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Eu tenho muitos segredos

    Retrato do músico Itamar Assumpção, por Dalton Paula: uma das técnicas do artista consiste em aplicar folhas de ouro na composição dos cabelos dos retratados para destacar sua nobreza CRÉDITO: DALTON PAULA_2020_ FOTO: PAULO REZENDE

questões de arte

Eu tenho muitos segredos

O artista plástico e ex-bombeiro Dalton Paula e sua notável busca pelos caminhos dos negros escravizados

Luísa J. Guirra | Edição 188, Maio 2022

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No Sertão Negro, como se chama o ateliê do artista plástico Dalton Paula, em Goiânia, cada coisa tem seu propósito, inclusive as plantas nos canteiros – espadas-de-são-jorge, cactos, pinhões-roxos, bredos e dracenas, também chamadas de paus-d’água. Elas formam um escudo verde, um “corredor de limpeza”, que, logo na entrada, trabalha as energias dos visitantes. “Quem é da macumba olha esse jardim e sabe que cada plantinha tem um significado”, explica Dalton, que é iniciado no candomblé. “Tudo vai trazendo uma identidade, uma entidade, mostrando que aqui é uma casa de cura.” Em um canteiro, vê-se um arbusto de algodão, relacionado a Oxalá, o pai de todos os orixás e sinônimo de harmonia e paz. Com a planta, o artista de 39 anos faz uma receita que aprendeu no Maranhão: “Você embebe a folha do algodão no óleo de rícino e coloca na cabeça, na frente e atrás, para tratar a dor.”

Aprendizados como esse estão ligados à produção do artista, como é possível ver na obra Paratudo, de 2015. O nome vem de uma bebida alcoólica baratinha, que leva no rótulo a figura de um indígena e é feita de uma mistura de raízes amargas. O título remete a uma espécie de arbusto com estonteantes flores cor de laranja ou lilás, conhecido como para-tudo-do-cerrado (Gomphrena macrocephala). No trabalho, Dalton mergulhou a erva guiné na cachaça, para “curtir” a mistura. Depois, envolveu as garrafas em uma rede de pesca, formando uma espécie de bornal, que ele amarrou com uma corda e dependurou no teto, como se fosse uma forca. Nos tempos da escravidão, uma mistura parecida de pinga com guiné era usada pelos negros escravizados para envenenar seus “donos”, deixando-os apáticos ou matando-os. A poção, um tipo de arma, era chamada de amansa-senhor.

O terreno de 960 m2 onde fica o Sertão Negro foi adquirido em 2017 por Dalton, em um condomínio de classe média chamado Shangry-la, a cerca de 12 km do Centro de Goiânia e próximo a um campus da Universidade Federal de Goiás (UFG). A inauguração do ateliê aconteceu três anos depois. O artista e sua mulher, a professora Conceição de Maria Ferreira da Silva, conhecida como Ceiça, estão morando no local, mas planejam construir uma casa ao lado. Pouco a pouco, o ateliê vai se tornando também um centro cultural, e o casal não descarta a ideia de, no futuro, transformá-lo em uma residência artística. Dalton foi buscar o nome Sertão Negro no clássico de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, mas acrescentou sua preocupação com a segunda diáspora dos pretos e pretas – para o interior do Brasil, quando tiveram contato com outras etnias indígenas. Não à toa, existe no Sertão Negro uma pequena palhoça que lembra uma oca, ao lado de duas fontes de água, cheias de carpas.

Tudo no lote foi construído pensando na sustentabilidade. Em um dos cantos do lote, bananeiras e taiobas formam a cobertura vegetal de uma bacia de evapotranspiração, isto é, um tanque no subsolo para tratar a água usada nos sanitários. Depois de tratada, a água é levada à altura do solo e capturada pelas raízes das plantas. O lote também dispõe de um reservatório que coleta a água da chuva e a direciona para atividades de limpeza da casa. “A gente quer habitar esse lugar de forma respeitosa, não somos os únicos moradores da floresta”, diz Dalton, referindo-se à reserva natural, repleta de jatobás, angicos, ingás e embaúbas, algumas das árvores com mais de 10 metros de altura.

