esquina

Estrela cadente

Um bistrô na França profunda

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O relógio atrás do bufê marcava sete e dez da manhã quando tocou o telefone do restaurante Le Bouche à Oreille em Bourges, no centro da França. Véronique Jacquet, a dona do estabelecimento, estranhou a hora: acabara de abrir as portas e não esperava ninguém. Do outro lado falava o repórter de uma rádio local, com uma notícia extraordinária: “A senhora ganhou uma estrela do guia Michelin.”

Jacquet, uma mulher com pouco mais de 50 anos e cabelos castanhos, reagiu comme il faut: com incredulidade. Não fazia o menor sentido que recebesse a distinção da bíblia da gastronomia, almejada por chefs de todo o mundo. A edição deste ano contemplou 616 restaurantes franceses; a nota máxima, três estrelas, foi reservada a apenas 27 estabelecimentos, incluindo os de Paul Bocuse, Alain Ducasse e Michel Troisgros.

Nada mais distante do Bouche à Oreille, um bistrô de bairro como milhares de outros pelo país (o nome quer dizer “boca a boca” em francês), cuja clientela é composta sobretudo por trabalhadores e operários. “Cozinho pratos caseiros para clientes que precisam comer rápido”, explicou Jacquet enquanto preparava as mesas numa manhã de abril. A casa não tem cardápio: uma tabuleta na entrada anuncia o prato do dia e um bufê de frios para a entrada. A refeição completa, com sobremesa e vinho, sai por 12,50 euros, pouco mais de 40 reais (quem quiser só o prato principal come por 9,50 euros).

“Logo o meu restaurante, que só abre para almoço e durante a semana”, retrucou Jacquet ao telefone quando soube que ganhara a distinção. “E além de tudo o banheiro fica do lado de fora!” Não era pegadinha ou trote: o Bouche à Oreille de fato figurava no mapa de restaurantes estrelados, ao lado dos maiores templos da culinária francesa. Mas se tratava de um engano, como o repórter apressou-se em esclarecer. A estrela deveria ter sido atribuída a um estabelecimento homônimo e de endereço quase idêntico ao de Jacquet – só que quase 200 quilômetros ao norte, na cidadezinha de Boutervilliers.

Na esteira do equívoco, dezenas de jornalistas e equipes de tevê desembarcaram em Bourges para conhecer o salão modesto com treze mesas do improvável bistrô estrelado. “Vieram todos”, disse a proprietária, sem disfarçar o mau humor.

Natural de Bourges, Jacquet decidiu abrir o Bouche à Oreille há dois anos e meio – antes disso já administrara um bar-tabacaria, no centro histórico da cidade. Conta com a ajuda de uma única funcionária, que cozinha e também serve os clientes. A casa não tem uma especialidade. Naquela quinta-feira, o bufê de frios oferecia tabule, tomate com salsicha e alho-poró ao vinagrete. “O prato do dia é talharim à carbonara”, disse a patroa, sacando um cigarro e dirigindo-se para a porta. “Agora com licença que os clientes já vão chegar.”

 

A refeição completa no bistrô de Jacquet custa pouco mais de um terço do valor de uma das marcas registradas do Bouche à Oreille estrelado, o hambúrguer de lagosta com foie gras salteado, servido como entrada. Os crustáceos são criados num grande aquário na recepção – o chef Aymeric Dreux estima cozinhar de quarenta a sessenta peças por semana. Mas é possível comer a preços mais acessíveis no restaurante premiado, que oferece menus com prato e sobremesa a partir de 34 euros, cerca de 115 reais.

Após trabalhar ao lado de pesos pesados da cozinha francesa, Dreux decidiu abrir seu restaurante em 2009. Instalou-se em Boutervilliers, sua cidade natal – um vilarejo com pouco mais de 400 habitantes. “Em nosso ofício a qualidade é que faz o lugar, e eu queria provar isso a mim mesmo”, disse o chef, um homem baixo de 35 anos e cabeça raspada. “Quando você está plantado no meio do nada, como eu, o negócio só funciona na base do boca a boca, daí o nome.”

Dreux gosta de reinterpretar clássicos da culinária francesa. “Faço uma cozinha burguesa revisitada”, definiu. A fórmula fez sucesso entre os críticos: há dois anos o Bouche à Oreille conquistou sua primeira estrela no guia Michelin. Quando abriu, o estabelecimento tinha três pessoas na equipe; hoje, Dreux emprega quinze funcionários.

Foi uma maître quem mostrou ao chef a notícia da estrela atribuída indevidamente ao restaurante homônimo. Dreux reagiu com bom humor. “Foi apenas um quiproquó burlesco”, minimizou. “Se a confusão acontecesse com um restaurante gastronômico que tivesse pretensões de conquistar uma estrela, aí teria sido mais complicado.”

O chef estrelado fez gosto principalmente da publicidade gratuita que o episódio lhe garantiu. Passou a receber mais fregueses de Paris, a cerca de 60 quilômetros de distância, antes uma fatia menor da clientela. Outros donos de restaurante, em contrapartida, devem ter achado muito pouca graça na confusão entre os dois Bouche à Oreille. “Falou-se mais disso do que de todos os outros chefs que ganharam estrelas em 2017”, notou Dreux.

 

Em Bourges, Véronique Jacquet também festejou a exposição inesperada, mas lamentou a perda do sossego. Muitos curiosos quiseram conhecer o seu restaurante – mas como o erro se limitou à versão online do guia, e foi corrigido em poucos dias, ninguém chegou a acreditar que estava de fato comendo num verdadeiro restaurante estrelado.

Ocorre que os holofotes acabaram por afastar alguns habitués. “Não vim nesse meio-tempo porque achava que estaria lotado”, disse um jovem que tomava chope com um colega antes do almoço. Sua presença ali, dois meses depois do mal-entendido, sinalizava o retorno à normalidade. Para comemorar a confusão, Jacquet mandou fazer uma estrela dourada com cara de gente, a boca sorrindo e um olho piscando, pregada na parede ao lado do menu. A história também lhe rendeu um convite para comer no restaurante estrelado e uma proposta de compra do estabelecimento, que ela negou. “Estou bem demais aqui.”

Naquela quinta-feira o movimento foi moderado. Passado o meio-dia, um casal ocupou uma mesa ao fundo; pouco depois, chegaram dois homens que pareciam ter vindo de um canteiro de obras, a julgar pelas manchas nas calças e jaquetas. Jacquet serviu um carbonara digno, mas não memorável; os rapazes que bebiam no balcão não ficaram para comer.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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