Por causa dos megaeventos o Rio se tornou um laboratório do capital”, disse Ramos. “A gente vê aqui uma oficina da rebeldia, um ateliê para novas formas de resistência.”

O advogado caracterizou seus companheiros como uma nova geração política “claramente anticapitalista”, que nunca viu ou não se lembra do país sob o governo do PSDB. Acompanham o PT desde a adolescência e não acham suficientes as mudanças promovidas nas gestões de Lula e Dilma. São pouco permeáveis à pauta dos protestos que vêm canalizando críticas ao governo federal em todo o país. No mês dos panelaços em várias capitais brasileiras, no evento não se ouviram palavras de ordem contrárias a Dilma, tampouco se falou em Petrobras ou Operação Lava Jato.

Artistas e músicos revezavam-se ao microfone no centro da tenda. Poemas eram declamados a cada 45 minutos. Em dado momento, um poeta mais exaltado tomou a palavra e monopolizou o microfone. Durante quase dez minutos, balbuciando palavras nem sempre com muito sentido, pedia que o público o acompanhasse com palmas.

O historiador Bruno Borja, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e um dos organizadores do ato, vê mérito em abrir o microfone para quem quiser se manifestar. “É importante que os presentes venham não só para assistir, mas também para se expressar”, disse. “Ainda que o poema não seja explícito, ele pode mexer com questões profundas da plateia.”

 

Romper com o modelo convencional de reivindicação política é uma das bandeiras do Bonde. “Desde as manifestações de junho de 2013, ficou clara para nós a necessidade de renovar as estratégias de ação política da esquerda”, disse Tomás Ramos. Os tradicionais carros de som e as bandeiras de partidos, sempre presentes em atos públicos, não passaram perto da praça naquele dia. “Adotando o nome de ‘feira cultural’ você consegue conquistar para o debate até quem tem preconceito.”

Mas Ramos frisou que as performances encenadas não podem fazer sentido unicamente para quem as concebeu. “Quem não está participando e vê os bambolês às vezes pode não entender nada”, admitiu. “Essa é uma das precauções que a gente sempre vai ter. Não podemos voltar aos métodos ultrapassados, nem pesar a mão na purpurina.”

O desafio não é dos menores, a julgar por alguns olhares perplexos diante do número em que a moça com a machadinha libertava a colega nua presa ao poste. Um vídeo da performance foi publicado no YouTube. “Eu devo ser muito ignorante mesmo”, reagiu um internauta, “não entendi absolutamente nada.”