Situado no centro do lote, o ateliê é uma construção com 320 m2, projetado pela arquiteta baiana Eneida Sanches. Em uma das laterais, há uma porta de 3,8 metros de altura, para permitir a passagem das pinturas e esculturas de grande porte. A porta de entrada, de tamanho normal, dá acesso ao primeiro cômodo – que não é uma sala, mas a cozinha. Ali, ficam duas mesas pequenas. Na primeira, há sempre uma garrafa de café e algum quitute. Na outra, uma bandeja cheia de copos, para que os visitantes se sirvam à vontade do café. “O nosso fogão é o mais simples que há. O Dalton sempre gosta de comprar o que tem de melhor, mas preferiu economizar para comprar mais tinta para pintar”, diz Ceiça, entre risos. Na parede, Dalton pendurou a foto de uma senhora negra, com os cabelos presos em um coque baixo. “Todo mundo pergunta se é minha avó. Mas não é, não. Achei em uma feira de antiguidades”, diz.

Depois de atravessar a cozinha, chega-se a um salão de 100 m2. É o ateliê propriamente dito, com os instrumentos de pintura de Dalton, como os cavaletes, as mesas onde ele faz as esculturas e uma biblioteca com cerca de mil volumes, aberta a quem queira pegar emprestado os livros. Um recorte no telhado coberto de placas de vidro permite ver a copa das árvores.

Nesse salão principal está a mais nova aquisição do artista: um forno para produção de objetos feitos de argila, em um processo chamado “queima”. O forno, um caixotão de 1,5 m2, é capaz de alcançar até 1300ºC, temperatura em que se consegue criar também objetos de porcelana. Dalton tem se aventurado na argila desde agosto de 2021, orientado pela artista e professora Anahy Jorge. “Ele é muito caprichoso, detalhista e sabe respeitar o tempo de cada material. A argila requer paciência. Movimentos muito bruscos ou apressados podem fazer o trabalho rachar”, diz Jorge.

Em 16 de fevereiro passado, quando a piauí visitou o ateliê, Dalton estava trabalhando no busto de argila de um homem negro. A escultura é inspirada em uma foto, sem autoria conhecida, de um descendente de escravizados nos Estados Unidos, no início do século XX. Foi encontrada pela mulher do artista. Dalton apanha uma espécie de espátula e com cuidado escava debaixo da gola do homem de barro, para deixá-la mais evidente. Depois, limpa a área com um pincel e recobre a peça com um plástico para não ressecar.

Esse busto integra uma instalação que Dalton vai apresentar neste ano na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a partir de 27 de agosto, exibição que ainda não tem título nem número de peças definidos. Um mês antes, em 29 de julho, ele abre a exposição Retratos Brasileiros, no Masp. Não é comum que um artista tenha duas grandes mostras inauguradas no espaço de trinta dias nas principais instituições artísticas de São Paulo. A exceção se deve ao seu crescente prestígio no meio artístico brasileiro e à projeção internacional que sua obra vem adquirindo.

 

A exposição Retratos Brasileiros exibirá entre vinte e trinta telas de Dalton Paula. Parte delas foi baseada em fotos feitas pelo artista de pessoas que vivem nos quilombos de Pinhões (na cidade de Santa Luzia) e Mato do Tição (em Jaboticatubas), ambos em Minas Gerais. Uma das telas-chave da exibição é Zeferina, de 2018, que faz parte da coleção do Masp. É o impressionante retrato de uma mulher de luminosos olhos claros, cuja silhueta negra se impõe com grande força sobre o fundo verde turquesa claro. A personagem retratada é uma escravizada de origem angolana que, no começo do século XIX, tornou-se líder do Quilombo do Urubu, perto de Salvador. Além de recuperar a imagem de um nome importante das lutas dos negros, a tela também alude a Zeferina de Légua, entidade do tambor de mina, religião de matriz africana.

João de Deus Nascimento (2018), outra tela da coleção do Masp que será exibida na mostra Retratos Brasileiros, resulta também de uma combinação de pesquisa histórica e mito. O alfaiate que dá nome ao quadro foi uma das pessoas à frente da Conjuração Baiana, revolta independentista ocorrida em 1798 com grande participação de pessoas negras. Ao mesmo tempo, seu prenome remete a um elemento religioso, porque é o mesmo de muitos pretos-velhos, como João de Aruanda, João do Congo e João de Minas. Seriam essas figuras, Zeferina e João de Deus Nascimento, parentes uma da outra, membros de uma família que Dalton quer reunir em suas pinturas? “Eu tenho muitos segredos e os revelo pouco a pouco. Ser praticante do candomblé não é uma condição para ver as telas. Na verdade, o que é necessário é sensibilidade”, diz o artista, um homem de poucas palavras e sorrisos miúdos.

