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piauí jogos

    Equipe de resgate trabalha em Petrópolis no dia seguinte às chuvas de 15 de fevereiro: Da janela de sua casa, Jussara Luiz viu algumas árvores se moverem na encosta; antes que pudesse entender o que ocorria, uma avalanche monstruosa de lama desceu o morro, tragando tudo pelo caminho CRÉDITO: RICARDO MORAES_REUTERS_2022

anais da tragédia

“Gabriel! Gabriel!”

A procura por um jovem desaparecido no temporal em Petrópolis

Tiago Coelho | Edição 187, Abril 2022

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Petrópolis amanheceu ensolarada na manhã daquele sábado, dia 5 de março. Na Rua Doutor Thouzet, no bairro Quitandinha, soprava uma brisa vinda das montanhas quando um EcoSport preto saiu da garagem de um sobrado amarelo, às 9h30. O veículo tinha as rodas sujas de lama e carregava, amarrado no teto, um pequeno bote laranja. No banco de trás, havia uma enxada, uma escavadeira manual e luvas de borracha. No para-brisa, a foto de um adolescente bonito, de olhar sereno e cabelos castanhos cacheados na altura do ombro.

O marceneiro Leandro da Rocha, que dirigia o carro, estacionou na porta da casa e saiu do veículo acompanhado de sua mulher, a cuidadora de idosos Luciana Ferreira. Baixo, forte, o rosto bronzeado, ele vestia camiseta preta, calça jeans e botina emborrachada. Carregava também, cruzando o tronco, um cinto de segurança fluorescente usado em alpinismo. Rocha deu bom-dia aos três homens que o aguardavam na porta do sobrado e iriam ajudar na busca por desaparecidos durante o temporal que atingiu Petrópolis em 15 de fevereiro passado.

Rocha, de 49 anos, disse aos voluntários: “Mudamos de plano, vamos voltar para a Rua Washington Luiz. Achei algo ali ontem. Pode ser um corpo.” Luciana Ferreira, de 42 anos, comentou, em voz baixa: “A gente quer ir adiante, procurar os corpos mais à frente, mas o Leandro sempre volta ao mesmo lugar.” O casal entrou no carro e seguiu para o Centro da cidade, acompanhado dos voluntários.

Petrópolis foi erguida entre montanhas e está recortada por rios, que serpenteiam em toda parte. Sempre que avistava um deles, Rocha desviava o rosto da direção do carro para mirar rapidamente o curso d’água. O EcoSport entrou na Rua Gonçalves Dias e virou à direita, onde havia dois gradis de ferro com uma placa dizendo que o caminho estava interditado. O marceneiro saltou do carro, afastou os gradis e avançou com o veículo pela Rua Washington Luiz.

O asfalto estava coberto por uma lama ressecada e muito vermelha. Rocha parou na altura do nº 821 da Washington Luiz, desceu outra vez do carro, levou a mão à boca e fez um giro de 360 graus para observar os vestígios da destruição: fios que haviam se soltado dos postes, galhos partidos das árvores espalhados pelo chão, entulhos por todo canto, as paredes das casas sujas de lama, o muro caído de um prédio e um grande barranco na colina do lado direito da rua. “Foi exatamente aqui que tudo começou para mim”, ele disse. Seu olhar indicava um grande esforço interior para tentar compreender o incompreensível à sua volta.

Rocha abriu a porta traseira do carro e retirou as ferramentas, os equipamentos de segurança e foi para a beira do Rio Quitandinha, que passa ao lado da rua. Luciana Ferreira o ajudou a vestir uma jardineira de plástico que não deixa molhar as calças. Carregando uma barra de ferro para se apoiar, ele começou a descer o rio.

Na parte mais rasa, a água estava barrenta e acinzentada por causa do despejo de esgoto. Com uma enxada, ele removeu um banco de lama num canto do rio. Suspirou fundo. “É preciso estar atento ao cheiro de algo em decomposição.” E avançou, com a água chegando ao seu joelho. Recorrendo à escavadeira manual, pressionou o fundo do rio. Seguiu em frente, até que a água chegou à sua cintura. Sentou-se, então, numa tubulação de esgoto que havia se rompido por causa da força da correnteza do rio e tirou o capacete. “Estou sentindo uma pressão aqui”, disse, levando a mão à cabeça. “Ou aqui” – e apontou a garganta. “Foi bem nesse ponto onde estou que tudo aconteceu.” Ele se referia ao dia do grande horror.

Gabriel Vila Real da Rocha era o filho caçula. Quando Leandro da Rocha se divorciou da primeira mulher, a filha mais velha ficou com a mãe. O menino, então com 8 anos, preferiu morar com o pai. Rocha se lembra da promessa feita por Gabriel: “Nunca vou me afastar de você, pai, vou morar contigo para sempre.” Há quatro anos, Rocha casou-se com Luciana Ferreira, que tinha uma filha de outro casamento. Os quatro foram viver juntos.

No dia 18 de janeiro deste ano, Gabriel completou 17 anos. Era um rapaz pouco mais alto que o pai, muito magro. Praticava jiu-jítsu, ia aos cultos da igreja evangélica Projeto Visão de Águia e colecionava mais de cem carrinhos em miniatura Hot Wheels. Fazia o segundo ano do ensino médio no Colégio Estadual Princesa Isabel. “Ele era quietinho, tranquilo, um garoto bom”, define o pai.

