chegada

Estrela do partido

Ídolo da canção patriótica, a mulher do novo dirigente chinês põe as madeixas, o trinado e o tafetá de molho

Claudia Antunes
Com a bênção do Exército, Peng Liyuan interpreta canções folclóricas e de propaganda
Com a bênção do Exército, Peng Liyuan interpreta canções folclóricas e de propaganda FOTO: CHINAFOTOPRESS_GETTY IMAGES

Para Peng Liyuan, não foi amor à primeira vista. Ela achou Xi Jinping malvestido e envelhecido – com a pele marcada e as pálpebras inchadas – quando os dois se conheceram na casa de um amigo comum em Xiamen, na província costeira de Fujian, em 1986. Foi só quando ele acionou a voz de locutor de rádio, querendo saber detalhes da técnica de canto dela, que Liyuan começou a se render, como contou a um jornal regional chinês. Concluiu então que o futuro marido era “simples, mas inteligente”.

Na época daquele encontro, Xi, o recém-ungido secretário-geral do Partido Comunista e próximo presidente da China, era o vice-prefeito de uma modorrenta Xiamen. Tateava no amor e na política. Tinha se divorciado da primeira mulher, que decidira morar na Inglaterra. Mesmo pertencendo à tribo dos “pequenos príncipes”, por ser filho de um proeminente líder revolucionário, Xi Zhongxu, Xi ainda teria que exibir muita discrição e enfrentar anos de conchavos para alcançar o centro do poder.

Liyuan, do seu lado, já tinha cumprido a sorte prenunciada no seu nome: “bela belíssima”. Depois de se alistar aos 18 anos no Exército de Libertação Popular, ficou famosa no início dos anos 80, quando estreou no espetáculo produzido pela tevê estatal no Ano-Novo chinês. Uma soprano poderosa, com maçãs do rosto marcadas, cabelo comprido ondulado e o corpo esguio à vontade em vestidos de baile brilhantes ou trajes típicos estilizados, Liyuan seduziu as gerações que hoje têm mais de 40 anos. Intérprete de canções folclóricas e patrióticas, ganhou a patente de general de uma brigada de artistas.

 

No entanto, desde que Xi Jinping ascendeu ao Comitê Permanente do Politburo, o órgão executivo do Partido Comunista, em 2007, a imprensa notou que a artista abriu mão de parte da exuberância. Nas apresentações mais recentes, Liyuan, que tem 50 anos (nove a menos que o marido), preferiu o cabelo preso e as fardas militares. No ano passado, foi nomeada embaixadora oficial da Organização Mundial da Saúde para a Aids. Em 2008, quando um terremoto matou mais de 60 mil pessoas na província de Sichuan, ela se apresentou no local e divulgou que a filha, Mingze – agora com 20 anos e estudante em Harvard com um nome falso –, participou do socorro às vítimas.

Há muita especulação sobre se Peng Liyuan será uma primeira-dama à ocidental, mas a maioria dos que tentam adivinhar o futuro da China acha que não. As mulheres dos dirigentes são quase invisíveis no país desde que o reformista Deng Xiaoping ascendeu depois da morte de Mao Tsé-tung – cuja terceira e última mulher, a atriz Jiang Qing, foi condenada por boa parte dos “30% de erros” que o regime oficialmente atribui ao legado dele.

Xi Jinping é o primeiro secretário-geral que não foi abençoado por nenhum líder carismático da primeira geração (Deng indicou os antecessores de Xi, Jiang Zemin e Hu Jintao). A escolha dele foi fruto de um acordo entre as duas principais facções do PC, a dos pequenos príncipes, ligada a Jiang, e a dos que subiram através da Juventude Comunista, como Hu. Os primeiros são considerados elitistas e mais liberais na economia; os segundos, mais populistas. Xi não vai fazer nada diferente até consolidar seu poder, aposta Ho-fung Hung, chinês de Hong Kong que é professor da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. “Não sabemos o que Xi pensa, mas ele também não sabe, porque isso depende da evolução das disputas internas.”

No Ocidente, a vida das mulheres chinesas até o início do século XX foi popularizada nos livros da americana Pearl S. Buck e, depois, em filmes do chinês Zhang Yimou: casamentos arranjados, homens polígamos. No campo – onde ainda vivem cerca de 50% dos chineses –, a noiva ia viver com a família do marido, à qual se submetia. Os costumes antigos foram em parte suprimidos com a República, em 1911, e banidos – ao menos na lei – depois da revolução de 1949.

Para a Organização das Nações Unidas, o país que daqui a quatro anos deverá ter a maior economia do mundo é hoje o 35º com menor desigualdade de gênero; no ranking, o Brasil ocupa o 80º lugar. Mais mulheres trabalham fora de casa do que na Suécia, campeã da igualdade. Mas os casais preferem filhos homens – há 118 deles para cada 100 mulheres –, e as solteiras que passam dos 27 anos são alvo de uma campanha para que sejam menos exigentes na escolha dos consortes. O alto escalão é masculino: só há duas mulheres no novo Birô Político de 25 integrantes, e a única candidata ao Comitê Permanente acabou excluída. Hung diz que a cúpula do PC está “cada vez mais aristocrática e patriarcal”.

 

Antes da ascensão do marido, Peng Liyuan chegou a fazer 350 concertos por ano, em mais de 50 países. Deixou as apresentações remuneradas “pelo bem do partido”, disse a um jornal de Cingapura. Num vídeo recente, ela brinca com crianças órfãs com HIV. A modéstia é obrigatória no ano em que os sites da agência Bloomberg e do jornal foram bloqueados na China depois de publicarem reportagens sobre negócios de parentes de Xi e do primeiro-ministro em fim de mandato, Wen Jiabao.

Num texto sobre Liyuan, o Times lembrou um ditado da China imperial: “Uma grande beleza trará a queda de cidades e nações.” Madame Mao não foi a única chinesa que entrou para a história como manipuladora ou sedutora perigosa. Monarquistas responsabilizaram a imperatriz Cixi pela queda da última dinastia, a Qing. Da mulher do nacionalista Chiang Kai-shek, Soong Mei-ling, diz-se que arrancou dinheiro dos americanos para o marido embolsar. No último escândalo no PC chinês, Gu Kailai, mulher do dirigente Bo Xilai, foi condenada à morte pelo assassinato de um empresário britânico que teria enviado dinheiro do casal ao exterior.

Kailai foi julgada antes do marido, um “pequeno príncipe” protegido de Jiang Zemin até buscar publicidade pessoal demais, rompendo, segundo o professor Hung, regras não escritas da atual “liderança coletiva”. A bela Peng Liyuan deve saber onde pisa quando coloca o trinado, as madeixas e o tafetá de molho.

Claudia Antunes

Claudia Antunes é jornalista. Foi editora de piauí entre 2012 e 2015

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