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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

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Figuras nômades

A primeira artista cigana na Bienal de Veneza

Tatiane de Assis | Edição 195, Dezembro 2022

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A polonesa Małgorzata Mirga-Tas, de 44 anos, foi selecionada neste ano para apresentar seus murais feitos de tecido no pavilhão da Polônia na 59ª Bienal de Veneza, na Itália, encerrada no fim de novembro. Ela é a primeira artista romani – como os ciganos preferem ser chamados – a alcançar esse feito na história da bienal, que se iniciou em 1895. Mirga-Tas participou também da 15ª Documenta, mostra de arte realizada a cada cinco anos em Kassel, na Alemanha, desde 1955. Apesar de marcar presença nos dois principais eventos do calendário internacional de exposições, Mirga-Tas não virou celebridade na Polônia nem incrementou seu número de seguidores nas redes sociais.

No Instagram, rede na qual artistas são bastante ativos, ela tem cerca de 4,4 mil seguidores. Número modesto, mas que inclui admiradores especiais, como a fotógrafa polonesa Alicja Urbańska-Czyż, de 37 anos. Residente em Varsóvia, a fotógrafa planejou tirar férias em agosto na Toscana e ir à bienal.

Em Veneza, ela visitou a mostra principal, com curadoria da italiana Cecilia Alemani, da qual participavam 213 artistas – inclusive cinco brasileiros: Jaider Esbell (1979-2021), Lenora de Barros, Luiz Roque, Rosana Paulino e Solange Pessoa. Mas Urbańska-Czyż queria mesmo era ver as obras de Mirga-Tas no pavilhão da Polônia, instalado em um prédio neoclássico construído em 1932. “Depois da morte de um amigo querido, percebi que não dava mais para adiar meus sonhos”, disse a fotógrafa.

 

Na fachada do pavilhão polonês, estavam três painéis têxteis da artista romani, inspirados em uma carta de tarô, a Roda da Fortuna. Já na entrada, Mirga-Tas fazia referência à cartomancia, tão relacionada à cultura cigana. Os painéis enigmáticos retratavam uma figura de olhos vendados, criaturas com pequenos chifres e um homem com feições orientais.

A principal obra exposta por ela estava dentro do prédio: uma instalação de grandes dimensões, com doze murais realizados em patchwork. Chama-se Re-enchanting the World (Reencantando o mundo), a partir do título de um livro da filósofa italiana Silvia Federici. Cada um dos painéis tem 4,62 metros de altura e 3,87 metros de largura. Neles, a artista maneja com maestria uma grande variedade de cores e estampas, conferindo profundidade de campo e ritmo às composições. A diversidade cromática remete à cultura das comunidades romanis. Parte dos tecidos vieram da vestimenta de povos ciganos que vivem em assentamentos da região das Montanhas Tatra, na fronteira entre a Polônia e Eslováquia – mais especificamente da cidade de Zakopane, onde Mirga-Tas viveu nos últimos anos.

A obra buscou inspiração no Salão dos Meses, afresco do século XV que ocupa o ambiente principal do Palácio Schifanoia, em Ferrara, importante centro do Renascimento. Sua autoria é atribuída a um grupo local de pintores ilustres, entre eles, Francesco del Cossa (1436-78).

Joanna Warsza, uma das curadoras do pavilhão polonês, lembra que o Salão dos Meses foi estudado pelo historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929). Ele examinou a sobrevivência de formas da Antiguidade na obra renascentista. “Como seria de se esperar, a análise de Warburg carece de qualquer menção à cultura romani, embora os romanis, que migraram da Índia para a Europa, tenham desempenhado um papel importante nesse transporte de significados”, diz a curadora.

Mirga-Tas, de certo modo, faz esse remendo na teoria de Warburg. Na faixa superior dos seus murais, ela representa as peregrinações dos romanis pela Europa. Na área central, uma sucessão de figuras zodiacais e personagens femininos exalta a perspectiva matriarcal, feminina e feminista, elementos importantes no trabalho da artista.

 

A faixa inferior dos painéis é mais pessoal. Lá estão cenas do cotidiano da artista em sua cidade natal e de suas colaboradoras em localidades próximas, também na Cordilheira Tatra. É terna a forma como ela retrata a paisagem, em tons pastel, ou um grupo de senhoras costurando mantas coloridas. Com essa reconstrução, Mirga-Tas pretende encerrar um ciclo de esquecimento da história a respeito da contribuição dos romanis à arte ocidental.

Suas composições coloridas também enfrentam os estereótipos que associam os romanis à criminalidade e à precariedade material. Nem o mundo da arte escapa a esses estereótipos, como se viu em Les Gorgan, trabalho do fotógrafo francês Mathieu Pernot sobre uma família cigana, exposto na última Bienal de Berlim neste ano. Por mais que haja uma relação afetiva do artista com as pessoas do grupo – ele as acompanha desde 1995 –, o tom sensacionalista perpassa as imagens, que focam, por exemplo, um familiar preso e uma matriarca sem alguns dentes.

Não se sabe ao certo, mas estima-se que ao menos 200 mil romanis foram mortos pelos nazistas em campos de concentração, inclusive naqueles instalados em território polonês, como os de Auschwitz-Birkenau e Sobibor. Foi este um dos motivos que levaram a fotógrafa Urbańska-Czyż a concluir, depois de ver as obras de Mirga-Tas: “Nada mais justo que uma mulher polonesa romani represente a Polônia na Bienal de Veneza.”