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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

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Gabinete de descobertas

Um nonagenário caçador de pequenas pérolas históricas

Angélica Santa Cruz | Edição 199, Abril 2023

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Um dos dias mais felizes da longeva vida de Carlos Francisco Moura foi aquele em que, folheando volumes escritos em português arcaico na biblioteca de Muge, uma vila em Portugal, deparou-se com a seguinte frase: Cuidado quando chegares à Ilha dos Cavalos. Fundeie, para que não aconteça contigo o que aconteceu com o navio de Tristão Vaz da Veiga.

Aos olhos de Moura, foi como achar uma pérola.

No século XVI, os roteiros marítimos que ensinavam pilotos portugueses a ir até o Japão eram um segredo de Estado. Mas um holandês chamado Jan Huygen van Linschoten conseguiu comprá-los na maciota, das mãos de navegadores lusos falidos, e resolveu publicá-los em 1595, primeiro em holandês e depois em francês – o que deixou a Coroa portuguesa histérica. A frase identificada por Moura apontava para a primeira versão conhecida na língua portuguesa de uma dessas rotas. Assim como o espião holandês, ele lançou um livro com o achado.

Moura fez essa descoberta quando tinha 34 anos e era um bolsista enviado a Portugal pelo extinto Centro Brasileiro de Estudos Portugueses, que funcionou nos anos 1960 na Universidade de Brasília. Hoje ele tem 90 anos. Todas as manhãs, sai do apartamento onde mora, no bairro da Gávea, e vai de ônibus e metrô até o Real Gabinete Português de Leitura, no Centro do Rio de Janeiro. Nas raras ocasiões em que não aparece, é porque achou por bem consultar algum outro acervo da região, como o da Biblioteca Nacional ou do Ministério da Fazenda Federal.

É uma rotina movida por uma obsessão: cascavilhar documentos, códices e arquivos antiquíssimos atrás de um fragmento inédito que complete uma história já conhecida. Ou, melhor ainda, que revele uma história inteira. “O momento em que descubro uma coisa assim é um alumbramento. Que epifania!”, descreve ele, agitando as mãos.

 

“Estamos aqui na biblioteca do Harry Potter”, anunciou diante do celular uma moça com vestido azul, na manhã de 8 de fevereiro. Atrás dela, um rapaz de camiseta vermelha também falava para a tela, no que parecia ser uma live. “E aí? Harry Potter ou Umbrella Academy?”, perguntava, mostrando as imensas estantes de madeira que guardam cerca de 350 mil volumes antigos e sobem pelas paredes de um salão circular, até quase encontrar um vitral no teto do Real Gabinete Português de Leitura.

O lugar varou mais de um século como um silencioso ambiente de consultas ao maior acervo de obras lusitanas fora de Portugal. Apenas alguns poucos curiosos, sempre educados e reverentes, costumavam visitar o prédio com fachada esculpida em blocos de pedra lioz e depois montada no Centro do Rio – uma operação complicada que se arrastou de 1880 a 1887.

Mas a partir de meados de 2017, de acordo com a estimativa de seus funcionários, o Real Gabinete caiu nas graças das redes sociais. Novos visitantes passaram a aparecer todos os dias. Alguns chegavam a encostar o rosto no cangote de pesquisadores, querendo saber o que eles estavam lendo. A direção tomou providências. As mesas de consultas foram reduzidas à metade, acomodadas nas laterais e separadas dos turistas por cordões de isolamento. O grande espaço que se abriu no meio agora é a passarela dos influencers. Sempre sentado do outro lado do cordão de isolamento, Moura é a cabeça branca que vez por outra aparece ao fundo das imagens postadas nas redes sociais.

Filho de um alfaiate, ele nasceu em Larçã, no distrito de Coimbra, veio para o Brasil com 3 anos e cresceu entre o interior de São Paulo e o Rio de Janeiro. Tem, portanto, um vínculo natural com o Real Gabinete, que também publicou alguns de seus livros. Concentrado, não se abala com os ruídos provocados pelos visitantes. “Fico enfronhado nas minhas coisas. Os assuntos são tão interessantes”, deslumbra-se. Moura já descobriu “uma brutalidade” de informações. Mas os bons pesquisadores, explica, são encontrados pelas coisas – e não o contrário.

Nos dezesseis anos em que trabalhou como professor de arquitetura na Universidade Federal de Mato Grosso, Moura encontrou sua primeira linha de pesquisa: o próprio Mato Grosso. Publicou pela primeira vez pinturas e desenhos feitos pela Expedição Langsdorff no estado, material que por 150 anos ficara esquecido nos porões da Academia de Ciências de São Petersburgo, na Rússia. Topou com a história de dom Antônio Rolim de Moura, o primeiro governador da capitania de Mato Grosso. Resolveu biografá-lo e descobriu que o governador, matemático ligado à Academia das Ciências de Lisboa, fizera observações astronômicas na América Latina. Também desenterrou a história de um plano estratégico de defesa naval feito sob medida para um estado que ficava parte do ano alagado: uma frota de canoas armadas.

Moura não sabe ao certo quantos livros escreveu, mas diz que foram mais de vinte. Astronomia na Amazônia no Século XVIII é um dos mais interessantes. Mostra pormenores do trabalho de dois “padres matemáticos” – o bolonhês Giovanni Angelo Brunelli e o jesuíta croata Ignác Szentmártonyi – na demarcação dos limites da Amazônia estabelecidos pelo Tratado de Madri.

 

Além do estado de Mato Grosso, Moura tem mais três linhas de pesquisa. Uma delas investiga as peças de teatro encenadas nas armadas lusitanas, inclusive na de Pedro Álvares Cabral. No livro Teatro a Bordo de Naus Portuguesas, publicou uma impressionante tabela de apresentações feitas nas embarcações dos séculos XV ao XVIII, com detalhes sobre as produções. Em geral, eram peças curtas, populares e impressas em folhetos de cordel, chamadas entremezes.

Outro campo de interesse são as relações entre portugueses e brasileiros com a China e o Japão. Em 2011, Moura publicou um relato detalhado da visita do primeiro embaixador chinês ao Brasil. O livro, chamado Liou She-Shun: Plenipotenciário do Império da China – Viagem ao Brasil em 1909, foi traduzido para o chinês e lançado em Macau. E o último quadrante de seus estudos são as naus antigas. O pesquisador desenterrou gravuras que mostram detalhes de seis naus e uma fragata que vieram ao Brasil. Nessas pesquisas, garimpou o projeto cenográfico de uma aula a que a rainha dona Maria I assistiu na Real Academia dos Guardas-Marinhas, com um croqui mostrando onde ela se sentaria e onde a corte ficaria. “Isso estava aqui no Brasil desde dom João VI e ninguém via a importância. Eu olhei e… epa!”, anima-se.

Moura não se considera um historiador. Alguns de seus livros até amarram conclusões e trazem contextos, mas na maioria das vezes são relatórios do que encontrou. Ele trabalhou por duas décadas na Petrobras Distribuidora, período em que aproveitava qualquer momento livre para pesquisar. Hoje, vive de sua aposentadoria. Quando as portas do Real Gabinete fecham, às 17 horas, o pesquisador obcecado vai para casa verificar suas anotações. Permanece às voltas com seus achados até uma da manhã. “Para quem escrevo? Por que pesquiso?”, pergunta-se. “Não sei. O que acontece é que sou um pesquisador nato!”