esquina

Força, mamãe

Eu estava em frangalhos, mas seguia limpando, cozinhando e tossindo

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

De São Paulo

Estamos no sétimo dia de quarentena. Ao acordar, fico sabendo que há algum tipo de discórdia entre o dinossauro verde e o Senhor Cabeça de Batata. Não consegui obter muitos detalhes, mas tudo indica que houve empurrões e que alguém está chorando. É de se esperar que, com o confinamento, os ânimos de todos estejam à flor da pele. Tento promover uma reconciliação, mas os brinquedos da minha filha estão realmente nervosos. O Senhor Cabeça de Batata perde o nariz. O dinossauro verde tenta entrar numa caixa – certamente está em busca de um pouco de solidão –, mas não consegue e se desespera. “Calma!!”, grita Mabel, de 1 ano e 9 meses, sem parecer muito convincente. Ela desiste dos brinquedos e vai para a cozinha lamber uma pá de lixo. As coisas estão um tanto fora de controle.

Começamos nosso autoisolamento muito antes de entrar na moda. No dia 10 de março, uma terça-feira, Mabel acordou com febre. A professora da creche municipal já tinha alertado sobre uma forte virose que estava acometendo os alunos da sala 5 e provocou inúmeras ausências já na segunda-feira. Desmarquei duas vacinas que estavam agendadas para aquele dia (reforços contra varicela e hepatite A) e ficamos em casa.

Foram três dias inteiros de febre alta e mais outros tantos de uma tosse persistente que às vezes provocava vômitos. Nariz escorrendo, falta de apetite, prostração. Na sexta-feira, dia 13, levamos Mabel para uma consulta com a pediatra. Ela disse que os pulmões da paciente estavam limpos e que achava improvável ser coronavírus, mesmo porque a transmissão comunitária estava apenas começando em São Paulo. Foi a última vez que eu e Mabel saímos de casa.



 

Depois de passar muitas noites em claro, às voltas com incessantes inalações, banhos de emergência e gritos de “Tía a meletinha du naíz!” (Tira a melequinha do nariz), é claro que peguei o vírus também. Passamos a dividir o inalador. Resolvi que começaríamos nosso isolamento imediatamente, a fim de poupar os outros seres humanos dos nossos enigmáticos eflúvios virais. Minha mãe parou de vir ajudar. Suspendemos os passeios na rua. Deixamos de frequentar o ebuliente parquinho do prédio. Um a um, todos os nossos compromissos foram sendo cancelados. O mundo encolheu de repente e passou a medir os exatos 88 m2 do nosso apartamento, na Zona Norte de São Paulo.

No início da semana do dia 16, meu marido continuava trabalhando normalmente – ele é auditor fiscal da prefeitura –, e era ele quem nos trazia pão, soro fisiológico e notícias do mundo lá fora. Por causa do meu distúrbio de ritmo circadiano, continuamos a precisar da ajuda matutina da babá, Sheila, que passou a ir e voltar de Uber. (Pouco depois ela foi dispensada, obviamente com salário integral.) Alternei dias de febre baixa com gloriosos períodos em que me deitava no chão da sala e deixava minha filha me usar de tambor. A pediatra informou que algumas creches estavam registrando surtos de H1N1 e Influenza B, o que poderia ser o nosso caso. Acho que nunca vamos saber. Mabel estava aos poucos se recuperando, assim como as outras crianças da sala. Eu continuava em frangalhos, mas precisava seguir limpando, cozinhando, lavando, tossindo e desinfetando as maçanetas. No resto do tempo, tentava resolver as dúvidas de edição de um texto que escrevi para um jornal estrangeiro.

Parecia uma repetição catarrenta do alucinante puerpério (pós-parto), quando a mulher não dorme, não come, não sai na rua e não se expressa mais em frases coerentes. Só que, dessa vez, ninguém te manda docinhos.

No dia 19, meu marido foi liberado para trabalhar em casa. Ele participou de uma videoconferência confusa na qual Mabel gritou às autoridades presentes: “Péda a tuiúja!” (Pega a coruja). A coruja foi providenciada. No dia 20, ele passou o dia fora em uma reunião presencial. Chorei de dor de ouvido enquanto cuidava da Mabel, que corria em círculos e gritava: “Co-ona-viss! Co-ona-viss!” Aceitei uma nova encomenda de texto em inglês, que consegui escrever em parceria com Santo Expedito.

Conforme o resto da cidade ia aderindo ao autoisolamento, recebi relatos de mães que estavam aproveitando a oportunidade para desfraldar os filhos, tocar piano ou assar saborosos pães caseiros de mandioca.

 

Aqui em casa estamos em modo sobrevivência. Eu e Mabel passamos muito tempo sentadas na varanda acompanhando a movimentação da rua, pois é uma atividade estática que não faz a minha cabeça doer tanto. Já conversamos sobre quantas e quem são as pessoas que trabalham dentro dos ônibus, qual a diferença entre avião e helicóptero, por que os operários usam capacete e o que o vizinho está fazendo há horas com a luz do banheiro acesa (“xixizão” foi a nossa aposta). Ela também gosta de se dedicar à tradicional arte de abrir e fechar ralinhos.

No fim de semana, finalmente as ruas esvaziaram. Expliquei que as pessoas estavam em casa, algumas doentes, e ela anunciou na varanda: “Mabel vai fazê remedinho!” (Espero que isso não gere expectativas desmedidas no bairro.) Ela agora tem uma “maleta” de enfermeira com um frasco vazio de soro, uma seringa, uma caixa de curativos, uma colher para remédio e um martelo.

Ao contrário do que se esperava, a crise do coronavírus não fez Mabel repensar suas atitudes severas de governanta alemã. Enquanto estamos executando alguma tarefa doméstica, ela sai pela casa incorporando a coach: reclama que derrubamos um grão de arroz no chão, que deixamos um chinelo no caminho, que esquecemos a lixeira aberta, que estamos com a mão molhada. Ela repreende até as personagens dos contos de fada. Para a Cinderela, grita: “Pega o sapato!” Para a Cachinhos Dourados, que quebrou uma cadeira, ela ordena: “Conserta!” Isso gera todo tipo de tensão nos dinossauros coloridos.

Na sexta, dia 20, empilhamos caixas de lenços de papel. No sábado, cortamos o cabelo dela. Passei a chamar carinhosamente nossa doença de choronavírus, devido a um de seus sintomas mais pronunciados. Mal sabia que era cedo demais para cravar um diagnóstico: na segunda seguinte, tive febre de manhã e à noite. Quebrei a quarentena para me consultar com uma otorrinolaringologista, que descartou infecção bacteriana e me colocou na lista de suspeitos para Covid-19. Não é possível ter certeza, já que os hospitais só estão testando os pacientes internados. A prescrição: antitérmico e isolamento. Nada de novo, portanto.

O episódio mais representativo de nossa quarentena até agora aconteceu no quarto dia, enquanto eu fazia cocô com a porta aberta, como costuma acontecer ultimamente. Mabel se aproxima para assuntar. Ela rasga um pedaço de papel higiênico e se oferece para limpar o meu bumbum. Eu rejeito educadamente, dizendo que ainda estou no processo. Faço uma espécie de teatrinho do cocô. Ela põe as mãos nos meus joelhos, olha bem para mim e diz: “Força, mamãe!”

É o nosso 12º dia de quarentena. Penso que talvez estejamos ensinando à nossa filha alguma coisa sobre resiliência ao tédio.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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