esquina

Figurino é um horror

Sete dançarinos nus em Teresina

Samária Andrade
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Durante o espetáculo, um rapaz cochicha com a amiga: “Se eles usassem figurino seria mais fácil entender.” Sete dançarinos nus agitam-se em volta de montes de lenha como se participassem de um ritual primitivo. Provenientes do Japão, Dinamarca, Polônia, Itália, Bélgica e Brasil, os artistas falam frases soltas em suas línguas originais. As palavras soam como magia.

De repente, eles correm pelo galpão e dominam quase todo o espaço com a sua dança. Seus corpos parecem fora de controle, em transe. A música soa mais intensa, o suor escorre, espalha-se um inevitável erotismo. A parte menos tímida do público se aproxima dos dançarinos, talvez querendo perder o controle também. Outras pessoas apenas olham de longe, buscando alguma interpretação.

Depois de 75 minutos, tudo se acalma. Os dançarinos vão saindo de cena. O público não sabe se aplaude ou se espera um pouco mais. Chegou ao fim A Invenção da Maldade, o novo espetáculo do coreógrafo e bailarino piauiense Marcelo Evelin, apresentado no CAMPO Arte Contemporânea, em Teresina.

“Esse espetáculo, hoje, não teria espaço em São Paulo ou no Rio”, afirma um espectador carioca. Ele está pensando, certamente, na nudez dos dançarinos e no que ocorreu com o artista Wagner Schwartz após a performance La Bête [A Fera], no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2017. Por causa de uma foto em que uma criança aparece tocando seu corpo nu durante a apresentação, Schwartz sofreu linchamento nas redes sociais e desencadeou um debate nacional sobre a exibição da nudez no teatro e em performances.

No Piauí, meio ilhado de tudo, Evelin talvez suponha que a onda conservadora demore um pouco mais a chegar. Mesmo assim, achou melhor limitar o acesso ao espetáculo a pessoas de pelo menos 18 anos. “Até os jornalistas estão com medo. Dão um pigarro e finalmente fazem a pergunta: ‘Vai ter gente nua?’”, disse o coreógrafo. “A nossa subjetividade está sendo minguada, por isso é importante propor o corpo como potência que está em cada um de nós.”

Marcelo Evelin, 57 anos, é um sujeito robusto, de 1,86 metro, careca e de barba grisalha. Apesar de viver há mais de três décadas na Europa, conserva um forte sotaque nordestino. Ele contou que extraiu o título de sua nova coreografia de um episódio da infância. “Já começou a invenção da maldade”, falava sua avó, rindo, quando ele reunia as crianças para brincar de teatro em Teresina, onde nasceu. Por isso mesmo, no seu novo espetáculo, “maldade” é algo relacionado não exatamente à moral, mas à travessura, inquietude e ruptura. “A brincadeira de criança tem uma inocência quase brutal”, definiu o artista.

Na juventude, Evelin chegou a estudar jornalismo no Rio de Janeiro, porém largou a faculdade para se dedicar à dança. Em 1986, mudou-se para a Europa. Quando o Muro de Berlim foi derrubado, em 1989, ele fazia parte da companhia de Pina Bausch, mas nesse mesmo ano decidiu ir para Amsterdã criar de maneira independente sua primeira coreografia, Muzot, inspirada no poeta Rainer Maria Rilke. Com sua própria plataforma de dança, a Demolition Incorporada, realizou vários espetáculos bem-sucedidos, firmando-se como um dos coreógrafos brasileiros mais conceituados no exterior. Também é professor, há duas décadas, na Escola de Mímica da Universidade de Artes de Amsterdã.

Nunca deixou de voltar a Teresina, apesar da relação conflituosa que sempre teve com sua terra natal. “Alguns acham que faço coisas que não se deve fazer aqui”, afirmou. Na cidade, Evelin criou em 2016, junto com a gestora cultural Regina Veloso, o CAMPO Arte Contemporânea, que ocupa um antigo galpão de supermercado em um bairro residencial de classe média. Nesse local amplo, com colunas de concreto e piso em cimento, sem palco, sem cadeiras, sem qualquer comodidade para o público, Evelin ensaia e apresenta as suas coreografias.

A Invenção da Maldade estreou em Teresina em 4 de abril para uma curtíssima temporada de quatro dias. Em seguida, o elenco viajou à Europa, para apresentações em Portugal, na Itália, Alemanha, Bélgica e França.

Coordenados por Evelin, nove artistas participaram da criação do espetáculo: o baiano Márcio Nonato, a mineira Rosângela Sulidade, os paulistas Bruno Moreno e Carolina Mendonça, o japonês Sho Takiguchi, o dinamarquês Jonas Schnor, a polonesa Maja Grzeczka, o italiano Matteo Bifulco e o belga Elliot Dehaspe. Eles viveram em Teresina durante dois meses, em regime de residência artística, cuidando também coletivamente das tarefas cotidianas: varrer o galpão, regar as plantas e fazer compras na padaria Pão Gostoso, pequeno empreendimento no bairro São João que tem chamado a atenção dos turistas.

Não é a primeira vez que Evelin coloca pessoas nuas em cena. Em Batucada, de 2014, por exemplo, havia cinquenta dançarinos sem roupa. “Figurino é um horror! Eu odeio figurino”, sentenciou o coreógrafo. Para ele, o corpo nu é o que faz sentido: fala de algo sem identificação, sem tempo ou lugar. “A gente vive domesticado em narrativas. Nosso trabalho de artistas é abrir possibilidades.”

Samária Andrade

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