A mostra do Masp – que tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, da historiadora Lilia Schwarcz e da artista Glaucea Helena de Britto – pretende juntar aos retratos dessas figuras históricas os trabalhos que Dalton fez entre fevereiro e maio de 2020 em Nova York. As telas nova-iorquinas também retratam personalidades combativas da época da escravidão, como Ganga Zumba, Chico Rei, Liberata e Luiza Mahin. Contudo, trazem algo diferente, reflexo das preocupações mais recentes do artista. Quando se compara os retratos de Zeferina e Luiza Mahin, nota-se que o segundo é menos dado à ideia de completude da imagem – um indício de que, por mais que se deseje, a memória não alcança tudo. “É muito difícil repetir no trabalho o mesmo gesto de antes da pandemia. Precisei me recolher em Nova York por um tempo. Sinto que a minha pintura ficou muito mais leve”, diz Dalton.

O artista pintou 24 retratos durante a estadia em Manhattan, que foram apresentados na exposição Dalton Paula: A Kidnapper of Souls (Dalton Paula: um sequestrador de almas), na galeria Alexander and Bonin, em setembro de 2020. Seis deles foram incorporados no mesmo ano à coleção do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) – dois doados pelo banqueiro nicaraguense Ramiro Ortiz Mayorga, e quatro pelo empresário norte-americano Henry Kravis, sócio da KKR, multinacional de gestão de investimentos. Kravis foi um dos apoiadores do ex-presidente Donald Trump, mas, no mundo da arte, é mais lembrado pela filantropia, que exerce ao lado de sua mulher, a empresária canadense Marie-Josée Kravis, conselheira do MoMA. O casal já presenteou o museu com uma tela de Henri Matisse, Flores de Ameixa, pintada em 1948 e avaliada em 25 milhões de dólares. A coleção de arte da dupla foi considerada pela revista ARTnews uma das duzentas mais importantes do mundo. Obras de Dalton também foram incorporadas às coleções do Instituto de Arte de Chicago e do Instituto de Arte Contemporânea de Miami.

O norte-americano Thomas Jean Lax, um dos curadores do MoMA, diz que chegou a hora de a obra dos brasileiros afrodescendentes obter reconhecimento internacional. “Dalton Paula é parte de uma nova geração de artistas de origem afro que está mudando a maneira como a arte brasileira é vista na Europa e nos Estados Unidos”, diz. Nesse sentido, ele chama a atenção para a importância da próxima Bienal de São Paulo, em 2023, que terá três curadores negros – a escritora portuguesa Grada Kilomba, a curadora Diane Lima e o pesquisador e crítico Hélio Menezes –, além do espanhol Manuel Borja-Villel, diretor do Museu Reina Sofía, de Madri.

Lax está atento às várias exposições no Brasil de artistas negros. Visitou virtualmente a mostra sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, apresentada no Instituto Moreira Salles de São Paulo, com curadoria de Hélio Menezes e Raquel Barreto. Quando esta reportagem foi fechada, ele estava planejando ir à inauguração da exposição Afro-Atlantic Histories na Galeria Nacional de Arte, de Washington. Organizada originalmente pelo Masp entre 29 de junho e 21 de outubro de 2018, a mostra com curadoria de Adriano Pedrosa, Hélio Menezes, Lilia Schwarcz e do artista baiano Ayrson Heráclito foi eleita em 2018 uma das melhores do mundo pelo jornal The New York Times. Na Afro-Atlantic Histories, são exibidos quatro trabalhos de Dalton – Zeferina, João de Deus Nascimento, Paratudo e Lima Barreto, um retrato do escritor.

Rodrigo Moura, crítico brasileiro e curador-chefe do Museo del Barrio, em Nova York, instituição pioneiramente voltada à produção latino-americana, é só elogios quando fala do artista. “O trabalho do Dalton é uma maravilha. Ele é um pintor extraordinário, com uma percepção iconográfica fora do comum e uma capacidade de criar retratos fascinantes, que impressionam”, diz. “A questão é que o Brasil é um país majoritariamente afrodescendente e, em contraste, essas representações são escassas. A ideia do mulatismo, tão cara ao modernismo e que abarcaria a negritude em alguma medida, é insuficiente para lidar com esse problema.” Moura também ressalta a importância da incorporação das obras ao acervo do MoMA: “Penso que a inclusão de Dalton na coleção de um museu moderno e canônico é um sinal positivo de que essa mudança que sua obra propõe possa acontecer efetivamente nas instituições.”

