esquina

Fora, Cunha!

Para moralizar o MDB, um nome de cada vez

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Minha formação é de centro-esquerda, por isso me identifico ideologicamente com o MDB”, explicou o político maranhense Assis Filho. Em lógica socrática, enumerou em seguida correligionários conterrâneos seus, de forma a comprovar sua tese. “É o partido que tem o senador João Alberto, a ex-governadora Roseana e o ex-presidente Sarney.” Acrescentou um argumento para o caso de o interlocutor ainda não estar convencido: “O Sarney teve diversos programas sociais quando foi presidente.”

Era uma quinta-feira recente, em Brasília, no pequeno edifício onde funciona a Secretaria Nacional da Juventude – órgão vinculado à Presidência da República comandado desde janeiro de 2017 pelo maranhense de 31 anos. Assis Filho checava, em dois celulares, os registros de um vídeo institucional que acabara de gravar. Ele ainda estava com a maquiagem que usou para a filmagem. Usava também esmalte transparente nas unhas e gel para moldar o cabelo ao estilo Elvis Presley. Para completar o visual, ostentava um anel dourado repleto de brilhantes.

Além do cargo público, Francisco de Assis Costa Filho – o Assis Filho – ocupa outra função: a presidência da ala jovem do MDB, partido de Michel Temer, presidente mais velho que o Brasil já teve, com 77 anos. A sigla abriga ainda outros expoentes da juventude dourada do milênio passado, como Edison Lobão (81), Moreira Franco (73), Jader Barbalho (73), Eliseu Padilha (72), Eunício Oliveira (65), Romero Jucá (63) e Renan Calheiros (62) – além do próprio Sarney (87).

A experiência das lideranças é motivo de admiração para Assis Filho. “O que me dá orgulho no partido são nossas referências políticas”, afirmou. “Quero mostrar que MDB e juventude não têm nada de contraditório.” O maranhense disse ainda que Jucá tem feito uma gestão moderna à frente da sigla. “Ele teve coragem de mudar o nome de PMDB para MDB”, continuou, referindo-se à decisão do partido de voltar à denominação da época da ditadura militar.

 

Ao contrário do que sugere o nome, Assis Filho não é herdeiro de uma dinastia política. Filho de uma dona de casa e de um policial militar, ele nasceu em Pio XII, cidade em que 34% dos 22 mil habitantes são analfabetos. Aos 21 anos, quando ainda estudava direito, foi eleito vereador de sua cidade natal pelo Partido Progressista, com 643 votos. “O PP era de direita”, explicou, com certo desgosto. “Mas era a legenda que estava coligada com a prefeitura.” Pouco depois de empossado, migrou para o MDB.

Quando vereador, tornou-se vice-presidente do Conselho Estadual da Juventude do Maranhão e teve a oportunidade de conhecer seu ídolo maior na política, José Sarney, que iria completar 80 anos. O conselho aprovou na época uma moção de aplausos ao aniversariante, e coube a Assis Filho fazer a loa. O longo discurso, disponível em seu blog, evocou a origem pobre, a militância juvenil, a iniciação religiosa e a trajetória política e literária do “mais ilustre de todos os maranhenses”. Concluiu a homenagem com um grito de ordem: “Viva a democracia! Viva o Maranhão! Viva a juventude! Viva a Roseana! Viva o Sarney!”

“Não era muito típico um jovem no Maranhão ter admiração pública pelo Sarney e expor isso”, justificou Assis Filho ao evocar o episódio, que lhe rendeu críticas de movimentos sociais. “Mas não vejo o Sarney como líder de uma oligarquia que maltratou o Maranhão”, protestou. “O Brasil tem 518 anos de descobrimento. O Sarney foi governador por um mandato, e a filha, por quatro. Culpá-los é esquecer o resto da história.”

Qual seu ídolo, Assis Filho também teve carreira meteórica antes de chegar ao Distrito Federal. Num intervalo de cinco anos, foi subsecretário estadual da Juventude; secretário municipal de Cultura e Juventude em Pio XII; presidente da seção maranhense da Fundação Ulysses Guimarães; procurador-geral em seu município; e superintendente regional da EBC, a estatal federal de comunicação. A multiplicação de cargos lhe rendeu uma denúncia por parte do Ministério Público maranhense, na qual ele e outras 47 pessoas foram acusadas de ser funcionários-fantasmas em sua cidade natal. “É uma clara perseguição do procurador, que já havia pedido três vezes o afastamento do prefeito”, disse o maranhense à piauí.

Em Brasília, Assis Filho trabalha num gabinete amplo, a cerca de 1 quilômetro do Palácio do Planalto. O ambiente é formal – salvo por uma parede grafitada de cima a baixo com desenhos de macacos, araras e árvores tropicais. “Foi feito pelo Rivas, um grafiteiro daqui de Ceilândia”, explicou. “Deixei ele expressar a criatividade.”

 

AJuventude do MDB – ou simplesmente JMDB – tem em torno de 30 mil membros. “Somos o quarto partido em número de filiados jovens, segundo o TSE”, disse o presidente. Para se filiar, um aspirante a Sarney precisa ter entre 16 e 34 anos. Deve, também, ter coragem de cortar na própria carne quando os princípios morais do partido falam mais alto. Foi o que Assis Filho fez, em agosto do ano passado, ao protocolar um pedido de expulsão da senadora Kátia Abreu – única peemedebista a defender Dilma Rousseff durante o processo de impeachment.

O Conselho de Ética do partido acatou o pedido e Abreu foi expulsa em novembro passado. Mas o senador Roberto Requião – cuja cabeça também foi pedida pelos jovens peemedebistas – foi poupado. Na época, não faltaram, dentro da JMDB, contestações à seletividade da causa: Por que desfiliar os dois, mas não figuras como o ex-deputado Eduardo Cunha e o ex-governador Sérgio Cabral? “Cunha tem condenação de 400 anos!”, lembrou Assis Filho.

O jovem presidente passou então a apontar sua metralhadora ética para esses alvos mais graúdos e ganhou visibilidade na imprensa. “A saída deles é uma forma de oxigenar o partido e mostrar à sociedade que não comungamos dessas práticas”, ele explicou em janeiro à Folha de S.Paulopiauí quis saber de Assis Filho se defenestrar Cunha não seria um gesto de ingratidão com uma figura tão importante na ascensão de Temer ao poder. “O MDB foi fiel ao Cunha e votou nele até o último momento no Conselho de Ética”, respondeu o maranhense, de bate-pronto. “Mas defendemos que aqueles que foram condenados suspendam suas atividades partidárias.”

A expulsão de Cunha e Cabral deve ser colocada em pauta em março, durante a reunião da Executiva Nacional. Se houver maioria, um pedido será protocolado – e em seguida encaminhado para decisão do Conselho de Ética.

Mas se o caso é banir os correligionários condenados, não seria coerente exigir também a expulsão de Renan Calheiros e Jader Barbalho, peemedebistas notórios que colecionam condenações em primeira instância? “Devemos discutir outros nomes, mas vamos por partes”, ponderou Assis Filho. “Não dá para brigar com todo mundo.”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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