A Revista Newsletters Reportagens em áudio piauí recomenda piauí jogos
Podcasts
  • Foro de Teresina
  • ALEXANDRE
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Sequestro da Amarelinha
  • Maria vai com as outras
  • Luz no fim da quarentena
  • Retrato narrado
  • TOQVNQENPSSC
Vídeos
Eventos
  • Festival piauí 2025
  • piauí na Flip 2025
  • Encontros piauí 2025
  • Encontros piauí 2024
  • Festival piauí 2023
  • Encontros piauí 2023
Herald
Minha Conta
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
Faça seu login Assine
  • A Revista
  • Newsletters
  • Reportagens em áudio
  • piauí recomenda
  • piauí jogos
  • Podcasts
    • Foro de Teresina
    • ALEXANDRE
    • A Terra é redonda (mesmo)
    • Sequestro da Amarelinha
    • Maria vai com as outras
    • Luz no fim da quarentena
    • Retrato narrado
    • TOQVNQENPSSC
  • Vídeos
  • Eventos
    • Festival piauí 2025
    • piauí na Flip 2025
    • Encontros piauí 2025
    • Encontros piauí 2024
    • Festival piauí 2023
    • Encontros piauí 2023
  • Herald
  • Meus dados
  • Artigos salvos
  • Logout
  • Faça seu login
minha conta a revista fazer logout faça seu login assinaturas a revista
Jogos
piauí jogos

    IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2009

esquina

Festim diabólico

Quando o lar vira um palco

Bruno Moreschi | Edição 35, Agosto 2009

A+ A- A

Ricardo Frayha, 24 anos, achou que seria pior. Durante quatro dias, sua função na vida foi segurar um celular e atender ligações estranhas de gente que nunca tinha visto. A cada horripilante “Hello Moto…”, ele tremia. Numa delas, ouviu o desespero de uma senhora que se perdera na região central de São Paulo: “Esqueci meus óculos! Não vejo nada no mapa!”, ela berrava. Cabia a Frayha, justamente, explicar a ela as coordenadas. Acalmada, a senhora encontrou a avenida São Luís.

Todas essas operações diziam respeito a algo que, na falta de definição melhor, talvez pudesse ser chamado de “experiência teatral”. As peripécias se desenrolaram em junho, entre os dias 24 e 27.

ATO 1: Um funcionário do Sesc Consolação recebe 10 reais de cada aventureiro enfileirado à sua frente, o qual, por sua vez, deve escolher um dos três mapas dispostos numa mesa de escritório improvisada.

 

ATO 2: Munidos do mapa e do número de celular do jovem Frayha, os aventureiros se distribuem em duplas, e a pé saem para percorrer os bairros adjacentes: Higienópolis, Santa Cecília, Vila Buarque, República, Consolação e Bela Vista.

ATO 3: Na cara dura, os grupos vão entrando nas casas e apartamentos assinalados no mapa. No interior de cada lar, eles se deparam com cenas variadas – estapafúrdias, quase sempre.

Quem mandou pagar 10 reais?

 

A idéia, nascida na Alemanha em 2002, chegou ao Brasil pelas mãos de Ricardo Muniz e Matthias Pees, sócios da Interior Produções Artísticas Internacionais. Com o patrocínio do Instituto Goethe, os dois saíram à cata de almas dispostas a abrir a casa ao público. Foi necessário um árduo trabalho de convencimento, em geral junto a amigos, atores e gente suficientemente arejada para se permitir uma coisa dessas. Prova contundente do quão espantoso é o gênero humano, conseguiram a adesão de 22 pessoas, que, por sua vez, abriram as portas a cerca de 640 visitantes.

No segundo dia do evento, Priscilla Gonçalves escolheu o mapa de Higienópolis e, com o peito inflado de desbravadora cultural, rumou para a avenida Angélica. Na frente do número 896, um prédio, recebeu de uma funcionária do SESC um sistema de áudio-guia. Pegou então o elevador e baixou no apartamento 82 – vazio, vazio. “Estranhas coisas aconteceram aqui”, repetia o guia fantasmagórico nos ouvidos da moça.

Priscilla até achou graça nessa tentativa de assustá-la. Soava a filme B. Sem titubear, obedeceu à ordem e se dirigiu ao banheiro. Abriu a porta. A cortina do boxe parecia esconder algo muito ruim. Lembrou-se da criatura horripilante na banheira daquele filme do Stanley Kubrick, O Iluminado, e se deu conta de que estava com medo. No afã de seguir adiante, esbarrou a mão na tecla stop do seu áudio-guia. Fez-se um silêncio maligno – Priscilla não ficou dando sopa. A passinhos ligeiros se escafedeu para a sala de televisão, mais arejada e com luz. Esperou o companheiro pagante terminar a ronda no quarto e deu no pé, deixando para trás o mistério do boxe.

 

Tudo melhorou na casa seguinte, um trailer ancorado no meio de um estacionamento, onde a moça foi muito bem recebida. Ali a dançarina Letícia Sekito evoluía como uma gueixa. “Bravo!”, aplaudiu Priscilla.

