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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

esquina

Estamos de olho, Dunga

Tino e tento de Suplicy promovem o consenso de Brasília

Cristina Tardáguila | Edição 45, Junho 2010

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Na tarde do dia 11 de maio, os trabalhos no plenário do Senado avançavam com o vigor de uma preguiça cataléptica. Entre outras atividades, debatia-se ali o artigo que Caetano Veloso publicara no Globo sobre o abandono do Pelourinho, discutia-se a criação da Ufampa, a Universidade Federal do Arquipélago do Marajó, e votava-se o destino de uma enfiada de embaixadores, a serem despachados para países como Tunísia, Senegal, Gâmbia, República do Chipre, Sérvia, Montenegro, Bulgária, Macedônia, Albânia, Austrália, Japão etc.

No centro da mesa, relativamente ereto na poltrona azul, o presidente da casa, José Sarney, munira-se de seu desinteresse profissional para dar andamento à 70ª sessão deliberativa do ano. Ao ouvir o projeto de lei do senador Flexa Ribeiro – segundo o qual o fabricante de automóveis estará obrigado a incluir no manual do proprietário o nome, a marca e o código de referência das principais peças do veículo –, Sarney ajustou os óculos de aro fino sobre o nariz e bloqueou um bocejo. Quando escutou o projeto de lei da senadora Serys Slhessarenko – que conferia ao município de Sorriso, em Mato Grosso, o título de capital nacional do agronegócio –, jogou-se contra o encosto da poltrona azul. Entre os senadores presentes, o papo corria solto por telefone ou ao vivo, com colegas, jornalistas ou funcionários. Qualquer ocupação aliviava aquele estupefaciente torpor legiferante.

Nas galerias, de onde os visitantes podem cochilar, ler, fazer tricô e até acompanhar as sessões, o clima também não era de atenção desmedida. Um bebê se esgoelava nos braços da mãe, inconformado por lhe impingirem tão precocemente o espetáculo do Legislativo nacional. Nas cadeiras bem na direção de Sarney, um grupo de aposentados aumentava o volume de seus aparelhos auditivos a cada novo senador que tomava a palavra, crentes que agora, sim, ouviriam um pronunciamento sobre o reajuste das aposentadorias. Sistematicamente errados, voltavam ao bate-papo.

E foi então que aconteceu.

Ali no plenário, rompendo a lomba, sacudindo a malemolência e dando um chega-pra-lá na leseira, ergueu-se, dos cafundós de Morfeu, o senador Eduardo Suplicy. A aparição normalmente é senha para retirada, mas não desta vez. De terno escuro e gravata vermelha, ele caminhou fleumaticamente até o microfone e, com sua entonação não flamejante, avisou: “Senhor presidente, há um acontecimento hoje de extraordinária relevância do ponto de vista internacional, com grande repercussão no Brasil e no mundo.” As sobrancelhas de Sarney se mexeram.

“Às 13 horas”, informou lentamente Suplicy, “as principais emissoras de rádio e televisão do Brasil e do mundo anunciaram a convocação dos jogadores da seleção brasileira pelo técnico Dunga.” Instintivamente, por todo o recinto, orelhas ficaram em pé.

“Ao mesmo tempo em que cumprimento todos os 23 jogadores convocados”, prosseguiu o senador, “quero notar que, dentre eles, vinte estão servindo em times no exterior. Apenas Gilberto, do Cruzeiro, Kléberson, do Flamengo, e Robinho, do Santos, jogam no Brasil.”

Ah, o que pode um verbo intrépido e inspirado… Cessou todo cochicho paralelo, calou-se de pronto a conversa fiada e eis que do salão tomou conta um silêncio avassalador. Era o reconhecimento tácito de que, até que enfim, um tema de importância fora trazido à atenção do país.

Suplicy, sempre ao microfone, encareceu que os anais registrassem seu voto de esperança. Ele acreditava – a contrapelo da lista recém-divulgada pelo técnico Dunga – que Neymar, Ganso, Adriano, Ronaldo e Ronaldinho ainda poderiam, como afirmou, “abrilhantar” o sonho do hexacampeonato: “Ainda há sete vagas em aberto!” Não era bem verdade, mas dava alento.

 

Os aposentados e os pais do bebê só não bateram palmas entusiásticas por não saberem que tinham o direito de fazê-lo. Os jornalistas, sacando os celulares, dispararam o pronunciamento para as redações.

Com vistas a não desperdiçar o alvoroço dos repórteres, o peessedebista Alvaro Dias assenhorou-se agilmente do microfone da tribuna e deu sua contribuição: “O Congresso Nacional tem de se preocupar, sim, com a legislação do desporto! O futebol não é apenas uma atividade lúdica. É também uma atividade essencialmente econômica, geradora de emprego, de renda, de receita pública e, portanto, promotora do desenvolvimento econômico do país!”

Acionando rapidamente o microfone de sua mesa, o senador Tasso Jereissati se viu compelido a expressar sua “mais profunda decepção com a convocação”, e, deixando claro que não protestava em causa própria, carregou no sotaque nordestino – que normalmente não tem – para frisar que não era, não fora nem jamais seria torcedor do Santos (seu time é o Ceará). Isso lhe dava isenção para afirmar que a ausência dos santistas Neymar e Ganso decepcionara milhões de brasileiros. Foi com argúcia que sustentou sua indignação: “Futebol, essa paixão a que Vossa Excelência se referiu, vem desse charme, desse encanto que o futebol brasileiro, alegre, criativo, conseguiu mostrar para o resto do mundo. Excluir esses dois jogadores da seleção brasileira é uma tristeza […] Hoje, aqui, há uma aclamação suprapartidária ao redor deles!”

Na mesma hora pediu a palavra o senador Aloízio Mercadante. Parecia emocionado. Pensou-se que, como de hábito, divergiria de Jereissati, mas o quê. Depois de lembrar que Santos era a sua cidade natal e de se declarar apaixonado pelo clube em que seu avô jogara, ele comparou o jovem Ganso a Adhemir da Guia e aplicou-lhe um bonito epíteto: “arquiteto do futebol.” Cheio de espírito republicano, Mercadante lamentou: “É uma pena que o futebol não seja como na democracia, em que o povo escolhe.” Em seguida, foi propositivo: sugeriu a criação de uma Lei Rouanet só para o futebol – “porque é pura arte o ataque que o Santos tem demonstrado.” Romero Jucá, marcando presença pelo PMDB, imediatamente ligou o microfone de sua mesa e dali mesmo registrou apoio irrestrito à matéria.

Estava de bom tamanho, deve ter pensado o experiente presidente Sarney, do alto de suas sobrancelhas até que enfim grisalhas; quinze minutos de debate cívico-futebolístico e a pauta já começava a embolar. Só deu tempo de Alvaro Dias lançar uma advertência final ao técnico Dunga: “Ele demonstrou enorme personalidade, mas assume todos os riscos do seu gesto!” A mesa cortou o microfone do orador enquanto todas as cabeças de senador assentiam, em grave consenso.

Somente para Eduardo Suplicy não era ainda o momento de retomar a modorra, pois faltava-lhe fazer um registro. Com seu ritmo não afobado, ele comunicou que a sessão daquela tarde estava sendo acompanhada “por uma delegação do Parlamento suíço.” De mais não precisou para devolver a plateia ao tédio incapacitante. Alguns retomaram a conversa telefônica, outros passaram a reclamar do clima seco. Do alto das galerias, o bebezinho, que cochilara uns minutos no colo da mãe, voltou à carga.