Quando fez aniversário, Gabriel ganhou uma mochila de sua mãe, mas o presente veio com defeito – um pequeno rasgo. Na tarde de 15 de fevereiro, ele vestiu jeans, camiseta e tênis pretos e foi ao centro comercial de Petrópolis trocar o presente. Fez a troca e, pouco antes das quatro da tarde, no terminal rodoviário, embarcou no ônibus da linha 465 Amazonas-Vila Ipanema para voltar à sua casa no bairro Quitandinha, a cerca de 5 km do Centro. Estava acompanhado do companheiro de sua mãe, Márcio, que ele encontrara no Centro da cidade e estava indo na mesma direção. Naquele momento, uma chuva branda começou a cair.

Um dia antes, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão público instalado na cidade paulista de São José dos Campos, havia emitido um alerta amarelo para a Defesa Civil Nacional. O aviso indicava que poderia ocorrer uma situação meteorológica potencialmente perigosa – mais danosa ainda para Petrópolis, que nas últimas décadas sofrera uma série de desastres por causa de chuvas torrenciais.

Enquanto Gabriel e Márcio seguiam para casa, a chuva aumentou rapidamente – virou uma tempestade. Ao entrar na Rua Washington Luiz, de 8 metros de largura, o ônibus não conseguiu avançar para além do nº 800. As águas do Rio Quitandinha estavam transbordando. Perto havia outro ônibus, da linha 401. Os dois veículos transportavam, juntos, cerca de vinte passageiros.

Alguns deles desceram dos ônibus e se abrigaram na entrada de um condomínio de prédios baixos, o Quinta de Altiora Reserva Residencial. Outros ficaram dentro dos veículos, aguardando a água baixar – como costumava ocorrer quando caía um temporal na cidade. Mas não foi o que aconteceu. A chuva continuou, despejando uma quantidade cada vez maior de água sobre Petrópolis.

Quando a inundação já ultrapassava 1 metro de altura, funcionários do condomínio jogaram uma corda para os motoristas. Uma ponta foi presa no para-choque dianteiro do ônibus da linha 401, e a outra, na coluna do portal de entrada do Altiora. Algumas pessoas se arriscaram a deixar o ônibus segurando pela corda e também se abrigaram na entrada do condomínio. Outras ficaram no ônibus, entre eles um deficiente físico, idosos, uma criança, Márcio e Gabriel.

Ouviu-se, então, o estrondo de um grande deslizamento de terra no morro onde ficam os prédios do condomínio. O movimento do barro pela encosta provocou na rua alagada uma onda que arrastou os ônibus na direção do rio. Os veículos tombaram dentro do Quitandinha. Com muito esforço, os passageiros saíram pelas janelas e se equilibraram sobre a lataria. Entre eles, Rafaela Braga Pereira, de 31 anos, e seu filho, Pedro Henrique Braga Gomes da Silva, de 8 anos.

A terra que escorrera do morro havia formado uma barreira, dificultando o escoamento da água. Com a chuva incessante, a enchente não parava de aumentar: já subira dois metros, cobrindo grande parte dos ônibus. Os que tinham se abrigado na entrada do condomínio conseguiram entregar duas escadas para as pessoas no ônibus da linha 465. Gabriel pegou uma delas, mas era tarde. O veículo submergiu no leito do rio, e a água arrastou todos que estavam sobre a lataria, exceto o rapaz. Ele conseguiu agarrar a corda presa no outro ônibus, que não havia afundado completamente. Com isso, pôde se proteger por alguns instantes – até que a barragem formada pela terra caída do morro se desfez e uma nova correnteza se formou, empurrando o veículo da linha 401 por cerca de 50 metros.

Gabriel, que não sabia nadar, e outras cinco pessoas começaram a se debater na água, para escapar da correnteza. Algumas tentaram se agarrar em galhos. Outras em um carro encalhado em entulhos. Em vão. Trinta segundos depois da queda do ônibus, Gabriel e todos os outros desapareceram debaixo da água barrenta. Uma mulher que testemunhou da janela de um prédio toda a tragédia soltou um grito de desespero. Na Washington Luiz, já não era mais possível distinguir o que era rua e o que era rio. Tudo era água e lama.

Ao refletir sobre o que aconteceu em Petrópolis no dia 15 de fevereiro, o meteorologista Marcelo Enrique Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden, tem apenas uma definição: ocorreu ali o inacreditável. “Não estava previsto esse fenômeno. Não dava para prever o que aconteceu”, disse.

Ele explicou à piauí o que provocou o temporal.

No verão, é frequente a formação de uma extensa faixa de nuvens que vai da região amazônica ao Oceano Atlântico, cobrindo partes das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste – é a chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul. Esse sistema provoca as chuvas de dezembro a março em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, e favorece a ocorrência de pancadas mais intensas que, normalmente, duram entre 30 e 50 minutos. Quando o Cemaden percebeu que nuvens densas se formavam sobre Petrópolis, emitiu o alerta amarelo para a Defesa Civil Nacional.

Seria apenas uma forte chuva, se não tivesse ocorrido o inacreditável de que fala Seluchi. No exato momento em que a tempestade começou, aproximou-se da região serrana uma frente fria.

Normalmente, uma frente fria pode dissolver as nuvens. Mas aquela, naquele dia, era tão fraca que não foi capaz disso. Conseguiu, porém, mudar a direção do vento. E o vento encurralou as nuvens de chuva no alto das montanhas ao redor da cidade – por três horas intermináveis.