A mostra individual de Dalton Paula no Masp não será apenas de obras conhecidas. Haverá também um conjunto de pinturas inéditas, criadas a partir de fotos feitas entre 2020 e 2021 de populações kalungas – quilombolas que vivem nas proximidades da Chapada dos Veadeiros, na região Centro-Oeste. Uma das técnicas que o artista utiliza, desde os tempos nos Estados Unidos, é a aplicação de folhas de ouro na composição dos cabelos dos personagens. Agora, na leva brasileira, o material é aplicado mais detalhadamente, fio a fio, num ato quase meditativo. Sua ideia é criar uma correspondência entre os cabelos e as coroas reais, o que é um modo de mostrar a nobreza dos personagens retratados – os africanos escravizados no Brasil. Muitos deles eram, de fato, de famílias reais da África e foram trazidos à força para cá, como a princesa Zacimba Gaba, pintada por ele.

Para a exposição da Pinacoteca em São Paulo, Dalton tem aventado a possibilidade de criar uma instalação com bustos de argila e tamboretes. “Comprei um conjunto deles, com assento de couro. Lembram muito aquelas cenas que a gente viu na infância: alguém sentado em um banquinho, descansando debaixo de um pé de manga, ou várias pessoas reunidas, em seus tamboretes, festejando com um churrasco”, diz o artista, atualmente muito atarefado com as duas exposições do meio do ano, quando também será lançado o primeiro livro sobre sua obra, pela Editora Cobogó.

 

Durante doze anos, Dalton Oliveira de Paula dividiu o trabalho da pintura com o do fogo, trabalhando para o Corpo de Bombeiros em Goiânia. “Entrei em 2004, quando tinha 22 anos. A pintura não gerava receita para eu me sustentar. Saquei que, para continuar a fazer meu trabalho com liberdade, precisava ter outra profissão”, diz. Em 2016, ele abandonou a corporação, mas preservou as amizades feitas ali – até que as preferências políticas de seus ex-colegas levaram a um abalo nas relações. “Eu gosto deles, mas as mensagens que alguns enviam no grupo do WhatsApp são bem puxadas, com fake news e outras coisas de direita”, conta o artista.

Dos tempos que passou no Corpo de Bombeiros, ao menos uma lembrança ficou na obra de Dalton: os antigos colegas doaram os coturnos que aparecem em um dos trabalhos da série São as Cadeiras que Andam, de 2009. Prensados e amalgamados na forma de uma roda de 119 cm de diâmetro, os calçados rugosos servem de suporte para o desenho de uma cadeira de rodas, resolvido com poucos traços, rápidos – uma reflexão sobre quem pode avançar mais facilmente na vida e em que condições.

Na adolescência, Dalton se imaginou engenheiro de pesca, professor e até militar do Exército. Mas acabou fazendo um curso de graduação em química na Universidade Estadual de Goiás (UEG), de olho em uma sonhada carreira de cientista. “Minha mãe alertou o Dalton desde pequeno sobre a vocação artística dele. Mas ele continuou pensando em outras coisas. Acho que não estava preparado para assumir para si mesmo isso de ser artista”, conta Darlon Oliveira Dantas, de 35 anos, o único irmão de Dalton.

A sua mãe, Ana Ivete Antônio de Oliveira, funcionária pública aposentada de 62 anos, recorda como era forte sua intuição sobre o futuro do filho. “Eu já sabia que ele ia ser famoso. Nada para mim é novidade”, diz ela, que é mineira de Paracatu e viveu uma gravidez de risco para dar à luz Dalton, nascido em Brasília, em 1982. Ela era concursada no Ministério do Exército e trabalhou também em outras pastas. Mas, para bancar as despesas de casa, começou a vender roupas em paralelo. “O Dalton estudava em escola pública, mas o Darlon não. Eu dava tudo o que eles pediam”, ela conta. “O Dalton sempre foi fanático por livros e também gostava de esportes: fez karatê e judô. A gente fazia muitos passeios culturais.”

