CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2025
Flor desabrocha
O primeiro álbum da neta de Gilberto Gil
Tiago Coelho | Edição 224, Maio 2025
Ágil e zelosa, a chef Bela Gil cuidava com minúcia dos preparativos da festa de sua filha: ia para lá e para cá, arrumando os bolos decorados com flores coloridas, as comidinhas e os sucos – tudo natural. Quando a filha chegou, às oito da noite, os quitutes da festa estavam todos prontos sobre as mesas.
Não era uma festa de debutante, pois Flor Gil já tem 16 anos. Mas no dia 16 de abril, num casarão em São Conrado, espécie de QG da família Gil no Rio de Janeiro, com estúdios de gravação, sala de ensaio e de projeção, a comemoração não deixava de ter função parecida a de uma festa de debutante: apresentar a adolescente à sociedade. No caso de Flor, o objetivo da família Gil era introduzir a jovem cantora no showbiz. Estavam lá jornalistas e famosos, como a atriz Carolina Dieckmmann e a promoter Liège Monteiro, o representante de uma plataforma de streaming, além da família e dos amigos da jovem.
Flor Gil chegou à festa acompanhada da namorada. Trajava um vestido acetinado preto com recortes e fendas, bem ao estilo Kendall Jenner (que, há algumas estações, causou frisson no casamento de uma amiga, com um longo preto cheio de recortes da marca americana Mônot), mas que também recordava o tubinho preto da atriz Audrey Hepburn no filme Bonequinha de luxo (1961). A jovem usava ainda um par de longas luvas pretas de tule, que lembravam as de Madonna no filme Procura-se Susan desesperadamente. E no pescoço portava um colar prateado escrito love. O visual acompanhava o tema do seu disco de estreia, Cinema love.
Das nove faixas do álbum, sete foram compostas por Flor Gil em parceria com outros músicos, todas seguindo um estilo pop bem atual. Sete delas são cantadas em inglês, ou misturam inglês com português, como Starstruck, que diz: All I feel is saudade na minha cidade. (A cantora vive entre o Rio e Nova York – onde ela nasceu e onde vive a sua namorada, que é americana.) Quase todas as músicas têm um tom intimista e falam de relações de um jeito confessional, como em um diário. “Me sinto tão segura com seus olhos em mim. Ela não sabe nada sobre mim, mas eu queria que ela soubesse”, canta a adolescente (em inglês) na faixa que dá nome ao disco.
Às 21 horas, a equipe da artista enviou Cinema love para as plataformas de streaming. Flor Gil já fez algumas apresentações na turnê do avô Gilberto Gil, mas a partir daquele momento ela passava a responder como artista solo.
Logo depois do lançamento, a cantora se reuniu em um estúdio de gravação da casa com sete jornalistas. Perguntei se as letras de suas músicas eram sobre coisas que ela estava vivendo naquele momento. “Nessa idade que tenho, os sentimentos são muito intensos. Foi muito natural escrever sobre amor e falar de minhas paixões”, respondeu com desenvoltura a jovem de enormes olhos cor de avelã.
O jornalista musical Pietro Reis perguntou quais filmes a inspiraram em Cinema love. “Um dos que me ajudaram a criar uma identidade visual para esse disco foi Lost in translation, aquele com a Scarlett Johansson”, disse Flor sobre o filme dirigido por Sofia Coppola, que no Brasil se chamou Encontros e desencontros (2003). “Eu comecei a usar uma peruca rosa, e meus amigos disseram que eu ficava parecida com a Johansson no filme. Eu achei legal. Vi que dava para trazer aquela referência para minha estética”, contou, acrescentando: “O filme me traz um sentimento de lost in love.” Em uma das canções, ela canta: I’ve been lost in love,/I’ve been dreaming wide awake (eu estava perdida de amor, eu estava sonhando acordada). Outra referência cinematográfica do álbum é, justamente, Bonequinha de luxo, filme do qual Flor gravou a música-tema, Moon river.
Uma das poucas contribuições do avô ao álbum é uma letra que Gilberto Gil nunca musicou. “Eu estava lendo o livro Todas as letras, [o songbook] do meu avô, e vi uma música que se chamava Saudade. E saudade é um sentimento forte na minha vida e nesse disco. Sinto saudades do que vivi quando estava compondo alguma música, vivendo algum amor”, disse Flor Gil, que fez a música junto com Vitão.
Há quase dois anos, Bela Gil postou em seus stories no Instagram uma conversa que teve com a filha no WhatsApp. Nela, Flor perguntava à mãe o que achava de publicar uma mensagem que dizia: “Fico ofendida quando me chamam de hétero.” Bela respondeu: “Se você sentir que sim, posta! Você é pan, não é?” Pansexualidade é uma orientação em que a pessoa se sente atraída por várias outras, não importa qual a identidade de gênero delas. Flor respondeu: “Acho que não, mami. Acho que na real mesmo eu sou uma grande sapata. Cê tem uma filha bem gay Kkkkk.” Na festa de lançamento, Bela Gil disse da filha: “Nada do que ela diz no disco me surpreende, porque tudo já foi conversado entre nós. Tenho orgulho de ser alguém com quem ela possa se abrir. Ela é muito corajosa de falar de seus sentimentos sem medo de julgamento.”
Em uma das salas estavam sendo exibidos videoclipes das músicas de Flor Gil. Um deles mostrava a jovem cantando em um tom meio sussurrado, intimista. A pegada remete a Billie Eilish ou Erika de Casier, com batidas eletrônicas discretas e arranjos muito contemporâneos. No fundo da sala, de pernas cruzadas, Gilberto Gil assistia a tudo com uma expressão meditativa que destoava da agitação da garotada em torno.
Um tempo depois, na varanda do casarão, Gil observava a festa com aquele seu jeito sereno. “O senhor estava ouvindo o disco com muita atenção”, eu disse, interrompendo seu silêncio. “É porque tenho que aprender a ouvir. É um disco muito diferente do meu campo de interesse e atenção musical. É um disco de imersão contemporânea, pós-moderna”, respondeu o avô de Flor. “O senhor está sempre digerindo novidades, seguindo sua trilha tropicalista…”, eu comentei. “É. Mas estou mais cristalizado nos estilos e conceitos da minha época. Hoje, já não é uma época em que me interesse tanto pelas novidades. Eu gosto, mas preciso fazer uma imersão, buscar uma uterinidade naquela sonoridade nova, sabe? Como uma coisa de líquido amniótico que você tem que saber nadar, e eu tenho dificuldade para nadar nesse líquido. Por isso, digo que tenho que aprender a ouvir.”
Perguntei a Gil que conselhos ele costuma dar a novatos que o procuram quando se lançam na carreira de músico. “A coisa mais importante é ter uma autoidentificação do talento, porque o talento reconhecido por outros é uma coisa importante, mas o fundamental é a autopercepção do talento. A primeira pessoa que tem que gostar do que você faz é você mesmo”, ele disse. “Também precisa ter disposição para trabalhar. Hoje, com tanta gente disputando um espaço, é necessário ter muita disposição para levar esse talento adiante.” O avô de Flor Gil está fazendo uma turnê de despedida pelo país. Depois de seis décadas de carreira, ele se aposenta dos palcos no fim do ano.
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