Represadas, as nuvens despejaram sobre Petrópolis 250 mm de chuva em três horas, quantidade equivalente à média histórica do mês de fevereiro. Seluchi pesquisou na literatura meteorológica e garante: “Foi uma taxa de precipitação nunca vista em quase cem anos no Brasil.”

Quando a chuva diminuiu, por volta de oito da noite, uma névoa fúnebre percorreu Petrópolis. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o Corpo de Bombeiros da cidade, que ficam perto de um rio, tiveram que esperar a água nas ruas baixar para prestar socorro. Leandro da Rocha tinha voltado do trabalho à tarde, pouco antes da tempestade e, com a mulher, fora visitar a sogra, que estava com o braço quebrado. Eles esperaram que o temporal passasse, sem ter noção da extensão da tragédia que acontecera na cidade – e da que atingira as suas vidas.

Vídeos com imagens do desastre começaram a se espalhar nas redes sociais. Mostravam deslizamentos de terra, rochas rolando morro abaixo, bairros inteiros soterrados, o Centro de Petrópolis alagado. Às 20h30, um parente enviou a Rocha uma foto que mostrava Gabriel em cima do ônibus. Instantes depois começaram a chegar dezenas de mensagens de amigos e familiares. Uma dessas mensagens garantia que todos os passageiros dos ônibus haviam conseguido se salvar e estavam seguros.

“Ainda assim, eu me desesperei, fiquei louco”, contou Rocha. Ele pegou o carro e foi até o Centro. Imersa na penumbra, Petrópolis era só destruição. Apenas luzes dos faróis e das sirenes vermelhas dos carros das equipes de resgate deixavam ver a devastação: árvores e postes tombados nas ruas, muros derrubados, carros destruídos. Também se ouviam gritos e choros.

Era impossível circular pela cidade de carro. Mesmo assim, Rocha foi aos prontos-socorros, hospitais públicos e pontos de apoio a feridos. Às duas da manhã, depois de percorrer vários centros de saúde, ligou para o irmão que tinha uma motocicleta – um veículo mais ágil para se locomover naquele caos. Os dois foram a hospitais particulares, igrejas e abrigos em busca de Gabriel.

Às quatro e meia da manhã, Rocha recebeu pelo celular a informação de que os passageiros dos ônibus estavam abrigados no condomínio Quinta de Altiora.

Os irmãos se dirigiram à Rua Washington Luiz. O deslizamento de terra na encosta onde fica o condomínio tinha obstruído a passagem até o alto do morro onde ficam os prédios. “No meu coração, meu filho estava lá em cima”, disse Rocha. Ao caminhar pela rua, suas pernas afundaram até a altura do joelho e ele precisou segurar em fios caídos de postes para desatolar da lama. Aos poucos, conseguiu chegar ao alto do condomínio.

Ali também tudo estava escuro e silencioso. Ele gritou: “Gabriel!” Gritou outra vez. Um funcionário do condomínio apareceu e disse a Rocha que os passageiros sobreviventes do ônibus estavam abrigados no salão de festas. Rocha correu até o local e chamou pelo filho novamente.

– Leandro, é você? –, disse uma voz na escuridão. Era Márcio, o companheiro de sua ex-mulher.

– Cadê meu filho?

– Ele não saiu do ônibus.

– Como não? Você estava com ele!

– Jogaram uma escada. Eu saí pela escada. Chamei ele. Mas ele não veio.

– Ele saiu – respondeu o pai. – Eu recebi mensagens dizendo que todo mundo do ônibus tinha saído.

Rocha disse ter ouvido o choro de Márcio. Ele também quase chorou, mas se conteve. Tinha certeza de que seu filho estava em algum ponto da cidade, talvez muito machucado. Não havia tempo a perder. “Não podia deixar meu filho perdido naquela noite.” E voltou a procurá-lo em hospitais.

Quando amanheceu, o marceneiro combinou com familiares e amigos de se dividirem em grupos para irem atrás de Gabriel. Começaram a chegar a Petrópolis reforços de resgate de outras cidades, e Rocha percebeu que os trabalhos se concentravam em áreas de deslizamento nas encostas, onde havia o maior número de mortos e desaparecidos. Seu filho, porém, estava em um ônibus perto do rio. Ele resolveu fazer sua própria busca nas águas turvas do Quitandinha.

Entrou nos trechos mais rasos do rio e, com uma vara de madeira, começou a vasculhar os entulhos nas margens. Primeiro, fez uma varredura nos ônibus, que continuavam lá, destroçados. Equipes das tevês e dos jornais chegaram a Petrópolis e entrevistaram Rocha, que aproveitou a oportunidade para pedir que os grupos de resgate também procurassem os desaparecidos nos rios. Por causa das aparições frequentes do marceneiro na tevê, prefeitos ofereceram a ele equipamentos para mergulho nos rios. O prefeito de Petrópolis, Rubens Bomtempo, prometeu enviar reforços para encontrar o jovem.

Nos dias que se seguiram ao desastre, Rocha estabeleceu para si uma rotina: descer os barrancos até o rio e vasculhar entre lama e destroços. Começava sempre do nº 800 da Rua Washington Luiz e seguia pelo Rio Quitandinha até o Centro da cidade. Bombeiros, cães farejadores e voluntários se juntaram na busca. Uma rede de apoio se formou para ajudar. Começaram a chegar doações de materiais e equipamentos de segurança apropriados para o resgate em rios, como luvas, enxadas e jardineiras de plástico. A iniciativa não foi em vão. Os corpos de algumas pessoas que estavam dentro dos ônibus foram encontrados, mas não o de Gabriel.

