esquina

Fome de socialista

Heráclito Fortes sonha com a tribuna

Malu Delgado
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Há quase quatro anos Heráclito Fortes não pisa no Congresso. Foi a primeira atitude que adotou para superar a depressão típica dos que ficam sem mandato. Ainda mais típica de políticos como ele, no ramo há mais de três décadas. “Nunca mais entrei lá. Senão bate aquela nostalgia”, ele disse, enquanto esquadrinhava o cardápio de um restaurante no bairro dos Jardins, em São Paulo, num início de tarde de junho.

Indeciso entre o stinco de leitãozinho e o robalo em crosta de amêndoas, o piauiense contou que a “sexta sem lei” foi fundamental para enfrentar o revés nas urnas. É assim que se refere ao convescote que reúne deputados, senadores, aspones e jornalistas em sua casa, em Brasília, para comer, beber e, de quebra, discutir a conjuntura do país.

Em seu gabinete do Senado, Heráclito, como é mais conhecido, já tinha o hábito de servir a profissionais da imprensa paçoca de carne seca durante conversas animadas. O local foi até apelidado de “Piantellinha do Senado”, referência ao restaurante Piantella, ponto de encontro de políticos na capital federal. A “sexta sem lei” dá ao ex-senador a sensação de continuar no metiê.

“Fiquei um ano na fossa. Comecei a cuidar de um neto, depois de outro”, contou, relembrando a derrota de 2010. A distração com a família, porém, durou pouco. “Três meses depois começaram a achar que eu tinha que voltar. Me viam muito triste.” Decidiu então montar um escritório em Brasília. “Não era para fazer negócio. Era para sair de casa para não brigar com a mulher.” As primeiras quatro visitas foram de empresários-políticos – “Isso é quase indivisível” –, que lhe propuseram sociedade. “Para eles as propostas eram a coisa mais normal do mundo. Para mim, não. Não seria ético”, comentou o ex-senador, recusando-se a dar detalhes do que lhe foi oferecido. A rotina paralela à política não vingou. “O escritório está fechado, cheio de poeira.” Com três décadas de contribuição previdenciária como parlamentar, ele passou os últimos anos vivendo da aposentadoria.

Corpulento, com as bochechas pronunciadas e uma papada característica, Heráclito Fortes dá a impressão de engolir as próprias palavras. Enquanto saboreava o robalo, procurava no tablet reportagens que tinha arquivado sobre o que considera ter sido o Dia D de seu eclipse político. Era uma quarta-feira à noite quando ele subiu à tribuna do Senado e informou que acionaria o Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar) para suspender a campanha publicitária do Banco do Brasil que ainda seria lançada nos dias seguintes. Sacudindo o corpanzil, acusava a propaganda – cujo título era “Decida pelo 3” – de passar mensagem subliminar de apoio ao terceiro mandato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Diante do peixe, o ex-senador afirmou não ter dúvida de que foi naquele 15 de agosto de 2007 que Lula decidiu enterrá-lo politicamente. “Ele ficou com ódio. Aí me pegou.” Um avião que Fortes usou durante a corrida eleitoral foi parado pela Polícia Federal. Carros dele e de pessoas que atuavam em sua campanha também foram constantemente revistados por policiais. “Em Floriano, no Piauí, teve um promotor eleitoral que apreendeu um carro nosso porque tinha 10 centímetros a mais de propaganda do que o permitido. Mandei raspar para o carro poder continuar”, recordou, acrescentando que “Lula fez um jogo baixíssimo”. Na lista de inimigos figadais do ex-presidente também estavam Jorge Bornhausen, então presidente do DEM, e os tucanos Arthur Virgílio Neto e Marconi Perillo.

Heráclito Fortes agora pertence aos quadros do PSB de Eduardo Campos. “Virei socialista”, anunciou, soltando uma longa e ruidosa gargalhada. Aos 63 anos, ele disputará uma vaga de deputado federal e tem chances concretas de voltar à Esplanada. Diz estar entusiasmado com Eduardo Campos, apesar de ter mais proximidade com o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves.

Ele começou sua carreira política na Arena. Passou pelo PP, depois se transferiu para o PMDB, no qual foi vice-líder do governo Sarney. Teve passagem súbita pelo PDT antes de migrar para o PFL, rebatizado depois como Democratas. Ao todo, foram cinco mandatos como deputado federal e um como senador, além de um mandato como prefeito de Teresina. A quem lhe cobra coerência política, Heráclito Fortes tem resposta pronta: “É uma bobagem querer ideologizar o Brasil.” E explica: “Sarney estava com Tancredo, por sobrevivência. Passou isso e tivemos Collor. Veio FHC. Buscou quem? Marco Maciel. Aí entrou o Lula. Buscou quem? José Alencar. Vem a Dilma e busca quem? Michel Temer. Todo esse pessoal chega ao poder com perspectiva de futuro, mas com a garantia do passado”, disse, antes de arrematar que a chapa Eduardo–Marina é uma discrepância histórica porque “é futuro com futuro”.

 

Entre uma e outra garfada, o neossocialista fez premonições estapafúrdias: Lula deve ser candidato ao governo de São Paulo. “Se você não acredita nisso, cataloga e guarda. É a única maneira que eles têm de estabilizar a candidatura da Dilma, acabar com o ‘Volta, Lula’ e garantir votos em São Paulo. Padilha é um péssimo candidato.”

Previu, ainda, um segundo turno sem Dilma Rousseff: “É palpite. Não sei se é desejo. Mas não tenho nada contra a Dilma.” Interrompeu com um pedido ao garçom: “Tira esse pão daqui, meu filho, senão vou comer sem parar…”

Se o presidenciável pernambucano não chegar ao segundo turno, Heráclito Fortes vira aecista no mesmo dia. Seu roteiro já está traçado, mas ele evita tratar a possível volta ao Parlamento como uma vingança contra Lula – “Para que ficar olhando para trás, não é mesmo?” Se eleito, quando assumir ele planeja subir imediatamente à tribuna. “É do que tenho mais saudade, do microfone.” O discurso já tem mote: “Ninguém se perde no caminho de volta. Para político, fundo de poço é mola.”

Malu Delgado

Malu Delgado é jornalista. Foi repórter de piauí entre 2013 e 2015

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