tempos da peste

Gaivota interrompida

Uma montagem de Tchékhov no meio do mato e da pandemia

Bete Coelho
A atriz e diretora Bete Coelho no sítio de Itu, no interior paulista, onde filmou a peça de Tchékhov: “Enfeitamos os camarins com flores que mais pareciam plumas brancas de uma gaivota”
A atriz e diretora Bete Coelho no sítio de Itu, no interior paulista, onde filmou a peça de Tchékhov: “Enfeitamos os camarins com flores que mais pareciam plumas brancas de uma gaivota” CREDITO: MURIEL MATALON_2021_DIVULGAÇÃO

24 DE JANEIRO DE 2020, SEXTA-FEIRA_Hoje fizemos a primeira leitura da peça A Gaivota, de Anton Tchékhov. O encontro foi aqui em casa, em São Paulo. Com alguns personagens ainda sem atores, amigos gentilmente leram as falas deles. Aqui o teatro se faz entre amigos. Assim como Orson Welles, eu sempre trabalho com eles, sempre me arrependo disso e sempre os quero de volta.

Penso em começar a encenação que farei exatamente do modo como estávamos na sala: atores lendo a peça que irão interpretar, pois afinal A Gaivota também é sobre o teatro. Digo: “Leia o mais próximo de você, não busque nada além de você. Nós já somos suficientemente ridículos.” Uma pausa na leitura entre o segundo e o terceiro atos. Atores são seres apaixonantes e apaixonados. Na pausa, todos falam sobre a beleza do texto e a complexidade de Tchékhov, defendendo “seus personagens” e atacando os pães e frios trazidos pelo nosso tradutor e dramaturgista Marcos Renaux. Esse é o clima. Ficamos ansiosos pelo início dos ensaios.

 

13 DE FEVEREIRO, QUINTA-FEIRA_Tudo estranho. Como se a peça fosse inadequada. Tenho a sensação de cometer um grande erro. De vez em quando, olho para o meu parça, Gabriel Fernandes, pedindo cumplicidade, e o que vejo é um vinco entre as sobrancelhas. Do meu outro lado, o oposto ao estímulo: o cenógrafo Cássio Brasil e sua expressão crítica silenciosa. Bem, começamos provisoriamente numa sala da casa da atriz Muriel Matalon, enquanto esperamos Godot.

 

CARNAVAL_Cometemos um ato digno de Treplev, o jovem personagem de A Gaivota: estamos todos imersos num sítio de uma grande amiga, em Itu, ensaiando. Pensa bem…

 

27 DE FEVEREIRO, QUINTA-FEIRA_Conseguimos por um preço honesto uma sala no Centro de São Paulo. Levamos bancos, cadeiras e mesas para compor a primeira ideia de cenário. Temos um espaço só para os figurinos. Felipe Antunes, nosso diretor musical, levou seu aparato de som. Murillo Carraro, assistente de arte e ator, improvisou coxias. Assim, temos tudo de que precisamos. Ficou combinado que ensaiaríamos cinco horas por dia, com folga aos domingos. Gabriel e eu começamos a nos apropriar de Tchékhov, o que significou também cortes no texto, sob o aval do tradutor, Renaux, que em nossa montagem de Mãe Coragem, de Bertolt Brecht, também traduzida por ele, tinha sempre a seguinte frase na ponta da língua: “Heiner Müller dizia: encenar Brecht sem criticá-lo é uma traição.” Resolvemos adotar essa máxima para todos os autores.

 

6 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA_Começam a noticiar os primeiros casos de Covid-19 no Brasil. Paramos de nos cumprimentar com beijos. Na sala, álcool em gel; no banheiro, toalha de papel no lugar da de pano; no cenário, borrifadas de Lysoform. Fim das cenas com muita aproximação entre os atores. Apesar de todas as precauções, fiquei gripada. Os atores Matheus Campos e Flávio Rochaa também ficaram. E eu preocupada.