Um trecho do Quitandinha passa por galerias subterrâneas, debaixo da Rua do Imperador. Ali, o pai atravessava cautelosamente e, recorrendo a uma lanterna, vasculhava cada centímetro do túnel. A voz dele ecoava lá dentro: “Gabriel! Gabriel!”

Rocha mal se alimentava e, à noite, apenas cochilava, acordando várias vezes, sobressaltado. Luciana Ferreira, sua mulher, começou a ficar preocupada – o único objetivo do marido era ver o dia clarear para esquadrinhar logo os rios da cidade. “Eu precisei dar uma sacudida nele, chamar à realidade”, contou Ferreira. “Eu disse: ‘Se vai ser assim, então, se você não comer, eu também não vou comer. Se você não beber nada, eu também não vou beber. Se você definhar, eu definho junto.” Ela esteve sempre ao lado do marido nas buscas nas margens dos rios.

No quarto dia, 19 de fevereiro, Rocha achou que era hora de ir além. Todo mundo estava vasculhando o Centro da cidade. “E se a correnteza tiver levado meu filho para longe?”, perguntava-se. Partiu a pé da Rua Washington Luiz, com um binóculo pendurado no pescoço, margeou o Quitandinha e seguiu por cerca de 3 km até o ponto em que este rio encontra o Palatino, formando um terceiro curso d’água, o Piabanha.

Mas ainda era pouco, ele achou. Rocha ficou sabendo que um corpo havia sido encontrado na região de Corrêas, a cerca de 12 km do Centro. Um dia, começou a seguir o curso do Piabanha a pé, às sete da manhã, acompanhado por Luciana Ferreira. Passou por Retiro, Cascatinha, Roseiral, Samambaia, bairros mais afastados de Petrópolis. Onde via uma ponte, parava para verificar com o binóculo se o filho não estaria preso nas colunas de sustentação ou em galhos e entulhos retidos ali durante a enxurrada. Com a escavadeira manual revolvia as impurezas nas margens, atentando-se a cada tecido preto que boiava na água. O casal alcançou, ainda a pé, o Centro de Corrêas no fim da tarde. E voltou para casa. “Meu coração dizia que o Gabriel estava vivo, precisando de minha ajuda. Dizia que eu ia procurar meu filho pelo resto de minha vida. Vivo ou morto”, ele contou.

No quinto dia, Rocha e sua mulher decidiram fazer a busca de carro. Ultrapassaram os limites de Petrópolis e, parando sempre em cada ponte, alcançaram a barragem da Usina Hidrelétrica Alberto Torres, no município de Areal, a 54 km de distância de onde partiram. “Os funcionários me disseram que a barragem é monitorada durante 24 horas. E que não viram nada de diferente. Pelo menos, eu soube que de lá meu filho não tinha passado. Então era vasculhar dali para cima”, disse.

Perto da barragem, ele decidiu descer até o Rio Piabanha por um trecho de mata. Era um trajeto difícil. Rocha avançou, e Ferreira ficou aguardando o marido. Exausta com aquela busca interminável, ela se ajoelhou e pediu: “Deus, acaba com esse sofrimento. Mostra para a gente onde está o Gabriel!” E gritou: “Gabriel, aparece! Cadê você?”

No dia 21 de fevereiro, seis dias depois da tempestade, o casal voltou a vasculhar o Centro de Petrópolis. Perto da Praça Dom Pedro II, enquanto Rocha conversava com bombeiros, Ferreira ficou aguardando à beira do Piabanha, com o olhar perdido. Um tênis de solado branco passou boiando sobre as águas turvas do rio. Ela não deu importância, porque o tênis de Gabriel era preto. Mas o calçado colidiu com um banco de areia, revelando sua parte superior – era o tênis preto de Gabriel.

Foi essa pista que levou a equipe de resgate a concentrar seus esforços na busca do jovem no Centro da cidade, com a ajuda de cães farejadores. No dia 22 de fevereiro, o corpo de Gabriel foi encontrado pelos bombeiros debaixo de uma lajota dentro do rio, perto da Fábrica de Tecidos São Pedro de Alcântara, na Rua Washington Luiz, a 550 metros de onde o ônibus afundara.

Rocha recebeu a ligação do Instituto Médico Legal (IML) quando descia a estrada para Pedro do Rio, distrito de Petrópolis, onde faria mais uma varredura. Ele sentiu como se seu corpo fosse desmoronar, ao perder toda esperança de encontrar seu filho vivo.

No IML, Rocha disse que queria ver o corpo de Gabriel, mas uma delegada não deixou. “Ela disse que eu não reconheceria o meu filho e que era para eu ver por fotos. Não aceitei. Eu tinha que ver o Gabriel. Se não me deixassem, eu não assinaria nada afirmando que o corpo era dele.” A delegada, por fim, concordou. Rocha reconheceu o filho pelos dentes tortos da arcada inferior. Idênticos aos dele.

A despedida foi no mesmo dia, no Cemitério Municipal de Petrópolis. O mestre de jiu-jítsu de Gabriel o condecorou com as faixas que ainda não havia conquistado – a roxa, a marrom e a preta – pelo ato heroico de ter ajudado os passageiros do ônibus a se salvarem. “Depois disso, Leandro falou que já não tinha vontade de viver. Que para ele tinha acabado”, contou Luciana Ferreira. “Eu apertei, sacudi ele. Disse que não era aquilo que Gabriel esperava dele.” Mas Rocha se trancou no quarto. Não queria ver ninguém. “Qualquer voz me irritava. Nada mais tinha sentido”, ele disse.

