esquina

Flerte com Dinklage

O astro de Game of Thrones

Ana Maria Bahiana
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Uma linda mulher está flertando com Peter Dinklage. E não é a primeira vez que isso acontece. “Ela faz isso sempre”, diz Dinklage, com um vago sorriso de satisfação. “Depois de filmar uma cena de amor daquelas… você sabe como são essas cenas em Game of Thrones, ela diz pra mim: ‘Como vai sua mulher, Peter?’”

A linda mulher é Sibel Kekilli, alemã de origem turca, ex-atriz pornô que faz o papel de Shae, o grande amor da vida de Tyrion Lannister na premiada, popularíssima série Game of Thrones, da HBO. Se você é um dos milhões de fãs de GoT, sabe que Dinklage é Tyrion, talvez o personagem mais querido da série, o filho caçula de uma abastada família nobre, rejeitado pelo pai e pela irmã por ter 1,35 metro de altura, pernas tortas, braços curtos e uma cabeça desproporcional. Ou seja, por sofrer de acondroplasia, uma das formas de nanismo.

Tyrion Lannister, como Peter Dinklage, é anão.

“Mas foi sua mulher que me pediu para fazer isso, Peter!”, Sibel se defende. “Disse para eu falar ‘mande lembranças a sua esposa’ cada vez que interpretássemos uma cena dessas.”

É uma tarde de maio ensolarada e quase fria em Los Angeles, e estamos nos jardins bem cuidados de um desses hotéis de luxo genéricos onde estúdios e marqueteiros gostam de enclausurar famosos e jornalistas para maratonas de entrevistas, em geral milimetricamente monitoradas. Um brunch está sendo servido no salão ao lado – e George R. R. Martin, autor da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, que gerou a série Game of Thrones, está degustando ovos mexidos num canto, sem ser incomodado.

Dinklage aproveita o sol da tarde numa cadeira de ferro batido, que uma pilha de almofadas torna mais confortável para sua estatura. Veste jeans, uma camiseta cinza e uma jaqueta estilo militar cinza-chumbo. Tem cara de sono e a barba por fazer. Lena Headey – Cersei Lannister, a rainha diabólica, irmã de Tyrion na série – posa para os fotógrafos no outro extremo do jardim. Sibel Kekilli se aproximou só para mexer com o amigo.

“Eu não vestia nada da cintura para cima no meu primeiro dia no set”, ela conta. “Se você não fica logo amiga do ator com quem vai contracenar…” “E eu tinha que transar com essa garota superpalhaça”, Dinklage completa. “Estávamos no meio do nada, na Irlanda do Norte, e eu já meio bêbado de vinho cenográfico. Nunca confie no suco de uva vendido em mercados irlandeses.”

 

Um dos personagens mais populares dos livros de George R. R. Martin, Tyrion catapultou Dinklage para uma esfera de popularidade que, ele confessa, jamais tinha imaginado – nem sequer almejado. Perfis criados em seu nome no Twitter têm quase 2 milhões de seguidores; no Facebook, sua página não oficial tem quase 200 mil. Em Nova York, onde mora com a mulher, a diretora teatral Erica Schmidt, e a filha de 3 anos, vira e mexe é parado na rua por fãs.

De todo o vasto elenco de Game of Thrones, Dinklage é o único que levou para casa um Emmy e um Globo de Ouro relativos a 2011 (em seu discurso de agradecimento, mencionou repetidas vezes Martin Henderson, um anão que ficou paralítico depois de ter sido arremessado no chão por um jogador de rúgbi bêbado, em frente a um pub na Inglaterra).

Tyrion é o 43º personagem que Dinklage interpreta, numa trajetória que começou “um pouco por preguiça” quando ele decidiu trocar o curso de biologia pelo de arte dramática. “Quando descobri que tudo aquilo de que eu mais gostava em biologia exigia matemática, perdi o interesse.” Único portador de nanismo da família, Dinklage sempre teve “um agudo senso de autoconhecimento”. “Muito cedo vi que não era como meus amigos. E muito cedo percebi que provocava medo nas pessoas. Infelizmente muitas vezes sucumbi à raiva. Sobretudo na adolescência.”

O apoio da família a sua opção pelas artes e a descoberta do “poder do senso de humor” – “a vida é curta demais para ficar com raiva o tempo todo” – foram fundamentais para Dinklage superar o que as outras pessoas viam em sua figura. “A opinião dos outros deixou de ser um problema para mim”, disse ele.

 

O primeiro trabalho profissional de Dinklage – depois de cursos no Bennington College de Vermont e na Academia Real de Arte Dramática de Londres – foi exatamente como um ator anão aprisionado pelo clichê do ator anão, no delicioso filme Vivendo no Abandono, de Tom DiCillo, de 1995. Seu personagem era escalado para aparecer numa cena de sonho num filme dirigido pelo personagem de Steve Buscemi. “Tudo bem que é um sonho, mas por que tem que ter um anão? Por quê?”, Dinklage repetia.

Em 2003, ele estrelou o filme que aceleraria sua carreira, como o introspectivo Finbar McBride de O Agente de Estação, escrito e dirigido por seu amigo Tom McCarthy. O papel o ajudou a encontrar o que se tornaria seu princípio fundamental: “Não me interessam papéis de anão. ‘Anão’ não pode ser a definição de um personagem para mim.”

Porque queria “saciar a curiosidade de saber como era ser um anão-anão, desses de barba, num filme”, Dinklage aceitou encenar Trumpkin, o anão-guerreiro de As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian, de 2008. Ele é lacônico ao lembrar a experiência: “Foi exatamente o que eu achava que seria. Nunca mais.”

Pergunto se, com papéis alinhavados até 2015 – incluindo o recém-estreado vilão de X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido–, a vida agora está fácil para ele. “A vida nunca vai ser muito fácil para alguém da minha altura, mas do que vou reclamar? O trabalho de ator, em si, não é difícil – ops, acabei de revelar um segredo… Mas conseguir o papel, ou melhor, um bom papel, é difícil. Eu tenho sorte.”

Uma assistente vem buscar Dinklage para uma sessão de fotos. Ele desce da cadeira num quase pulo e se detém por um momento antes de seguir. “Sabe o que eu não consigo processar? Que completo 45 anos em junho. Mas ainda bem. Eu não queria que tudo isso tivesse acontecido na minha vida quando eu tinha 20 anos. Eu teria sido insuportável.”

Ana Maria Bahiana

Jornalista e escritora, nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles

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