esquina

Foice, martelo e peruca

Uma drag queen comunista

Daniel Lisboa
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

No porão abafado do Cabaret da Cecília, em uma casa antiga próxima ao Centro de São Paulo, 34 pessoas se aglomeram para assistir ao curso “O amor como construção social”, ministrado pela drag queen comunista Rita von Hunty.

Ela veste saia branca que deixa ver os joelhos e uma blusa de listras azuis e brancas colada ao corpo. Do lado esquerdo do peito, um broche com o símbolo do comunismo: a foice e o martelo. É magra e tem 1,80 metro de altura, descontado o salto. Seu rosto aquilino está bem emoldurado por uma peruca volumosa, de cabelos ondulados como os das pin-ups dos anos 50 – uma paixão da drag. Daí o prenome, homenagem à atriz americana Rita Hayworth, como o “von” é uma vênia à dançarina burlesca Dita Von Teese. O sobrenome, “Hunty”, vem de uma gíria usada pelas drags americanas para expressar admiração ou carinho.

É um domingo quente de fevereiro, poucos minutos depois de três da tarde. A maior parte das pessoas na casa no bairro de Santa Cecília está sentada em nove bancos compridos e acolchoados. Quem teve sorte conseguiu uma cadeira com encosto. Pouca coisa compõe o local de aproximadamente 9 metros de comprimento, 4 de largura e apenas 2 de altura: um ventilador, uma caixa de som, dois refletores e um estroboscópio em forma de caveira.

No telão, uma das primeiras imagens “de amor” projetadas do PowerPoint mostra o ex-presidente Michel Temer ganhando um olhar terno de sua mulher, Marcela. A plateia ri, mas concentra-se nos três textos sobrepostos à foto: da poeta grega Safo (c. 610-570 a.C.), do poeta romântico inglês John Keats (1795-1821) e do funkeiro brasileiro mc Kevinho (atualmente com 20 anos).

“O que esses textos têm em comum, apesar de tão separados no tempo?”, pergunta a drag aos alunos.

Formado em artes cênicas pela Unirio e em letras pela USP, o paulista Guilherme Terreri Pereira, 28 anos, encarnou Rita von Hunty pela primeira vez no Carnaval de 2013. Os amigos gostaram da personagem, e as aparições continuaram, aqui e ali, até alcançarem algumas badaladas casas noturnas paulistanas, como Hot Hot, Lab Club e Bubu Lounge.

A primeira investida de Von Hunty no YouTube foi em um programa dedicado à culinária, Tempero Drag. Em maio do ano passado, ela resolveu “tirar a mulher da cozinha e levá-la para a sala, para falar de política”. Começou a postar, no mesmo canal, a série de vídeos Rita em 5 Minutos, em que trata de temas como “padrão de beleza”, “remuneração do professor” e “consciência de classe”. “Como é possível não se interessar por política?”, pergunta, enquanto se maquia em seu apartamento, no bairro da Consolação, pouco antes de partir para a aula em Santa Cecília.

Em outubro, ela iniciou o presencial Curso Revolucionário de Rita von Hunty, formado por módulos como “Uma abordagem epistemológica do trabalho” e “Uma breve história do capitalismo”. As aulas são dadas no Cabaret da Cecília e na Livraria da Vila (unidade do Jardim Paulista). O material de divulgação mostra a drag em trajes de camponesa soviética.

A dupla militância de Von Hunty como comunista e drag queen vem irritando a direita. Em dezembro, atenta à formação do governo Bolsonaro, ela criticou uma declaração do futuro ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, em que ele defendia serem os gêneros sexuais definidos pela natureza. “Ele parece ter ignorado todo o conhecimento construído pelas humanidades desde que o mundo é mundo até hoje”, disparou a drag, em um vídeo.

O youtuber Bernardo Küster, que tem mais de 640 mil inscritos (quase treze vezes o número dos que seguem Von Hunty), resolveu contra-atacar: “Na Nova Guiné, no Japão, na França, não importa a época, os homens tinham padrões de expressão cultural superficiais mais ou menos diferentes, mas as coisas fundamentais permaneciam as mesmas: o homem sempre foi o provedor, o pai, o membro das forças de segurança.”

“Em 24 horas, os seguidores dele fizeram mais de duzentos comentários de ódio no meu canal”, conta Von Hunty, que é também uma das apresentadoras do programa Drag me as a Queen, do canal E! “Os comentários não eram coisas do tipo: ‘Eu discordo da sua argumentação.’ Eram coisas assim: ‘Aproveita enquanto você pode gravar vídeos e tem dentes na boca.’” Ela achou melhor apagar as frases raivosas de sua página.

O que esses textos têm em comum, apesar de tão separados no tempo?”, pergunta Rita von Hunty, no Cabaret da Cecília, sobre os escritos de Safo, Keats e MC Kevinho. E ela mesma responde: “Que o amor é sofrimento. Se esse é o seu ideal, você precisa repensar.” Parece autoajuda, mas é apenas o início de uma empenhada exposição sobre as concepções de amor através dos tempos, até chegar à “instituição do casamento”, um prato cheio para “desconstruir”. “Quando alguém me diz que vai casar, só consigo pensar que essa pessoa está querendo dizer para a outra: ‘Eu te amo tanto que vou envolver o Estado nisso’”, explica a drag.

Von Hunty aprecia os momentos iniciais da Revolução Russa, mas diz detestar ditaduras. Para explicar sua inclinação política, recorre a uma definição extraída do livro Comunismo para Crianças, de Bini Adamczak: “Comunista é a sociedade que elimina todos os males que hoje afligem os seres humanos em uma sociedade capitalista.” E, em plano mais pessoal, completa: “Eu me acredito comunista por querer pensar e organizar ações que visem a transformar o sistema, ou, na pior das hipóteses, reformá-lo.”

É sabido que todos os governos socialistas perseguiram homossexuais, como na União Soviética e em Cuba. “Mas os capitalistas não são também historicamente homofóbicos?”, ela rebate. “Até muito recentemente, em muitos países capitalistas homossexuais eram presos, torturados e tinham seus direitos negados.” Na concepção de Von Hunty, já não existe incompatibilidade entre a rebelião das drag queens e as lutas pelo comunismo.

Daniel Lisboa

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