O artista multimídia Lucas Bam-bozzi, morador da rua General Jardim, sonhava soltar treze gatinhos na sua quitinete. A idéia era que as duplas entrassem com câmeras infravermelhas, o que daria um efeito sensacional: cada par de olhinhos se transformaria em pontos vermelhos flutuando no ar. A Sociedade Protetora dos Animais, pouco sensível a questões estéticas, protestou. O jeito foi se contentar com sete gatos no escuro. Os de casa.

 

Em Santa Cecília, uma moradora avisava na entrada do prédio: “Eles estão esperando vocês lá no quarto.” Quem se animou deu com dois caixões num beliche. De dentro deles, brotavam vozes que contavam o que costumam fazer no dia a dia. Nada mais.

Quem entrasse no apartamento 61 do edifício 867 da Consolação encontraria a fotógrafa Lenise Pinheiro vestida de freira. Acima de seus lábios, vai-se saber por quê, corria um filete de espuma de barbear. Lenise não estava sozinha. Duas atrizes dividiam o espaço com ela. Ao fundo, uma freira depilava a perna. À frente, mais à vista, se notava uma – se é que existe tal coisa – freira ninfeta, uma Lolita religiosa de sorriso pimentinha. Lenise explicava: “Quando eu tinha 12 anos, encenei uma peça no Colégio Maria Imaculada que falava de repressão. Estávamos no regime militar. Fui expulsa pela madre e dali em diante me tornei uma obcecada pelo hábito.”

No apartamento 97 do prédio 1106 da Angélica, a faxineira que dava expediente no local discutia felicidade citando o filósofo alemão Arthur Schopenhauer, que nunca foi muito feliz. Num prédio vizinho, uma mãe ensinava o filho a fazer bolo. Próximo à praça Roosevelt, numa cobertura onde tempos atrás funcionou uma boate, uma antiga moradora contava histórias picantes a respeito do lugar. Opinião do advogado Abelardo Shimabukuro, um dos primeiros a se animar com o projeto: “Quando saio dos apartamentos para a rua, tenho a ligeira impressão de que o mundo está sendo encenado para mim.”

Uma performance esperava os visitantes no último andar de um prédio na Frederico Abranches, em Santa Cecília. Ao chegar, eles eram convidados a vestir coletes à prova de bala e a bebericar chá de camomila, um modo de prepará-los para as fortes emoções que se seguiriam. De súbito, materializou-se na frente deles a atriz Elisa Ohtake e o ex-militar (segundo-tenente) e dançarino Lineu Palaia. “Vamos correr até a varanda e atirar!”, ordenaram. “É um ataque contra a tristeza dessa cidade!” Muniram-se todos de pistolas de água e correram para a varanda, imensa. Tiros encharcados, confetes multicoloridos, rojões de fumaça vermelha. Todos gritaram, irritantemente felizes.

Uma noite, passava por ali um helicóptero da Polícia Militar, que mirou o canhão de luz nos endiabrados. “Estava combinado?”, quis saber a dupla de visitantes, de queixo caído. (Até os atores se impressionaram.) Foi o momento Broadway do tour. Deixou no chinelo o helicóptero de Miss Saigon.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

Leia Mais

esquina

Mora na filosofia

Musa da vanguarda paulista reflete sobre a sabedoria do samba

02 dez 2025_12h55
esquina

Sede de justiça

Uma rede de mães contra a violência do Estado

02 dez 2025_12h47
esquina

Cena da ressurreição

A brasileira que ganhou o Leão de Prata da Bienal de Dança de Veneza

02 dez 2025_12h45
  • NA REVISTA
  • Edição do Mês
  • RÁDIO PIAUÍ
  • Foro de Teresina
  • Silenciadas
  • A Terra é redonda (mesmo)
  • Maria vai com as outras
  • Luz no fim da quarentena
  • Retrato narrado
  • TOQVNQENPSSC
  • DOSSIÊ
  • O complexo_SUS
  • Marco Temporal
  • má alimentação à brasileira
  • Pandora Papers
  • Arrabalde
  • Igualdades
  • Open Lux
  • Luanda Leaks
  • Debate piauí
  • Retrato Narrado – Extras
  • Implant Files
  • Anais das redes
  • Minhas casas, minha vida
  • Diz aí, mestre
  • Aqui mando eu
  • HERALD
  • QUESTÕES CINEMATOGRÁFICAS
  • EVENTOS
  • AGÊNCIA LUPA
  • EXPEDIENTE
  • QUEM FAZ
  • MANUAL DE REDAÇÃO
  • CÓDIGO DE CONDUTA
  • TERMOS DE USO
  • POLÍTICA DE PRIVACIDADE
  • In English

    En Español
  • Login
  • Anuncie
  • Fale conosco
  • Assine
Siga-nos

WhatsApp – SAC: [11] 3584 9200
Renovação: 0800 775 2112
Segunda a sexta, 9h às 17h30