 

7 DE MARÇO, SÁBADO_O iluminador Beto Bruel e sua assistente, Sarah Salgado, fazem testes de luz e cenário. Gabriel e eu partimos de carro para Belo Horizonte; vamos visitar meu pai, recém-hospitalizado.

 

9 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA_Voltei a São Paulo. Meu pai recuperou os sinais vitais. Cancelo o ensaio de hoje, estou exausta da viagem e ainda gripada.

 

11 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Cris Olivieri, advogada da nossa companhia de teatro, a Cia. BR116, ligou para nos alertar sobre os riscos que corremos durante a pandemia e aconselhar a interrupção dos trabalhos. Concordamos. Aliás, nunca discordamos dela.

 

12 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA_O Teatro Unimed, em São Paulo, onde iríamos estrear, fechou sem previsão de retorno.

 

13 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA_Em meio às incertezas, um pouco atordoados, informamos a todos os envolvidos que os ensaios estão interrompidos. O Brasil registra cerca de 150 casos de Covid-19. Somos todos forçados à melancolia tchekhoviana, quando nada parece acontecer, trancados em nossas casas, impedidos de qualquer ação – como sugere a dramaturgia do médico russo. Um dia muito triste.

 

18 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_A pandemia está tomando contornos sombrios na Europa. Assombrados pela morte que espreita lá fora, também morremos um pouco. Nós, que fazemos teatro, fomos os primeiros a interromper nosso trabalho e certamente seremos a última classe de trabalhadores a voltar totalmente à vida normal. Partimos para o único recurso: encontros virtuais – na tentativa de não perder o contato e na esperança de voltarmos em algumas semanas.

 

1º DE MAIO, SEXTA-FEIRA_Hoje seria nossa estreia. Fizemos um encontro virtual. Estamos totalmente à deriva, o Brasil conta mais de 7 mil mortes por Covid-19. A boemia se fez presente e, por algumas horas, rimos e ficamos felizes.

 

3 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_A diretora e cenógrafa Daniela Thomas, Gabriel e eu fizemos hoje uma live de Mãe Coragem, de Bertolt Brecht, para o Sesc São Paulo. Depois de um estranho processo solitário e incomum para nós três, estreei sozinha, na sala da minha casa, tendo apenas a câmera e os olhos do Gabriel apontados para mim. Jamais poderia imaginar esse fim de mundo. Bebo vinho e brindo à sobrevivência do teatro, sempre audacioso e urgente.

 

10 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_Estou convivendo apenas com estas palavras: cuidado, distanciamento, lockdown, negacionismo, live, vacina, máscara, empatia, álcool em gel, água sanitária, solidariedade, fome, número de mortos, número de infectados, Zoom, higienização, protocolo, imunidade… Silêncio.

O número de mortos chega a 39 mil.

 

27 DE JUNHO, SÁBADO_As semanas viraram meses. Entendemos que tudo era pior do que imaginávamos. Sem solução ou perspectivas, suspendemos tudo. Sem falas, sem planos, sem cenas. A Gaivota está interrompida.

O Brasil soma 57 mil mortes por Covid-19.

 

7 DE JULHO, TERÇA-FEIRA_Em meio à peste, às queimadas, ao caos político e à paralisação da vida, pensamos em retomar Medeia, de Consuelo de Castro. O tema parece se encaixar no momento. Com uma equipe mínima de seis pessoas, fomos para a Serra da Bocaina, em São Paulo, iniciar o que estamos chamando de “teatrofilme”.

 

15 DE OUTUBRO, QUINTA-FEIRA_Debaixo de máscaras, já em São Paulo, conseguimos uma sala na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Montamos nosso set de gravação e, em duas semanas, filmamos quase tudo. Em números: 10 técnicos, 6 atores, 600 kg de carvão, 3 m3 de areia, 2 telas, 2 projetores e muito galho seco de árvore. Criamos cenas em que os atores estavam protegidos uns dos outros por alguma espécie de filtro, como uma tela ou um vidro. Ou, então, um ator contracenava com a projeção de outro ator, no lado oposto da sala. Esses recursos viraram linguagem. A vida está imitando a arte. Medeia fala sobre a peste que se alastra, sobre o poder que corrompe, sobre tiranos e suas milícias.

