figuras da república

Exército de uma mulher só

Como Joênia Wapichana se tornou a primeira indígena a chegar à Câmara dos Deputados

Adriana Negreiros
“A visão de que moramos no mato, andamos sem roupa e pintamos frequentemente o corpo não é nossa. É do branco. Nenhuma cultura fica estagnada”
“A visão de que moramos no mato, andamos sem roupa e pintamos frequentemente o corpo não é nossa. É do branco. Nenhuma cultura fica estagnada” FOTO_MEL SNYDER

Passava um pouco do meio-dia quando, na esperança de amenizar o calor, Joênia Wapichana puxou as mangas da camiseta branca até os ombros e a transformou numa regata com desenhos de libélula. No interior da maloca, onde quase cem integrantes da comunidade indígena Tabalascada começaram a se reunir nas primeiras horas da manhã, a temperatura ultrapassava os 30 graus. Apesar do forno, Wapichana não abdicou da calça jeans e manteve os longos cabelos soltos, cujos fios negros se misturavam às penas azuladas de um brinco. No instante em que os fogos de artifício a convocaram para o palco improvisado, ela ainda saboreava um picolé de frutas envolto em saco plástico – o popular dindim, como se fala no Norte, ou chupe-chupe, ao modo do Sudeste. Cruzou a maloca sob gritos e aplausos, arrastando as sapatilhas pretas pelo piso rústico de cimento e tentando dar um fim à guloseima antes de saudar a plateia.

Kaimen manawyn”, disse no idioma wapichana – algo como “muito obrigada”. Localizada na Serra da Lua, em Roraima, a cerca de 20 quilômetros de Boa Vista, a comunidade Tabalascada foi a primeira a sugerir que a advogada de 44 anos disputasse uma vaga no Congresso como representante dos índios do estado. Recém-eleita pela Rede, ela estava ali, naquele 20 de outubro, um sábado, justamente para agradecer o apoio e celebrar um fato inédito: pela primeira vez em toda a história do Brasil, uma mulher indígena se tornava deputada federal. Wapichana conseguiu a façanha com 8 491 votos – pouco mais que a metade dos 14 751 alcançados por Haroldo Cathedral, do PSD, o candidato à Câmara mais votado de Roraima. Antes dela, o único indígena a se sentar no plenário da Casa como titular foi o cacique Mário Juruna, xavante que exerceu o mandato entre 1983 e 1987, pelo PDT do Rio de Janeiro.

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Adriana Negreiros

Jornalista freelancer, foi editora das revistas Playboy e Claudia. É autora de Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço

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