chegada

Esse café é de morte

Encontros para falar da Indesejada das Gentes

Beatriz Portugal
ILUSTRAÇÃO: PATRICIA KLAYMAN_PATRICIAPRINTS.COM

Antonio, o único garçom do local, não parece estranhar as frases que entreouve ao ziguezaguear entre as mesas, distribuindo xícaras e bolos. “O que você considera uma boa morte?”, pergunta uma mulher. “Qual é o seu maior medo quando pensa em morrer?”, quer saber uma outra, depois de explicar que prefere cremação a enterro, pois ao serem espalhadas suas cinzas lhe permitirão “estar” em vários lugares que amou em vida. O volume das vozes sobe e arrefece, súbitas explosões de riso se ouvem aqui e ali, por vezes se imiscui um breve silêncio. A pauta que vigora é o definhamento da vida.

O encontro naquele café de Londres é um dos muitos organizados pelo Death Cafe, organização sem fins lucrativos que visa “aumentar a consciência da morte a fim de ajudar as pessoas a viverem melhor”. O conceito é simples: um grupo se reúne para falar de todo e qualquer aspecto relacionado à finitude da carne. Enquanto beliscam salgados e doces, refletem sobre o assunto e reconhecem que o inevitável é apenas natural.

Discute-se a decadência do corpo e a possibilidade de vida após a morte, passando pela aceitação do fim e por aspectos de ordem prática, como instruções médicas e testamentos. Mas os participantes estão longe de constituir um grupo de enlutados ou doentes terminais, muito menos de pessoas obcecadas com a morte.

 

Joy Richmond, de 86 anos, diz que tem pensado no tema e sente “curiosidade em saber como as pessoas conversam a respeito disso”. Muito calma e elegante, a senhora com os cabelos inteiramente brancos conta que seu medo não é da morte em si. Ela a encara como aquilo “que completa nossa vida”. Preocupa-se, isso sim, com o processo degenerativo que por vezes antecede o último momento.

Receando depender de outras pessoas que não venham a respeitar suas escolhas, há três anos Joy convocou os filhos para uma conversa franca. “Queria falar dos meus medos, ser ouvida por minha família, para que assim todos planejássemos como seria o fim”, explicou.

Seus três filhos consideravam o assunto deprimente e não queriam papo. Joy tanto insistiu que eles entenderam e concordaram com seu desejo de compartilhar uma experiência que lhe parecia relativamente próxima. Hoje, a cada seis meses todos se encontram para exorcizar eventuais angústias e aflições. “Apesar de nos reunirmos e de todos estarem a par das minhas vontades, como a de morrer em casa, por exemplo, minha filha do meio me assusta um pouco”, confessa Joy. “Tenho medo de que na hora H ela resolva fazer o que bem quiser. Ela é muito mandona.”

A ideia de discutir algo deliberadamente ignorado, verdadeiro tabu, foi criada pelo sociólogo suíço Bernard Crettaz. O primeiro Café Mortel de Paris data de uma década atrás, mas quem de fato divulgou o conceito foi o inglês Jon Underwood, com o movimento Death Cafe. Desde 2011, quando Underwood convidou seis conhecidos para o primeiro encontro – na sala da sua casa e mediado por sua mãe, que é psicoterapeuta –, já foram realizados mais de 989 eventos em dezenove países.

 

De início, as reuniões eram um tanto roteirizadas, com base num esquete para lá de teatral, com os participantes anotando seus temores em papeizinhos que ao final eram queimados na lareira. O ritual crematório de medos evoluiu.

Agora, o organizador inicia o encontro explicando que a única regra é o respeito às opiniões e crenças alheias, e que não se trata de “terapia ou conselhos existenciais”. Os trinta participantes, compostos majoritariamente por pessoas de meia-idade – embora o movimento esteja aberto a qualquer um –, se dividem em pequenos grupos, mais propícios a intimidades. Cada mesa possui um moderador, que entra em cena sempre que a conversa morre, já que muitas vezes os participantes não sabem como dar início ou prosseguimento às discussões.

A conversa começa com uma rápida apresentação da mesa, cada um expondo o que o motivou a estar ali. Superada a timidez das preliminares, passa-se às narrativas de experiências com a morte e à discussão sobre como a reserva em se falar do assunto maldito afeta o modo como vivemos.

Joy conta que, desde criança, quando perdeu o irmão caçula, a morte virou tabu em sua família. Apesar de não compreender direito o que havia acontecido, a menina sentia, pela reação dos pais e o tratamento que dispensavam a ela, que o acontecimento os afetara profundamente. O mesmo silêncio escrupuloso ressurgiu quando da morte de seu marido. Meses depois do funeral, o neto mais novo da família ainda não sabia do ocorrido, mesmo que sentisse a ausência do avô. “Sempre que ele me via, perguntava onde estava o vovô”, relembra. Ao entender o que se passara, teve uma reação que arrancou risadas de todos: “Não fica triste, vovó”, disse o neto a Joy. “Você sempre pode casar com outro velhinho.”

Histórias como as de Joy ajudam a relaxar as pessoas e deixam as reuniões mais leves, parecendo uma mistura de clube do livro e sessão de terapia em grupo, mas numa atmosfera de conversa de bar. Silêncio sepulcral, só quando alguém cogita sobre o horror máximo de perder um filho. Sobre isso, até a moderadora de mesa evita falar.

Mais do que mórbido, é um encontro mundano. “O modo como nossa sociedade tolhe as questões sobre o desfecho da existência pode ser sufocante”, disse Underwood em entrevista por telefone. “Falar honestamente do assunto pode ser muito libertador.”

Joy concorda em número e grau, e diz que provavelmente participará de outros encontros, pois acabam sendo “não tanto sobre como morremos, mas como vivemos”. Com seu impecável sotaque britânico, a senhora fina e bem-composta, ciente de estar próxima ao fim, conclui que aqueles que estão dispostos a aceitar a morte só têm a ganhar.

Beatriz Portugal

Beatriz Portugal é jornalista brasileira radicada em Londres.

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