O Brasil ultrapassa a marca de 152 mil óbitos.

 

7 DE FEVEREIRO DE 2021, DOMINGO_Hoje estreamos Medeia por Consuelo de Castro, nossa primeira temporada virtual. Eu jamais poderia imaginar que nosso teatrofilme teria tamanha potência. Afinal, cortaram a língua de Téspis, o ator da Grécia clássica, mas não as de sua trupe.

Segredo aqui minha sensação de completude com o codiretor de Medeia, também fotógrafo e câmera, Gabriel Fernandes. Foi nossa primeira direção juntos, mas é claro que esse amálgama vem sendo construído nos últimos doze anos, desde que o vi pela primeira vez, durante a leitura de uma peça. Apenas um quarto do seu rosto se descortinava atrás de uma câmera. Ninguém tinha conseguido, até então, fazer com que eu gostasse de registros fotográficos da minha atuação teatral. Não só gostei dos que ele fez, como fiquei impressionada com a assinatura original e sensível dele, que transformava uma imagem doméstica em algo instigante e interessante. A câmera me namorava. Nós nos casamos. E eis que agora vejo eclodir na tela o nosso tempo transformado em dádiva. Gabriel é uma oração.

 

21 DE MARÇO, DOMINGO_De novo, Gaivota (em nossa montagem, decidimos por unanimidade tirar o artigo “a” do título da peça). Depois de Gabriel e eu ficarmos um ano rigorosamente trancados em nosso apartamento, subimos a montanha generosa da Bocaina, para ficar uns dez, vinte dias, acompanhados pela nossa produtora, Lindsay Castro Lima, o assistente de direção Theo Moraes e Murillo Carraro, que exerce múltiplas funções, além de atuar.

Viemos trabalhar, respirar, esquecer um pouco as máscaras e andar. Andar, andar, pensar, ter ideias. Nossas barrigas doeram de rir nos primeiros dias. Somos livres e passarinhos. Somos livres e imbecis, cheios de amor e trocadilhos. Cheios de gratidão pelo lugar e pela dona da casa. Ficamos juntos durante as noites, à luz de velas, perto do fogão a lenha e da Lua. Chuva, cobra, trovão, mato, pedra, céu de todos os tons. Céus de Gaivota. Terra vermelha, laranja, rosa, marrom, preta e branca, que Lindsay e eu colhemos para a nossa maquete. Decupamos. Recortamos. Nosso cenário será plantado na terra, entre árvores.

Temos mudanças na escalação: saiu Cassio, que tem outros anseios e compromissos, e entrou Domingos Varella, dividindo comigo a cenografia. Domingos e eu temos uma história fecunda no teatro, que se confunde com a vida, há mais de 35 anos.

 

24 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA_Nossa mais nova diretora de arte, Alice Tassara, faz aniversário. Nem sempre temos sinal de telefone ou internet para responder suas várias perguntas, mas sinto no ar que essa parceria já deu certo. Quando vejo Theo ao telefone, ele está falando ou com sua namorada ou com Alice. Não vejo a hora de concretizarmos o que estamos produzindo aqui. Antes de virmos, Domingos e eu já tínhamos elaborado o cenário. Ele e o assistente de cenografia, João Sobrinho, fizeram uma maquete que estamos povoando, aqui, com as personagens em miniatura, fotografando e fazendo com as imagens o nosso storyboard.

Ouvimos falar, como se fosse uma notícia de outro mundo, que o número de mortos chegou a 300 mil no Brasil.

 

30 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA_Hoje é aniversário do Zé Celso Martinez Corrêa. Um dia que seria só alegria foi consumido por uma triste notícia: a morte do psicanalista e escritor Contardo Calligaris. Bebemos vinho em silêncio, à luz de velas. Uma chuva absurda cai. Iremos embora em dois dias. A realidade começa a dar os seus sinais.

 

27 DE ABRIL, TERