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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

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Fina estampa

A estilista que pôs Nelson Mandela na moda

Daniela Pinheiro | Edição 45, Junho 2010

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No aeroporto internacional de Joanesburgo, depois de vencer o controle de passaportes, a primeira visão do que se anuncia como um imenso corredor de lojinhas de bugigangas é uma vitrine metonímica. Seis manequins sem cabeça e sem pernas envergam camisas que dispensam apresentação, para quem tem em mente a figura do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela. Em seda pura, pintadas a mão, com estampas que se poderiam descrever com um arsenal de adjetivos – nenhum deles sinônimo de “discreto” ou “avançado” –, as Mandelas, como são chamadas pela vendedora, capturam o olhar.

Primeiro, pela possibilidade de admirar de perto um grafismo muito peculiar – pássaros, flores, tramas, cabeças étnicas, naturezas-mortas, rabiscos. São peças feitas uma a uma por uma equipe enxuta de oito alfaiates, que produzem apenas 400 exemplares por ano. A exclusividade tem um preço: cada uma delas custa no mínimo o equivalente a 1 500 reais. E há também a possibilidade de matar uma curiosidade que assola quase todo mundo que visita a África do Sul: quem mais, além de Mandela, usará essas camisas? “Nossa clientela tem muitos aposentados ingleses”, informa a vendedora, nitidamente entusiasmada.

A loja Presidential pertence à estilista sul-africana Desre Buirski, uma loira magra, de 48 anos – “Ai, essa informação é realmente necessária?” –, que lembra sua colega de profissão Donatella Versace, antes do tsunâmi de plásticas que desestabilizou o semblante da italiana. Nos anos 80, no auge do apartheid, Desre emigrou para os Estados Unidos com a família. Fez o caminho contrário em 1992 – segundo diz, comovida por um discurso: Nelson Mandela conclamara todos os sul-africanos que haviam deixado o país “a voltar e pôr em prática em nossa nova nação o que aprenderam lá fora”.

Em 1994, algumas semanas antes da posse, o presidente eleito daria uma palestra numa sinagoga da Cidade do Cabo. Desre o aguardava ali com um presente: uma camisa preta de viscose, tamanho GG, de oito botões, com enormes peixes amarelos que ela mesma pintara. Como era impossível aproximar-se de Mandela, Desre passou o embrulho a um segurança da comitiva, que desconfiou, com toda razão. Achando que podia ser uma bomba, ele a levou para fora do recinto e a fez abrir o pacote.

 

Ao longo de 27 anos, Nelson Mandela vestira o uniforme cáqui da prisão da Ilha de Robben. A indumentária que adotou depois que foi libertado poderia ser descrita como conservadora e discreta. Nas aparições públicas, se não estava de terno, usava camisas polo e calça escura. Duas semanas depois da palestra na sinagoga, ele apareceu no ensaio da cerimônia de posse trajando a camisa de peixes amarelos (que mais tarde seria leiloada pelo Congresso Nacional Africano, o partido do presidente, para pagar uma conta telefônica de um comitê eleitoral do Cabo). A imagem saiu na primeira página dos jornais sul-africanos e ganhou o mundo.

Foi nessa ocasião que Desre recebeu um telefonema da secretária particular de Mandela – ela deixara no bolso da camisa um bilhetinho de apreço e, providencialmente, um número de telefone. Os presentes passaram a ser enviados quase todo mês, e com a mesma periodicidade chegavam as cartas de agradecimento.

No ano seguinte, quando Desre já presenteara Mandela com quase vinte peças, veio o convite para conhecê-lo pessoalmente, no gabinete em Pretória. Ela não segurou o choro quando o viu. Na conversa de quase uma hora, disse-lhe que “queria ajudar o novo governo de alguma maneira” – e “ele sugeriu que eu fizesse camisas com motivos folclóricos, para exaltar o nosso país lá fora.” Estava lançada a “moda Mandela”.

“Ele insistia em pagar”, ela conta, “mas isso sempre esteve fora de questão.” Já foram 130 camisas de seda e outras 150 de linho ou algodão. Com quase 1,90 de altura, Mandela usa o tamanho extra-grande. As mangas são maiores do que o normal, pois ele “tem braços compridíssimos”. Em termos de cor, sua preferência são “os tons da Terra”.

Desre subiu no salto das suas botas de oncinha – que ela só tira para dormir – quando um costureiro da Costa do Marfim, Pathé Ouédraogo, começou a reivindicar a autoria das camisas. “Até hoje é a mim que a assessoria de Mandela procura! Se ele tem um evento, sou que eu que faço a camisa!” Ela guardava os retalhos de todas as 280 peças que confeccionara, como prova do trabalho. Em 2008, resolveu transformá-los em dois grandes edredons de patchwork de seda e, com a devida autorização, estampou neles a assinatura de Mandela. Leiloados em Mônaco para fins beneficentes, um deles foi arrematado por Paul Alen, cofundador da Microsoft, por 360 mil euros.

Quando Clint Eastwood desembarcou no país para filmar Invictus, ligou pessoalmente para a estilista. “Mandei quatro camisas para ele e produzi todas as que o Morgan Freeman usa no filme”, ela conta. Com quatro lojas na África do Sul, o grosso de suas vendas ocorre pela internet. Segundo diz, as camisas encontram compradores no mundo todo – “E não são só turistas ingleses, não. É gente com personalidade e senso étnico.” O guitarrista Carlos Santana e o roqueiro Bruce Springsteen, cujo senso étnico está acima de qualquer suspeita, são dois deles.

Para a abertura da Copa do Mundo, Mandela já recebeu a sua. É um modelo de cor preta, em seda bordada.