Três quilômetros e meio separam a Rua Washington Luiz do morro da Chácara Flora, uma pequena favela construída sobre uma encosta íngreme onde antes havia um lixão, que foi aterrado. A cozinheira Jussara Aparecida Luiz, viúva de 40 anos, vivia naquele bairro desde que nasceu. Na tarde de 15 de fevereiro, ela estava em sua casa, ao pé do morro, com a mãe, Denise Luiz, de 61 anos, e os quatro filhos.

Quando começou o temporal, ela e a mãe passavam um café na cozinha, onde brincava Rafaela, de 10 anos. A filha mais velha, Júlia, de 18, cuidava do caçula, Antony, de 2. A chuva aumentou. Jussara percebeu que a água começara a inundar as casas próximas da dela, mas em uma parte mais baixa do morro. Ela então abriu a porta da cozinha e se ofereceu para ajudar uma vizinha que tentava desentupir um bueiro. A vizinha agradeceu e disse que não precisava. “A chuva vai passar logo.” Da janela, Jussara olhou para o alto da barreira. Estava escorrendo de lá uma quantidade de água como ela nunca tinha visto.

Em meio à correnteza, uma família que vivia em um morro perto dali tentava abandonar sua casa. Vizinhos correram para ajudar – entre eles Miguel, o filho de 13 anos de Jussara. Da janela, ela viu quando algumas árvores se moveram no alto da encosta. Antes que conseguisse entender o que ocorria, uma avalanche monstruosa de lama se formou e começou a descer o morro, tragando tudo pelo caminho. Ela gritou: “Júlia, pega o Toninho e corre!” A primogênita agarrou o menino, mas a onda de barro invadiu a casa e cobriu os dois irmãos. Desesperada, Jussara correu para a porta da cozinha com a mãe e Rafaela. A onda também as alcançou, arrancando a porta do lugar e soterrando as mulheres.

As três tombaram uma sobre a outra, cobertas pela lama grossa. Mas acima de suas cabeças, como um escudo protetor, havia caído a porta de madeira, que conteve a terra e impediu que elas sufocassem. “Eu só via terra ao meu redor. Tive a sensação de estar enterrada viva”, contou Jussara. “O pouquinho que a gente conseguia respirar, entrava terra em nossa boca”, completou Denise.

Depois do desastre, tudo silenciou. Mergulhadas na lama, as três só conseguiam ouvir o barulho da chuva, que continuava forte. A avó, que tinha a cabeça mais próxima da superfície, gritou: “Socorro! Tem gente aqui embaixo.” Um de seus filhos a ouviu e respondeu: “Mãe, eu não posso te ajudar agora. Minha mulher e minha filha estão presas.” A casa dele ficava pouco acima da de sua irmã Jussara e estava completamente coberta pela avalanche. “Me ajuda primeiro, meu filho, depois a gente cria força e vai socorrer sua família”, pediu Denise.

Com o apoio de um vizinho, o filho tirou a mãe do fundo do lodaçal. Quando Denise já estava a salvo, ele ouviu uma voz fraca: “Tio, me ajuda, eu e a mãe estamos vivas.” Era Rafaela. O resgate das três mulheres durou quase duas horas. Depois disso, o irmão de Jussara correu para salvar sua mulher, grávida de oito meses, e os dois filhos. Por ter saído da casa pouco antes da avalanche, Miguel estava são e salvo.

Quando a noite caiu, os moradores da Chácara Flora continuaram a vasculhar o barro em busca de sobreviventes, enquanto os bombeiros não chegavam. Muitas vias da cidade estavam obstruídas, o que atrasava o resgate.

Jussara passou a noite chorando. Não saía de sua cabeça a imagem dos olhos aterrorizados de Júlia ao ver a onda de barro se aproximar dela e de Antony. Mas Jussara, que é evangélica, acreditava em milagres e se apegou a sua fé. “Se eu achei que ia morrer e estava viva, havia uma chance para eles. Eu já tinha vivido todas as tristezas e alegrias que me cabiam, meus filhos não. Então pedi a Deus para me levar e dar uma chance para meus filhos.”

Os bombeiros e a defesa civil chegaram pouco depois das quatro da manhã. Limparam a lama do corpo de Jussara e fizeram um curativo em suas pernas. A equipe de resgate fez um pedido a ela: que chamasse seus filhos soterrados. Em meio aos escombros, Jussara começou a gritar: “Júlia, a mãe está aqui! Responde minha filha! Diz pro Toninho chorar que eu vou aí buscar vocês!”

Ela pediu ajuda aos moradores. “O Toninho chora alto. Chamem meu filho que ele vai chorar.” Vários vizinhos, caminhando no barro, começaram a gritar: “Júlia! Toninho!” Ninguém respondeu.

No dia seguinte, Jussara continuou a procurar pelos filhos. Apoiada num cabo de vassoura, ela perambulava pela área da casa soterrada, o barro por toda parte, ao lado de bombeiros de Minas Gerais que haviam participado do resgate das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho e agora ajudavam em Petrópolis. “Eles chegavam para mim e diziam: ‘Mãe, a gente vai achar seus filhos’”, ela contou. Mas no segundo dia Jussara já não tinha esperanças de encontrar Júlia e Antony com vida. Não eram apenas eles que estavam desaparecidos – outras pessoas do bairro haviam sido sufocadas pela lama. E também seu irmão não tinha conseguido salvar a mulher grávida e os dois filhos. O temporal matou 233 pessoas em toda a cidade de Petrópolis.

