esquina

Excomungado superstar

O padre que deu um iê-iê-iê na Igreja

Laís Modelli
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Os convidados, devidamente paramentados, esperavam sentados em um salão de festas de Bauru, no interior paulista. Avisado de que os noivos já iam entrar, o sacerdote se levantou e vestiu uma túnica branca por cima da camiseta e da calça jeans. No altar improvisado – uma mesa pequena coberta com uma toalha – havia uma cruz, branca, sem a figura de Cristo. O sacerdote abriu a Bíblia enquanto um conjunto de violinistas executava All My Love, do Led Zeppelin, saudando a entrada do nubente. Sua cara-metade chegou com um atraso de quinze minutos, vestida de branco, ao som da cantora country americana Taylor Swift.

A cerimônia avançou sem sobressaltos – o único incidente foi um breve desmaio do pai do noivo, segundos antes do “sim”. Tudo transcorria como num casamento convencional, com ares modernos, não fosse o oficiante ter sido expulso da Igreja Católica.

Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, foi excomungado em 2013, depois de declarar em seu blog ser a favor dos relacionamentos homoafetivos. Durante o ano que durou a investigação, ele não pediu perdão à Igreja, exigência para que o processo fosse revisto. Católicos de Bauru criaram a campanha SOS Padre Beto, pedindo em vão que o sacerdote fosse poupado da excomunhão. A decisão também alvoroçou casais que não podem ter um casamento católico, por serem divorciados ou homossexuais. O ex-padre agora pode lhes dedicar mais tempo. “Tenho casamentos marcados até 2016”, contou. A fila ainda inclui fãs que não têm impedimento para casar na Igreja Católica, mas optaram por prestigiar o antigo padre, como o casal daquele sábado de fevereiro.

 

Até ser obrigado a deixar a batina, Roberto Daniel rezava missas numa igreja de tijolos aparentes, bem em frente a uma famosa república estudantil de Bauru, conhecida – mera coincidência – como Vaticano. Muitos universitários passavam a noite de sábado tomando cerveja na república, e no dia seguinte cruzavam a calçada para assistir à missa, frequentada por um público de classe média-alta. Num domingo em que uma quermesse na igreja coincidiu com um churrasco na república, o padre levou a sobra da farofa para engrossar a refeição dos vizinhos e lhes vendeu uma caixa de cerveja “a um preço bem justo”, como lembrou um ex-morador da Vaticano.

Talvez a camaradagem do padre Beto com os universitários se devesse ao fato de ele ter passado metade da vida estudando. Formado em teologia, radialismo, direito e história, Daniel entrou para o seminário aos 27 anos, quando já tinha um vasto currículo acadêmico e amoroso. “Tive todas aquelas experiências que você puder imaginar, fui bem puteiro”, lembrou. E diz que nunca experimentou nenhuma droga, nem maconha. “Tão básico, né, mas nem isso. Não gosto de perder meu consciente.”

A morte de uma pessoa querida da família, as leituras de Karl Marx e a busca de um sentido na vida o levaram ao voto religioso. Na época, 1992, a diocese de Bauru fora contemplada com duas bolsas de estudos em seminários na Europa, e Roberto Daniel conseguiu uma delas. Foi para Munique. “Atrás do seminário ficava o Englischer Garten, onde os alemães praticavam nudismo. Isso não era motivo de escândalo para ninguém, nem para os seminaristas.” Aprender alemão foi um sofrimento, mas ao voltar ao Brasil, em 2001, o padre Beto trazia, além do diploma do seminário, um doutorado em ética pela Universidade de Munique. Em Bauru, assumiu a função de vigário, o sacerdote que auxilia o pároco.

Sempre de brinco e anéis, padre Beto – como o chamam até hoje – virou uma celebridade bauruense. Desde 2002 dá aulas de filosofia em universidades particulares. No campus da Unesp de Bauru, realizava uma vez por mês a Missa no Bosque. “Comecei a incomodar a Igreja. Se você olhar os informes da Paróquia Universitária, é como se eu nunca tivesse passado por lá, nunca citavam meu nome.” O padre chamava atenção pelo estilo da celebração, com projeção de cenas de filmes e músicas dos Beatles. A trilha sonora, segundo ele, não era só para atrair público, mas uma estratégia para levar o fiel a lembrar do que foi dito na missa, relacionando o sermão às canções.

 

Desde janeiro, quando anunciou que voltaria a celebrar missas, Roberto Daniel atrai os antigos paroquianos para a periferia de Bauru, onde conduz a celebração na quadra de um clube, cujo aluguel é pago com o dinheiro arrecadado no momento da oferta. O público, vestido informalmente, de minissaia e bermuda, ouve de Titãs e Jota Quest a Frank Sinatra: “Só não pode pagode e sertanejo universitário.” O sermão alude a filmes de Hollywood, como o longa A Corrente do Bem, e a figuras históricas (“Mandela e Luther King foram exemplos de Evangelho em vida”). A cerimônia é gravada e postada no YouTube. O celebrante sempre deixa a quadra ao som de palmas e solos de guitarra, como um astro de rock.

Hoje com 50 anos, o padre Beto mantém uma página na internet e um perfil no Facebook, encimado pela frase “Deus não exclui ninguém”. Na rede social, divulga vídeos e fotos das cerimônias, além de mensagens edificantes – “Se o consentimento existir realmente e o respeito for mantido, nada pode ser pecado.” Em 4 de março reproduziu, entusiasmado, a informação de que o papa Francisco teria dito que não há fogo no inferno e que Adão e Eva nunca existiram. “Quando eu afirmava isso, alguns diziam que eu escandalizava”, escreveu. Pouco depois, teve que retificar o post: a notícia era falsa. “Continuem a acreditar em Adão e Eva em pleno século XXI!”, disse em seu perfil.

Laís Modelli

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