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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

esquina

A fila da bênção

Padre Marcelo Rossi lança mais um best-seller

Tiago Coelho | Edição 114, Março 2016

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Teresinha de Castro Barros, de 80 anos, saiu de casa às seis da manhã. Com um rosário numa das mãos e um livrinho na outra, a senhora miúda de cabelos brancos achou melhor não perder tempo e rezar pelo caminho a primeira oração do Ângelus. Moradora de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ela andava rápido, apesar das dores que costuma sentir nas pernas: queria garantir um bom lugar na fila de lançamento, naquele dia, do novo livro do padre Marcelo Rossi. Levava consigo seu exemplar de Ruah: Quebrando os Paradigmas de que Gordura É Saúde e Magreza É Doença; na capa, vestindo um avental branco, o religioso de 48 anos aparece sorrindo, atrás de um balcão de cozinha.

Quando chegou ao local do evento, não muito longe de sua casa, Teresinha se surpreendeu com outras dez senhoras que já aguardavam na fila. Ansiosas por encontrar o sacerdote, algumas haviam pernoitado em frente ao portão. Apesar do sacrifício, acharam por bem deixar a octogenária passar à frente. Teresinha Barros acabou recebendo a primeira das 2 mil senhas distribuídas para aquela tarde de autógrafos. Era final de janeiro e, ao meio-dia, o calor não dava trégua. A fila continuava a crescer.

Na quadra poliesportiva coberta com telhas de zinco, anexa a uma escola, os fiéis se apertavam num ambiente quente como uma estufa. As mulheres eram bem mais numerosas do que os homens. De todos os lados vinham reclamações de calor e de cansaço. “Uma senhora desmaiada aqui”, gritaram. “Queda de pressão, alguém acode!” Funcionários contratados para o evento corriam para tentar ajudar. Centenas de pessoas suportavam o sufoco como era possível: com leques, garrafas d’água, toalhinhas de pano. O próprio livro, vendido no local por 19 reais, servia de abanador.

 

Sentada numa cadeira de praia, Celina Silva de Souza, de 71 anos, disse que brigou com o pároco de sua igreja por causa do padre Marcelo Rossi. Em tom jocoso, o sacerdote anunciara aos fiéis que seu colega pop star estaria na cidade para lançar um “livro de receitas”. Celina de Souza contou ter respondido ao religioso com irritação. “Não é um livro de receitas, é para ensinar a comer bem. Ele nem leu o livro. Mas, você sabe, padre Marcelo é muito invejado.” Teresinha, que ouvia a conversa, assentiu com a cabeça e concluiu: “A depressão pela qual ele passou foi por causa de inveja. Tenho certeza.”

Do ponto de vista comercial, os números do padre são realmente invejáveis: ao longo da carreira, foram mais de 16 milhões de livros vendidos e outros 13,5 milhões de discos. Ordenado em 1994, Rossi logo se tornou o principal expoente da Renovação Carismática da Igreja Católica no Brasil, além de fenômeno pop, habitué de programas de auditório. Hoje frequenta as listas de best-sellers, como a da revista Veja, na qual em meados de fevereiro ocupava as duas primeiras posições da categoria “autoajuda e esoterismo”, com Ruah, em primeiro lugar, e Philia, em segundo.

No livro recém-lançado, Rossi não dá detalhes de sua depressão, mas oferece explicações para os distúrbios alimentares. Com 1,95 metro, alcançou a marca de 129 quilos em 2013 – segundo ele, um efeito colateral de anti-inflamatórios e analgésicos usados por causa de uma dor lombar. No limite da obesidade e com pressa para emagrecer, relata ter enveredado por uma dieta em que comia apenas alface e hambúrguer light de peru. Como resultado, chegou a pesar meros 65 quilos. Ainda assim, quando se olhava no espelho, ele se achava gordo. Hoje, está com 80 quilos e, segundo a tabelinha de classificação de estado nutricional presente no livro, dentro da normalidade.

 

Muito alto e magro, as costas encurvadas, Rossi enfim chegou à escola. Vestindo calça preta e camisa clerical igualmente preta com colarinho branco, foi recepcionado por um coro de mulheres que parecia saído de um programa de auditório: “Padre Marcelo, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver.” A sessão de autógrafos começou às 15 horas. Algumas pessoas não só traziam o novo lançamento, como todas as obras do sacerdote, além de garrafas d’água, fotografias e peças de roupa para serem abençoadas. Muitas também seguravam carteiras de trabalho de parentes desempregados.

As primeiras vinte pessoas ganharam autógrafos do padre. Não demorou muito, contudo, e a assinatura foi substituída por um carimbo nas páginas iniciais do livro. Por fim, o autor abandonou caneta e carimbo e se limitou a distribuir bênçãos. Com a mão esquerda ele segurava a estola, e com a direita tocava a cabeça dos fiéis, um depois do outro. Balbuciava algumas palavras antes que a produção afastasse a pessoa e a encaminhasse para a saída. Alguns se contentavam com uma foto e com a bênção, mas outros queriam contar sua história, falar de sua admiração. Acabavam saindo frustrados.

A tarde caía, mas o calor não dava trégua. Cada vez mais cansado e abatido, Marcelo Rossi de vez em quando fazia uma pausa de uns dez, no máximo quinze minutos. Na última interrupção, descansou por meia hora. Quando voltou, ainda mais arqueado, já eram sete e meia da noite.

As últimas pessoas na quadra demonstravam irritação e desapontamento com a brevidade da interação com o padre. Mão na cabeça, bênção, o próximo. Era preciso chegar ao fim da fila. Rossi abençoou uma senhora baixinha, os cabelos tingidos de castanho. Na esperança de um segundo encontro para tirar uma foto, a mulher decidiu voltar para o fim da fila, que àquela altura já não era grande. A produção então insistiu para que ela fosse embora. Nervosa, esbravejou: “Que decepção! Depois de tanto tempo esperando.” Saiu bufando.

Outras senhoras quiseram repetir a rebeldia. Depois de um primeiro e breve encontro com o padre, voltavam para o fim do grupo. Ele percebeu. Com a voz grave, o dedo em riste e o rosto contrariado, Rossi repreendeu as fiéis. “Eu já sei quem passou por mim na fila. Não me desobedeçam. Eu não brinco com o poder de Deus. Espero que vocês não brinquem também.” A última pessoa a ser atendida portava a senha 1998. Ao deixar o galpão, perguntei ao padre como ficava a sua dieta com uma rotina tão corrida. “Eu sou um pároco. Essa não é minha rotina diária. Isto aqui é uma exceção.” As pernas compridas se encaminhavam apressadamente para um dos dois carros executivos pretos que estavam a sua espera, no estacionamento. Lá fora, um grupinho ainda gritava: “Padre Marcelo, cadê você?! Eu vim aqui só pra te ver.”