Um congestionamento de veículos se formou na região da Chácara Flora nos dias seguintes ao desastre, com retroescavadeiras, veículos de grupos de resgate e numerosos carros que iam levar cestas básicas, água, roupas e outras doações para as famílias do bairro. Como as vias que dão acesso a ele são poucas e precárias, o engarrafamento dificultava o fluxo das equipes de salvamento. Um conflito se instalou entre os moradores: uns queriam garantir alimentos e água para suas famílias, outros ansiavam pelo resgate de seus parentes soterrados.

Jussara fazia parte da segunda turma. Brigou com os moradores que preferiam os suprimentos e, munida de um pedaço de pau, foi para o local onde havia o engarrafamento. Berrou para que deixassem as ruas livres para as equipes de salvamento e ameaçou bater em quem atrapalhasse os veículos de resgate. “Não eram só meus filhos soterrados. Tinha dezesseis pessoas lá debaixo”, disse Jussara. “Mas as famílias que não tinham parentes desaparecidos pensavam em fazer estoque de comida. Eu não tinha mais casa, nem fogão, nem nada. Só meus dois filhos debaixo da terra.”

As feridas nas pernas de Jussara inflamaram. Ela precisou ir ao médico e não viu quando sua filha foi retirada da terra, seis dias depois do desastre. “Com quatro viagens da escavadeira retirando terra, acharam a Júlia. Poderiam ter achado antes, se não fosse o tempo perdido com a falta de acesso”, lamentou. “Minha filha teria sido enterrada com o caixão aberto. Ela era tão linda. Enterrei com o caixão fechado, sem o direito de botar uma flor.” Dois dias depois que o corpo de Júlia foi achado, a equipe de resgate encontrou o de Antony.

Jussara diz que a tragédia lhe trouxe coragem. “Eu sempre fui da paz, do diálogo, mas hoje sinto vontade de brigar. Seria capaz de dar na cara de uma autoridade. A morte dos meus filhos me deu essa coragem que eu não tinha. Me sinto oprimida, preciso gritar”, disse. “A gente nunca foi assistido por ninguém aqui nesse bairro. Nem pela prefeitura nem pelo governo estadual. Nunca fizeram uma praça, uma melhoria que fosse, qualquer coisa que evitasse esse desastre.” Antes do temporal, Jussara trabalhava num bufê e fazia salgadinhos por encomenda. Sua mãe é empregada doméstica. Juntando os dois salários e o benefício do extinto Bolsa Família, as seis pessoas da família viviam com 1,7 mil reais.

No dia 5 de março, sábado, quando a piauí conversou com Jussara, ela recebia parentes e amigos para um almoço, em uma casa alugada no bairro Vila Felipe pela família que emprega sua mãe. Havia feito frango ensopado e jiló refogado. Ela está aliviada por ter novamente um canto para cozinhar. Mas, ao menor sinal de uma nuvem carregada no céu, fica apavorada.

Ela apanhou o celular e mostrou a foto de Júlia e Antony. “Olha como são lindos”, exclamou, usando o verbo no presente. “Júlia amava posar para fotos”, disse, e se lembrou do que aconteceu com Leandro da Rocha, com quem compartilha a dor de perder um filho. “Júlia era só um ano mais velha que Gabriel. Ninguém deveria morrer tão jovem.” Ela contou que, para dormir, tem recorrido a tranquilizantes. Em um de seus sonhos recorrentes, ao mesmo tempo bom e angustiante, Antony aparece agarrado ao seu peito, mamando.

O mais antigo registro de inundação causada por chuvas em Petrópolis data de 1850. Nos últimos cem anos, houve sete inundações de grande magnitude: em 1930, 1945, 1947, 1966, 1988, 2011 e a deste ano. Os deslizamentos de terra acompanham as inundações. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) feito entre 1988 e 2017 aponta que os deslizamentos em Petrópolis e na Região Serrana Fluminense estão entre os mais mortais do país. Em 1988, das 277 mortes por deslizamentos em todo o Brasil, 171 ocorreram em Petrópolis. Em 2011, das 969 mortes pelo mesmo motivo, 918 foram na serra fluminense – 73 delas em Petrópolis.

Em 2017, a Prefeitura de Petrópolis teve em mãos um relatório feito pela Theopratique Obras e Serviços de Engenharia e Arquitetura que indicava haver 234 locais na cidade onde era alto o risco de deslizamentos, inundações e enchentes. Essas áreas representavam um quinto do município, e para evitar o pior 7 177 famílias precisavam ser reassentadas. Três anos depois, a promotora Zilda Januzzi, da 1ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Petrópolis, pediu à Prefeitura de Petrópolis e ao Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro que tomassem medidas para eliminar riscos existentes em algumas áreas, entre elas a Chácara Flora.

Para Januzzi, o desastre de 15 de fevereiro mostrou que a cidade, apesar das sucessivas catástrofes, continua despreparada para enfrentá-las. “É urgente que a prefeitura aplique um plano de remoção das famílias que ainda vivem em áreas de risco. O município precisa conter a expansão da ocupação popular com fiscalização e, inclusive, demolições. Essa medida, que parece impopular, salva vidas”, afirma a promotora. Ela diz que outras ações também são necessárias, como a drenagem dos rios e o reflorestamento das encostas.