Dalton começou a desenhar aos 14 anos. Copiava personagens vistos na tevê, da atração infantil Os Cavaleiros do Zodíaco. Nessa época, a família já havia se mudado para Goiânia, onde Ana Oliveira foi trabalhar no Ministério Público da União (MPU). Ela também havia desenhado na juventude, e via no filho um herdeiro do seu gosto pelas artes. Em 2007, quando ainda trabalhava como bombeiro e depois de ter abandonado o curso de química, Dalton entrou na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG).

No início da carreira, ele pintou naturezas-mortas e cenas bíblicas para custear os trabalhos mais autorais, que não vendiam tanto. Algumas pinturas de personagens negros e indígenas que fazia sobre capas de livro custavam módicos 75 reais – uma fração ínfima do alto preço que seus quadros atingem hoje. No ateliê, Dalton mostra à piauí o portfólio que levava para todo canto, com reproduções fotográficas dos quadros que vendia. O artista destaca a foto de uma tela em que retratou sua tia Maria Lúcia de Oliveira, já falecida. “Minha tia foi uma das pessoas que mais me incentivaram na vida e na arte. No quadro, ela está com um cigarro e um copinho de cerveja, porque adorava beber e fumar”, diz. Depois, Dalton mostra a própria tela com a imagem da tia, afixada em um lugar de destaque no ateliê. “Estou guardando para as minhas primas.”

Nos anos 2000, Dalton participou do Coletivo de Alunos Negros Beatriz Nascimento (Canbenas), que promovia debates sobre ações afirmativas no momento em que se começava a sua implantação nas instituições de ensino superior de Goiânia. Foi no Canbenas que ele conheceu um de seus grandes amigos, Carlos Alberto Martins, estudante de pedagogia e mestre de capoeira. Os laços entre os dois se ampliaram para as rodas do Kalunga Capoeira Angola, onde Martins, conhecido como Mestre Guarará, praticava. “O Daltinho é um amor de pessoa, uma personalidade muito tranquila; uma criança mora dentro dele”, descreve Martins. Hoje com 56 anos, ele dá aulas de capoeira duas vezes por semana no Sertão Negro, para o artista e alguns amigos.

Um pouco depois dessa época, Dalton criou forte laço de amizade com a artista paulista Rosana Paulino, que participa da edição de 2022 da Bienal de Veneza e cujas obras são uma reflexão sobre a história das mulheres negras no Brasil. “Conheci o trabalho dela em uma aula da faculdade. Fiquei encantado e mandei um e-mail. Ela respondeu supergenerosa”, recorda o artista. “Pouco depois, me recebeu no ateliê, acho que era por volta de 2007, e começou a me orientar. Perguntava se eu tinha lido isso e aquilo, como estava o meu inglês, se eu usava caderno de artista. Também falava que eu tinha que testar materiais, procedimentos.” Ele também ganhou da artista uma tarefa importante: “Um dia, ela me disse assim: ‘Ô sujeito, estou te ajudando agora, mas, depois você faz a mesma coisa que eu fiz, com mais gente.’” A primeira exposição individual de Dalton, intitulada O Álbum, ocorreu no Museu de Arte Contemporânea, em Goiânia, em 2010, quando ele tinha 28 anos. Consistia em uma instalação composta por desenhos colados no teto, nas paredes e no chão.

Quando Dalton foi convidado para participar da 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, a surpresa em Goiânia não foi pequena. No meio artístico, havia quem não soubesse quem era Dalton Paula. Tanto que, no mesmo ano, uma mostra de seus trabalhos feita na galeria r³ Gabinete de Arte, em sua própria cidade, foi um fracasso de público. Um dos sócios da galeria, Divino Sobral, lembra-se até hoje da decepção que teve com o parco número de visitantes. “A sociedade local esnobou. Nem o meio artístico foi ver. Senti certa reação racista no fato de as pessoas não comparecerem à exposição. Me pareceu também que havia certo despeito por ele ter sido convidado para a Bienal, algo do tipo: ‘Como assim, um homem negro vai representar Goiás na maior mostra do país, a Bienal?’”

