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Faculdade de blogueira

Como se vender na web

Juliana Cunha
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Do telão, Alice Ferraz encara a turma de meninas – e uns poucos garotos – que compõem sua nova empreitada. Estamos numa aula magna, mas o clima é de reunião de negócios e os assuntos giram em torno da London Fashion Week, onde ela se encontra, e do poder dos blogs e redes sociais. A empresária comenta o desfile da Burberry e a presença de Kate Moss. Na plateia em São Paulo, alguns tomam nota, outros aproveitam para tirar fotos. “Amanhã vou acordar cedo para ir a Milão”, diz Alice, à guisa de despedida. A faculdade de blogueira está só começando.

Quando se anunciou que seria aberto um curso de graduação para blogueiras, narizes se retorceram por toda a internet. Há cinco anos, Alice vem se consolidando como uma espécie de mentora das blogueiras. Em 2011, lançou o F*Hits, uma plataforma de sites de moda e “estilo de vida” destinada a elevar o passe das meninas junto aos anunciantes.

Na época, boa parte dos blogs de moda mais famosos do país já tinha acessos compatíveis com os de portais, mas as marcas relutavam em pagá-las como gente grande. No F*Hits, as blogueiras entravam com os cliques e Alice oferecia uma estrutura – que incluía Q.G. na suíte presidencial do hotel Unique durante a São Paulo Fashion Week – e um arranjo mais vantajoso na venda de anúncios. O esquema funcionou, ainda que hoje blogueiras mais rentáveis como Camila Coutinho e Lia Camargo prefiram seguir voo solo a entregar 50% de sua receita à empresária.

Agora, Alice conseguiu emplacar uma graduação tecnológica de dois anos na Belas Artes, uma faculdade particular tradicional de São Paulo. “A Belas Artes é a escola Waldorf do ensino superior”, define Carol Garcia, coordenadora do curso, que recebeu o nome de mídias sociais digitais. No anúncio da graduação, blogueiras famosas como Mariah Bernardes e Camila Coelho convidavam os candidatos a abraçar o ofício. “Eu sou blogueira, essa é a minha profissão e agora pode ser a sua”, dizia a peça publicitária. “O que eu mais ouço é que blog não é profissão. Eu digo, ‘Minha filha, você ganha 50 mil reais por mês com isso, como não é sua profissão?’”, afirma Alice.

 

Ter um blog rentável e milhões de seguidores nas redes sociais é “a coisa mais fácil que você não sabe fazer”, define a empresária. “Toda semana eu falo com jornalista e assessor de imprensa que sabe pôr de pé um conteúdo lindo, mas quando vai para a internet não tem resultado. Existe uma técnica para isso, as coisas crescem na internet quando seguem uma técnica.”

Por 24 parcelas de 1 980 reais, essa técnica é dissecada a um grupo de 56 alunos, em disciplinas como monetização de negócios em ambiente digital (como gerar receita na internet), digital cool hunting (prospecção de tendências online) e estética e felicidade (filosofia com foco na felicidade, na linha do divulgador Alain de Botton). O primeiro semestre é dedicado à construção de uma marca pessoal. “É saber se vender como um produto. Somos todos produtos. A pergunta é se você quer ser commodity ou uma mercadoria refinada”, explica a professora Marcia Auriani, de marketing.

A participação de Alice limita-se ao marketing e à idealização. A empresária e as blogueiras do F*Hits só comparecerão em palestras eventuais. “Imagina se eu vou lá, não tenho tempo, meu negócio é business, sou uma mulher da prática”, disse ela, em entrevista em seu escritório nos Jardins. “Mas você vai pelo menos uma vez ao mês, você prometeu”, replicou Carol Garcia.

Um mês antes do início das aulas, quando o vestibular regular já havia sido aplicado e faltava apenas a seleção dos que optaram pelo exame agendado individualmente, Carol defendia uma turma reduzida. “Pensamos em algo como quinze alunos, para termos aulas mais pessoais. Quero levar essa galera para tudo que é canto, como posso chegar ao escritório da Alice com trinta pessoas?”

A turma, no entanto, fechou com quase sessenta estudantes e há rumores de que apenas um candidato tenha sido reprovado na seleção, por não falar inglês – a versão oficial é de que cerca de 100 candidatos ficaram de fora. Durante a primeira semana de aula, todos os dias aportavam alunos novos, oriundos do vestibular agendado. Ao final da semana, a coordenação garantiu que já não chegariam novatos, mas outros dezenove ingressaram até o final de março.

 

Na semana inaugural, acompanhada pela reportagem, alunos e professores tentavam desfazer a imagem de “faculdade de blogueira” que Alice Ferraz e a Belas Artes criaram para embalar a novidade. O grupo é mais diverso do que se poderia imaginar, e mais conservadoras suas opiniões sobre novas profissões nascidas da internet. Dos 37 alunos então presentes, seis tinham bolsa integral, e outros seis, parcial. Sete afirmaram que o curso seria pago pelos pais, três eram financiados pelos empregadores. Doze vieram de escolas públicas. Apenas três não trabalhavam. Vinte e cinco deles consideraram a mensalidade – superior à do curso de direito do Mackenzie (1 546 reais) e de publicidade da PUC (1 933 reais) – cara.

Doze pessoas estão fazendo o curso como segunda graduação. Entre os estudantes há cinco jornalistas, quatro publicitários e três relações-públicas, além de advogados, maquiadores e designers. Na turma são apenas cinco os homens e há somente duas mulheres negras, ambas bolsistas. Dez alunos possuem blogs, quatro deles recebem benefícios – como produtos de graça –, mas ninguém vive disso. Seus referenciais de sucesso transitam das blogueiras Thássia Naves e Anna Fasano a Abilio Diniz e Luciano Huck, e as matérias que eles consideram menos interessantes são justamente as relacionadas à moda.

A maior parte dos alunos quer ser analista de mídias sociais – profissional que trabalha com conteúdo de marca e sua presença em redes sociais – e não considera que blogueiro seja uma profissão. “Você acha que minha mãe pagaria para eu aprender a ser perua?”, devolveu uma aluna quando questionada se pretende viver de blog.

Juliana Cunha

Juliana Cunha é repórter, tradutora e autora dos livros Gaveta de Bolso, da Prólogo, e Já Matei por Menos, da Lote 42.

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