Para Seluchi, do Cemaden, a formação de pancadas de chuva é o que caracteriza o clima de verão na Região Serrana Fluminense. Quanto a isso, não há muito que fazer. As chuvas sempre cairão, em maior ou menor quantidade. “Mas uma coisa é essa chuva cair sobre a floresta, outra é cair numa cidade com mais de 300 mil pessoas”, ressalta. “São muitos fatores que explicam os consequentes desastres da cidade, como casas erguidas em encostas íngremes, vales estreitos com rios em cujas áreas foram construídas ruas e avenidas.”

Nesse ponto, a ação dos governos e das instituições é essencial, a fim de garantir a segurança dos cidadãos. Ainda que o encontro da frente fria com as nuvens amazônicas tenha sido um evento absolutamente excepcional, a calamidade poderia ter sido evitada, ou pelo menos minimizada. Mas as autoridades pouco têm feito, seja antes, seja depois – quando precisam enfrentar o “trauma coletivo”, como define a promotora Vanessa Katz, da 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo Petrópolis. “A cidade está vivendo um estresse pós-traumático”, diz ela. “E não há profissionais de saúde mental disponíveis para atender à demanda. Estamos vendo parcerias com universidades para dar conta disso. Quase todo mundo na cidade perdeu alguém.”

Até meados de março, oitocentas pessoas atingidas pelo desastre do mês anterior estavam vivendo em abrigos na cidade. “Para as pessoas nos abrigos, a tragédia não acabou. Passa o momento do deslizamento, dos óbitos, das buscas, mas elas perderam tudo: casa, vizinhos, familiares, memórias, afetos”, afirma Katz. “E a falta de informação sobre o futuro causa um sofrimento absurdo nelas. Não sabem o que vai ser do amanhã. Se vão achar uma casa e conseguir um aluguel social, se vão ser postas na rua. Elas têm medo de serem esquecidas pelo poder público. Se não têm clareza na informação, não conseguem organizar a vida. O ser humano tem a necessidade de organizar a vida. Num desastre, as pessoas perdem essa capacidade.”

Segundo Katz, representantes do governo do estado e da prefeitura dão informações conflitantes sobre políticas de moradias. “Eles criaram dois fluxos diferentes de cadastros para dar entrada no benefício do aluguel social. Se foi difícil para o Ministério Público entender e identificar o problema, imagina para a população.” Além disso, a área de assistência social, tanto do governo do estado quanto da prefeitura, “está completamente sucateada”, diz a promotora. “Há um processo de desmonte da política de assistência social em todas as esferas de governo.”

A reclusão de Leandro da Rocha em seu quarto, depois do enterro de Gabriel, durou apenas um dia. Em 26 de fevereiro, sábado, ele vestiu os equipamentos de segurança, colocou as ferramentas no carro e seguiu para aquele marco inicial: o nº 800 da Rua Washington Luiz. Três pessoas que estavam nos ônibus das linhas 401 e 465 continuavam desaparecidas. Rocha decidiu auxiliar nas buscas, pois essa era uma tarefa que o ajudava a se manter de pé novamente, a seguir com a vida. “Eu preciso achar essas pessoas. É o mínimo de dignidade a que elas têm direito: serem retiradas de dentro do rio e terem um velório. Não é justo que sejam esquecidas na água.”

A partir daquele dia, quando o trabalho de resgate das forças públicas já começava a diminuir, Rocha voltou a vasculhar cada canto dos rios Quitandinha e Piabanha com os três voluntários.

O menino Pedro Henrique Braga Gomes da Silva, de 8 anos, Antônio Carlos dos Santos, de 56 anos, e Heitor Carlos dos Santos, de 61 anos continuavam desaparecidos. Também não havia sido encontrado o corpo de Lucas Rufino da Silva, de 20 anos, vítima de um deslizamento no Morro da Oficina, outro local de Petrópolis atingido fortemente pelo temporal. O grupo de WhatsApp da equipe liderada por Rocha divulgou uma descrição do uniforme escolar de Gomes da Silva e uma fotografia de Santos com a roupa que ele vestia no dia do grande horror.

Rocha aprendeu sozinho a procurar vestígios de sobreviventes na água e no lodo, e acabou desenvolvendo um método próprio. “Eu olho para cada detalhe dentro do rio, nas margens. Um pedaço de tecido, um material com consistência mole, cheiros, presença de moscas. Qualquer detalhe pode ser um indício de um corpo. Vou observando tudo sem pressa”, disse ele. Por vezes, uma peça de roupa qualquer é carregada pela correnteza junto com o lixo, o que pode ser sinal da presença de um corpo. Na dúvida, Rocha verifica tudo.

O patrão de Rocha o procurou para saber quando retornaria à marcenaria Joverbb. O marceneiro respondeu que não conseguiria retomar o trabalho enquanto houvesse gente dentro do rio, e pediu mais algumas semanas para continuar as buscas. As contas de Rocha estão atrasadas, mas ele não vai desistir. “Quero que a morte do meu filho conscientize os governos de que essa cidade precisa fazer o que for possível para que não voltem a morrer mais pessoas”, afirmou.

No dia 5 de março, mergulhado na água, ele achou uma bermuda azul-marinho, a mesma cor da que Gomes da Silva usava. Pediu para Luciana Ferreira, que o acompanhava, verificar na fotografia. Não era o mesmo modelo da bermuda do menino. Depois achou um celular preto e deu para sua esposa guardar. “Qualquer coisa dentro desse rio pode pertencer a alguém que desapareceu. A gente não pode descartar nada.”