Na Bienal de São Paulo, seu trabalho chamou a atenção da crítica. Ele apresentou ali a série Rota do Tabaco, em que alguidares – tigelas de barro usadas em oferendas do candomblé – viraram suporte para pintura. Os rostos retratados nesses recipientes são de trabalhadores de lavouras de tabaco nas cidades de Piracanjuba (em Goiás), Cachoeira (no Recôncavo Baiano) e Havana, capital de Cuba, captados por fotos feitas pelo próprio artista. “Nessas pesquisas, que eu fiz in loco, muita gente me ajudou como se já me conhecesse”, diz ele, que teve essa série dividida em dez conjuntos, adquiridos por colecionadores particulares. O evento em São Paulo também lhe permitiu estreitar laços com o curador da Bienal, Jochen Volz – alemão que vive no Brasil – e a cocuradora Júlia Rebouças, que assim escreveu sobre Dalton no livro 20 em 2020: “Para cada ferida deve haver um unguento que conduza a sua melhora. Para cada ameaça, um patuá. Para cada dificuldade, uma bênção. Não faltam feridas, mas são infinitos também os percursos de cura. Na trajetória de Dalton Paula, o artista carrega suas obras de poderosa intenção de reparação de faltas históricas, silenciamentos, violências.”

Dois anos depois, em 2018, Dalton fez sua primeira viagem a Nova York, para a performance God Bless You (Deus te abençoe). Nela, aparece de torso nu, com os olhos tampados por um tecido, empurrando um carrinho de supermercado. A brasileira Tatiane Schilaro, curadora e diretora da residência da AnnexB, na qual foi desenvolvido o projeto, escreveu à época: “Dalton está interessado na questão da invisibilidade da população negra no campo visual e na arte brasileira. Para ele, a arte é um espaço de cura, em que a violenta exclusão dos corpos negros deve ser tratada.”

Dalton encontrou seu rumo, mas o circuito goiano de arte continua meio à deriva, apesar da intensa produção no estado e de iniciativas importantes, como o Salão Anapolino de Arte, evento para artistas jovens, com premiação incluída. Assim, nomes promissores têm escolhido migrar para a cidade de São Paulo, um dos eixos da cena nacional. Foi o que fizeram Paul Setúbal e Helô Sanvoy, artistas com atuação solo que também fazem parte do Grupo Empreza, coletivo que em 2015 integrou em São Paulo a exposição Terra Comunal, idealizada pela artista sérvia Marina Abramović.

Em 2019, Dalton participou da 36ª edição da mostra Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (MAM), de São Paulo, em que usou bateias empregadas por garimpeiros na antiga mina de Serra Pelada e nos municípios de Diamantina (MG), Crixás e Pilar de Goiás (GO). Sobre as bateias, pintou personagens com instrumentos musicais, inspirados em integrantes de uma banda de fanfarra que ele fotografou em 2017, em Salvador. “Faço essa articulação entre a mineração e a música, ao utilizar a bateia, esse instrumento de separação, uma metáfora da hierarquização social e racial a que ainda é submetido o corpo negro na contemporaneidade”, explicou o artista, em um texto sobre o projeto.

 

A fachada do ateliê de Dalton Paula em Sertão Negro foi pintada com a mesma cor verde turquesa que serve de fundo a muitos de seus retratos. Como ele faz de seu ato de criação um momento muito íntimo, cheio de mistério, é quase impossível vê-lo realizar uma pintura. Mais provável é encontrá-lo dando acabamento em uma escultura ou cerâmica, com a participação de suas assistentes, as artistas Lucélia Maciel e Manuela Costa e Silva.

Quem visita Sertão Negro também pode ter a sorte de deparar com o artista “emendando” telas. Com a ajuda de uma furadeira, ele faz buracos no suporte de madeira de uma tela e de outra, a fim de ajustar os parafusos com que vai emendá-las, formando uma tela maior (por exemplo, de 61 cm por 45 cm), antes de pintar. A linha exposta da “emenda” é como o sinal de uma fratura, da dificuldade de resgatar as histórias dos personagens que retrata.

No mezanino do prédio principal do ateliê, fica o quarto de Dalton e sua mulher. No futuro, o casal, que não tem filhos, pretende se mudar para o sobradinho que será erguido ao lado da construção principal. Já foi aberta no ateliê uma porta que leva a uma passarela que dará acesso à nova construção. Enquanto a obra não sai do papel, a porta serve apenas de elemento lúdico – quando aberta, é uma espécie de portal, que oferece uma vista generosa do horizonte.

Filho de Oxóssi, o caçador de uma flecha só, Dalton tem muitos planos fermentando em sua mente. Mas prefere revelá-los a conta-gotas, devoto que é da cautela e da discrição. “Eu nem penso muito sobre os lugares aonde cheguei. Prefiro continuar fazendo as coisas sem teorizar tanto”, diz ele, entre uma olhadela e outra para o céu.