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Feliz no Leblon

A Vale não desistiu da Guiné

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Desde que se aventurou a explorar minério de ferro na República da Guiné, na costa ocidental da África, a Vale só colecionou dissabores. Tudo por causa de sua associação com o israelense Beny Steinmetz – dono do bilionário grupo BSGR – no projeto de exploração de Simandou, uma das maiores jazidas de ferro do mundo ainda intactas. Até 2008, o direito de exploração de toda a área pertencia à anglo-australiana Rio Tinto, que o havia adquirido em 1997. Dias antes de morrer, o então presidente da Guiné, o ditador Lansana Conté, cassou metade da concessão e a repassou para Steinmetz. Dois anos depois, em 2010, o empresário vendeu 51% de sua participação para a mineradora brasileira.

O negócio foi fechado por 2,5 bilhões de dólares, dos quais 500 milhões pagos à vista, em acordo selado com o então presidente da Vale, Roger Agnelli. A associação entre a Vale e Steinmetz resultou na criação da Vale Beny Group, ou VBG, que esperava extrair de Simandou cerca de 40 milhões de toneladas de ferro por ano.

Em abril deste ano, o novo presidente da Guiné, Alpha Condé, cassou os direitos de Steinmetz no projeto, depois que uma investigação concluiu que ele conseguira sua concessão por meios fraudulentos. Ainda que tenha sido isentada de responsabilidade, a Vale precisou sair do negócio, uma vez que a concessão pertencia à VBG. Agora, o governo da Guiné prepara um novo edital de licitação para a exploração da área cassada.

O anúncio provocou uma corrida das empresas interessadas em Simandou aos tribunais internacionais. Steinmetz promete recorrer contra o governo da Guiné. A Rio Tinto aproveitou para exigir seus direitos sobre toda a área. Montou um vigoroso lobby na imprensa britânica para tentar ganhar a simpatia do atual governo guineano, plantando notícias em que aparece como a grande injustiçada. Como ainda não logrou sucesso com a estratégia, resolveu processar a Vale, alegando que Agnelli lhe teria roubado a concessão mancomunado com Steinmetz.



 

Na sede da Vale, no Centro do Rio, Murilo Ferreira, o atual presidente da mineradora, trata o caso com discrição. No começo de junho, ele me contou que a primeira providência da empresa foi entrar com processo em Londres para conseguir de volta os 500 milhões de dólares que pagou adiantado a Steinmetz. Perguntei se havia tentado reaver o dinheiro sem precisar entrar na Justiça. Deu um riso maroto e respondeu com seu carregado sotaque do interior de Minas. “Eu não acho que alguém vai devolver 500 milhões de dólares na molezinha. Nem lá em Uberaba, onde somos mais ingênuos, isso aconteceria.”

Ferreira não adiantou se a Vale vai participar da nova concorrência em Simandou e se esquivou de dizer se o negócio seria bom para a mineradora brasileira. “Tudo vai depender das condições do edital.” Informou, contudo, que o presidente Condé tem insistido que gostaria muito que a Vale continuasse na Guiné. Um assessor do governante guineano contou que ele tem grande apreço por Luiz Inácio Lula da Silva e por Dilma Rousseff, e que, além disso, considera fundamental ter uma outra grande mineradora operando no país. Afinal, a Rio Tinto está lá há quase vinte anos e até hoje não extraiu um grama de ferro do solo de Simandou.

A Vale, por enquanto, está numa posição confortável. Aproveitou o bom relacionamento entre os governos do Brasil e da Guiné para conseguir de Condé a garantia de que os 700 milhões de dólares que ela já investiu no projeto – em pesquisas minerais, infraestrutura e compra de equipamentos – lhe serão devolvidos caso não seja ela a vencedora da licitação ou desista de participar (hipótese que hoje parece improvável). Ou seja: quem quer que ganhe terá de pagar à empresa o dinheiro já investido lá. E, no caso de a brasileira participar do certame, ela terá esse crédito computado em sua oferta. Haverá uma auditoria internacional para que não fiquem dúvidas de que a Vale realizou os gastos, diz Ferreira.

 

O projeto da VBG começou a desmoronar em dezembro de 2010, com a posse de Alpha Condé, o primeiro presidente eleito em décadas na Guiné. Com ajuda dos Estados Unidos e outros países ricos, ele formou uma comissão para investigar a transação com Steinmetz. Concluiu-se que o empresário conseguira a concessão subornando uma das viúvas do ditador Conté, que convenceu o marido moribundo a autorizar o negócio.

A essa altura, Roger Agnelli já havia sido substituído na presidência da Vale. A nova diretoria, comandada por Murilo Ferreira, deduziu que a mineradora havia feito um péssimo negócio. Não só porque o sócio ficaria com 49% de participação sem colocar um tostão no empreendimento, mas também porque a Vale teria de arcar com todos os investimentos, como a construção de uma estrada de ferro.

Logo que o governo da Guiné levantou suspeitas sobre Steinmetz, Ferreira tratou de suspender o pagamento dos outros 2 bilhões de dólares do negócio. Suas relações com o sócio israelense eram geladas; os dois só se falavam por intermédio de advogados. Até Agnelli se viu em uma situação desconfortável quando começaram a pipocar as denúncias contra o ex-parceiro. Numa conversa que tivemos em janeiro, ele fez um comentário que repercutiu na imprensa mundial especializada. “Tem gente que casa com ex-prostituta e só vai saber que era prostituta anos depois. Ou casa com veado e vai saber anos depois.” O jornal NZZ, da Suíça, levou o comentário à assessoria de Steinmetz, que respondeu que Agnelli não era mais ninguém no mundo da mineração.

Na minha última conversa com Ferreira, sugeri que, dados os problemas com Steinmetz, a cassação da concessão poderia ser vista como um alívio para a Vale. Pelo menos a mineradora se livrara do sócio inconveniente. O executivo argumentou que perder 1,2 bilhão de dólares – os 500 milhões pagos a Steinmetz mais os 700 milhões investidos até então – não poderia ser considerado um alívio. Pedi que comentasse o fim da sociedade. Explicou-me que não gostaria de fazer considerações sobre o ex-sócio por estarem em litígio. Mas deixou escapar um comentário jocoso. “Digamos que você não vai me encontrar chorando à beira do caminho, na praia do Leblon.”

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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