Rocha disse que a empresa dos ônibus que afundaram na água deveria dar acesso às imagens internas dos veículos para que fosse conferido o número de passageiros. “Aqui em Petrópolis tem muito idoso. Pode ter entrado alguém naquele ônibus que não conseguiu sair. E, como a família não reclamou o corpo, pode estar aí dentro sem que a gente saiba.” Ao contrário do que ocorre com as imagens dos ônibus da cidade do Rio, que são transmitidas por satélite para um computador externo, as dos ônibus em Petrópolis ficam armazenadas em um pen drive nos próprios veículos e provavelmente se perderam.

A Rua Washington Luiz estava fechada para veículos no dia 5 de março, mas havia ali um grande fluxo de pedestres. As pessoas que passavam perto de onde estavam o marceneiro e os voluntários os cumprimentavam e desejavam força. Teresa da Costa Silva Coutinho, tia-avó de Gomes da Silva, aproximou-se da margem do rio e acompanhou o trabalho de Rocha. Ela contou que a mãe do menino, que também estava no ônibus que afundou, continuava em estado de choque. Ao ser levada pela correnteza, a mãe se salvou, mas não conseguiu segurar o filho, que foi arrastado brutalmente pelas águas.

Na hora do almoço, um motoboy chegou com marmitas enviadas por apoiadores do trabalho de Rocha. O cardápio consistia em arroz, feijão, farofa e carne moída. Um funcionário de um posto ofereceu uma garrafa de água gelada. Rocha descansou uma hora e meia e voltou para dentro do rio. Revirou entulhos num banco de areia com o cuidado de quem garimpa diamante. Às quatro da tarde, quando faltavam 100 metros para chegar ao ponto em que o corpo de seu filho foi encontrado, ele parou. “Estou cansado”, disse, amparando o corpo numa haste de ferro.

Na tarde do dia seguinte, domingo, Rocha estacionou perto do condomínio Quinta de Altiora e tirou uma foto da corda que havia sido usada para segurar um dos ônibus e que ainda estava lá, amarrada numa coluna. Depois, seguiu para onde seu filho foi encontrado no Rio Quitandinha. Como parte do asfalto da rua havia cedido em certo ponto, havia tapumes e uma fita amarela isolando o local.

Com a respiração tensa, Rocha passou por baixo da fita e aproximou-se de uma ribanceira, onde apontou para um banco de terra, com entulho e pedras. “Foi ali. Passei por esse trecho dez vezes e não achei meu filho”, disse. “Os cães começaram a farejar muito forte nessa parte dos entulhos à direita, depois de cheirarem o tênis do Gabriel encontrado por Luciana. Então os homens cavaram, jogando a terra da direita para a esquerda. Se tinha alguém do lado esquerdo, pode estar ainda mais soterrado, por causa disso. Eles tinham que ter tirado a terra de dentro do rio. Os governantes deveriam mandar tirar todo o entulho, fazer uma limpa em cada ponto, até não sobrar dúvidas de que tenha algum vestígio ali.”

Em seguida, Rocha foi até o bairro do Retiro, a 6 km do Centro de Petrópolis. Num trecho da estrada, ele parou e desceu pela margem íngreme do Piabanha, na direção de um carro destruído e encalhado entre pedras. Tirou o boné, passou a mão na cabeça e disse: “Não teve trecho desse rio em que eu não estive.”

No município de Pedro do Rio, Rocha vasculhou sob uma ponte. Em dado momento, tentou se lembrar do nome do município mais distante em que havia estado dias atrás – para onde queria ir de novo. Não se lembrou. Ao passar perto de uma casa, viu dois velhinhos sentados na varanda e perguntou:

– Boa tarde! Onde fica a cidade mais para frente e que tem uma barragem?

– Alberto Torres – responderam os idosos ao mesmo tempo.

– O senhor não é o pai do menino desaparecido? – indagou a velhinha.

– Sou, sim – respondeu Rocha.

– Eu vi na televisão o seu esforço – ela contou, sem disfarçar a emoção.

– Um pai nunca abandona seu filho – disse Rocha.

Mas ele acabou desistindo de ir até Alberto Torres, porque já estava prestes a escurecer. No caminho de volta, afirmou: “Devia estar todo mundo dentro desse rio. Bombeiros, defesa civil, Exército, helicóptero deviam estar vasculhando em toda parte. Esse garotinho não pode ficar aí dentro. Ninguém deve ficar aí dentro.” E bateu os punhos no volante, indignado. Em cada um de seus antebraços ele tatuou uma frase, mais de uma década atrás. No da esquerda: “Eu sou parte de suas vidas. Vocês são toda a minha história. Pai e mãe.” No da direita: “Para quem tem fé, a vida nunca tem fim.”

Em 15 de março, um mês após a tragédia, os moradores de Petrópolis fixaram 233 cruzes no jardim da Praça da Águia. No dia 21, outro forte temporal atingiu a cidade, matando seis pessoas. As cruzes na praça foram carregadas pela enxurrada.

O corpo de Antônio Carlos dos Santos, que estava em um dos ônibus na Rua Washington Luiz, foi encontrado em 20 de março e identificado pela polícia civil dois dias depois. Até 24 de março, os corpos de Heitor Carlos dos Santos e do menino Pedro Henrique Braga Gomes da Silva continuavam desaparecidos – e Rocha não havia desistido de encontrá-los.