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Exilados do sexo

Página em rede social enfrenta tabus sobre sexualidade feminina

Lianne Ceará
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Em 2014, a jornalista brasileira Isabelle Bedê viajou de Fortaleza, sua cidade, a Berlim, para fazer um intercâmbio universitário. Lá, fez amizade com Luca Galante, gerente de vendas italiano, que veio mais tarde para a capital cearense, também para um intercâmbio. Bedê gostou tanto de Berlim que resolveu retornar em 2018, para um mestrado em negócios de mídias digitais, onde reencontrou Galante. Um dia, o italiano mostrou a ela um texto. “Leia, por favor”, pediu. Bedê leu e, um pouco espantada, perguntou: “Foi você quem escreveu isso?” O texto descrevia uma cena de sexo.

Galante explicou que era o trecho de um romance erótico. Havia alguns anos, ele vinha matutando sobre o projeto que gostaria de fazer na internet. Ao consultar um relatório da Amazon sobre os gêneros de livros mais vendidos, descobriu que em primeiro lugar estavam os eróticos. Teve, então, a ideia de fazer uma página no Instagram com conteúdo similar, dirigido às mulheres, que eram as principais consumidoras desse gênero, segundo outras informações obtidas por ele. A sua proposta era que a página fosse voltada às brasileiras, já que não havia coisa parecida em português – e Galante convidou a amiga para comandar o projeto com ele.

Bedê não aceitou. “Eu ficava pensando no que as pessoas iam achar. Disse ao Luca que, no começo, eu podia ajudar, mas não aceitei logo de cara. Por causa dos tabus que eu mesma impus”, ela conta.

Nos dias seguintes, Galante continuou mandando mais exemplos de textos eróticos para a amiga, que sempre enviava um feedback. Quando Bedê se deu conta, já estava imersa na iniciativa.

 

Lábios Livres foi lançado em novembro do ano passado no Instagram. O principal desafio não era exatamente produzir textos eróticos, mas reunir informações sobre sexualidade feminina para serem lidas no Brasil, onde o assunto ainda é tratado com embaraço. Era também criar um espaço confiável onde qualquer mulher pudesse se expressar sem pré-julgamentos, falando à vontade sobre sexo, tirando dúvidas sobre o tema e compartilhando experiências.

Depois da página na rede social, foi criado um blog, em fevereiro deste ano. O primeiro texto publicado dizia: “A galera inventa a internet e desenvolve vacinas para Covid em tempo recorde, mas não consegue falar sobre sexo.” No Dia da Mulher, 8 de março, a dupla lançou um e-book, Mulheres Livres, com entrevistas e biografias de personalidades femininas. O projeto se espalhou também para o Facebook e o Pinterest.

Da Alemanha, Bedê escreve os textos, tarefa que ela assumiu com a ajuda de colaboradoras. Da Espanha, onde vive atualmente, Galante coordena as estratégias de marketing e o desenvolvimento. Ele diz que nunca se envolve no planejamento e na escrita dos conteúdos, para que a página preserve sua visão feminina. “Nós, homens, também somos beneficiados quando nos relacionamos com uma mulher que conhece a si mesma”, pondera.

Na página no Instagram, os posts fazem perguntas apimentadas. “E se a Chapeuzinho comesse o lobo?”, diz um deles. “Como saber se gozei?”, indaga outro. Na seção “Eróscopo”, uma das mais curtidas, a preocupação é com o alinhamento dos astros e a vida sexual. “Priorizar o seu prazer vai te ajudar a relaxar, garantindo que você esteja pronta para voltar à ativa depois da tão necessária pausa, leonina”, diz a previsão para o signo de Leão. Um dos contos eróticos publicados na página sussurra: “Eu disse pra ele que tinha uma confissão: eu estava toda molhada durante a noite enquanto a gente conversava. Ele riu e disse que não acreditava. Como eu sou mulher de palavra, deixei ele ver por si mesmo.”

 

Até 24 de maio, a página no Instagram tinha 16,6 mil seguidoras. Não é muito no universo das redes sociais (a cantora Anitta, por exemplo, é seguida por 53,7 milhões de pessoas), mas Bedê está contente com o rápido crescimento nos números e o sentido de união que se formou entre elas. “Estamos conseguindo construir uma comunidade muito consistente, o que só destaca ainda mais a necessidade de falar sobre sexo. É a resposta das leitoras que mais me impulsiona”, afirma a jornalista. O post de uma seguidora parece confirmar isso: “Acho supernecessário levar esse tipo de informação para mulheres, pois a gente é ensinada desde cedo a não desbravar nossa sexualidade.”

Mas a ideia de tratar da sexualidade feminina nem sempre é bem aceita. “Até acho legal o projeto, mas as pessoas podem pensar que você topa tudo”, disse uma pessoa próxima à jornalista. Bedê conta que cresceu “num meio muito machista” e que, quando decidiu entrar no Lábios Livres, sua família perguntou se ela tinha se formado em jornalismo para fazer pornografia. “Mas não é pornô, é completamente diferente”, defende-se.

Bedê e Galante encontraram em Berlim o ambiente ideal para deslanchar o projeto: é uma cidade que sempre foi muito liberal com relação ao sexo e às opções variadas que o erotismo oferece. “Você pode estar nu no meio de um metrô que ninguém vai te dizer nada. É o oposto do que vemos no Brasil ou na Itália”, afirma Galante. Sua amiga acrescenta: “Tenho certeza de que, se eu morasse no Brasil, não toparia nunca fazer o Lábios Livres.”

Lianne Ceará

Estagiária de jornalismo na piauí

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