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Figurinhas e figurões

O que une os deputados fluminenses

Camila Zarur
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

Na tarde de 4 de abril, os deputados estaduais do Rio de Janeiro estavam reunidos no plenário da Assembleia Legislativa para votar propostas parlamentares. Na pauta do dia, um projeto de lei que garante o porte legal de armas de fogo e dá poder de polícia à Guarda Municipal da capital fluminense. Interessados na votação, profissionais da categoria lotavam as galerias da Alerj.

Enquanto aguardava o início da sessão, Thor Horst de La Vega, assessor do deputado Tio Carlos, do Solidariedade, estava entretido com um colega. Mateus David da Silva, funcionário do gabinete do tucano Carlos Osorio, tinha acabado de comprar o álbum de figurinhas da Copa de 2018. Fãs de futebol, os dois não esperaram o fim da sessão e resolveram abrir no plenário mesmo os primeiros envelopes de Silva. “Esse vício é pior que soltar pipa”, comentou um guarda municipal que assistia à sessão.

Silva estava com sorte: logo nos primeiros pacotinhos tirou o escudo da CBF – os cromos brilhantes com os emblemas das 32 seleções que vão à Rússia têm a reputação de serem mais raros que os demais. Tirou também Neymar Jr., outra figurinha com fama de difícil – no mercado paralelo, chega a ser negociada por 10 reais (o envelope com cinco cromos aleatórios custa 2 reais nas bancas). Entretidos com a brincadeira, os assessores parlamentares não notaram que alguém os fotografara.

A imagem não demorou a cair no Twitter, publicada pelo guarda municipal Marcello Falcão. Foi compartilhada centenas de vezes e virou um dos assuntos do dia na rede social. “Eu não pago o seu salário para você trocar figurinhas de futebol na hora do expediente só porque aqui é o Brasil”, disparou uma internauta. “Vão trabalhar, desocupados.” Assustado com a repercussão, Falcão apagou seu perfil na rede social.

No dia seguinte, os dois assessores foram exonerados.

Duas semanas depois, Thor de La Vega deu entrevista à piauí num café ao lado da Alerj. O ex-assessor – um rapaz barbado de 25 anos, formado em administração pública – não parecia incomodado de ter perdido o salário líquido de 5 730,93 reais que recebia do gabinete de Tio Carlos. Tampouco estava frustrado com a punição pelo hobby do amigo – ele mesmo não coleciona as figurinhas da Copa. Espantou-se, por outro lado, com as versões exageradas que circularam na internet. “Disseram que éramos deputados e ganhávamos mais de 25 mil reais”, falou De La Vega. Mostrou-se resignado com a medida, que considera uma forma de apaziguar a opinião pública. “Só fiquei chateado com a forma como tudo repercutiu”, lamentou. “É como se tivesse vazado um nude. As pessoas julgam sem saber.”

Já Mateus da Silva, dono do álbum fotografado no plenário, disse que ficou com medo que sua atitude prejudicasse o deputado para quem trabalhava. “Eu estava ali só colocando figurinha em ordem, sabe?”, escreveu Silva à piauí pelo WhatsApp. “Ali atrás a gente fica num ócio muito grande. Ter aquele momento para abstrair e olhar umas figurinhas foi um verdadeiro oásis”, continuou o ex-assessor, que tem 25 anos e recebia um salário líquido de 904,89 reais.

Os deputados que empregavam os rapazes condenaram sua atitude. “O que eles fazem no tempo livre, pouco me importa”, disse Carlos Osorio, que foi secretário de Transportes do ex-prefeito Eduardo Paes e do governador Luiz Fernando Pezão. “Mas, como agentes públicos, eles devem cumprir com suas funções, e não trocar figurinhas no plenário.” Tio Carlos reconheceu que os assessores cometeram um erro. “Gravíssimo? Talvez, mas todos nós erramos”, argumentou o deputado, um ex-animador de festas infantis em seu primeiro mandato na Alerj.

Mesmo com a exoneração publicada no Diário Oficial, Thor de La Vega continua a trabalhar no gabinete de Tio Carlos. Mantê-lo na função foi uma decisão do próprio deputado. “Se ele reconheceu o erro, não me importo com o que os outros vão achar”, disse o parlamentar. “Ele trabalha como voluntário e recebe uma ajuda de custos que pago do meu bolso”, continuou, sem mencionar o valor.

No dia seguinte à demissão, o episódio esteve em pauta na Assembleia. A deputada Cidinha Campos, do PDT, pediu a palavra e lamentou que os rapazes tivessem sido “imolados pela mídia”. “Coisa muito mais grave acontece neste plenário e ninguém é sacrificado, porque tem mandato”, alegou. Seu correligionário Jânio Mendes também saiu em defesa dos assessores. Afirmou que trocar figurinhas é um hábito saudável e concluiu dizendo ao microfone que, se alguém ali tivesse algum cromo dourado, ele ofereceria vinte em troca.

Dias depois, Mendes – que está no segundo mandato na Alerj e já foi condenado por improbidade administrativa – disse à piauí que coleciona o álbum para a neta de 2 meses. “É uma tradição de família, fiz o mesmo quando meu primeiro filho nasceu e mantenho o hábito desde então.” Faltavam-lhe vinte cromos para completar o álbum.

O caso acabou por revelar um hábito que une a Alerj e transcende as diferenças que separam a situação da oposição. Deputados, assessores e funcionários trocam figurinhas nos corredores, nos intervalos do trabalho e no horário de almoço – a começar por Geraldo Pudim, do MDB, primeiro-secretário da Casa (“Sou de uma família de desportistas e meu irmão foi jogador de futebol profissional”, justificou).

Wanderson Nogueira, do PSOL, completara o álbum na véspera, graças aos escambos com colegas da esquerda e da direita. “Na polarização do cenário político atual, trocar figurinha é uma forma de aproximar as pessoas”, defendeu. Nogueira pretende continuar no mercado de troca para ajudar um afilhado a completar o álbum. “Isso me lembra que o Freixo está me devendo vinte figurinhas”, reclamou.

Líder do PSOL na Alerj, Marcelo Freixo disse colecionar o álbum junto com a filha Isadora, de 19 anos. Tinha começado a coleção três semanas antes, e até então só conseguira completar a seleção do México. Em compensação, logo tirou o principal artilheiro do Brasil. “Aliás, tenho o Neymar repetido, quer trocar?”

Camila Zarur

Camila Zarur é jornalista. Trabalhou na piauí e no jornal O Globo

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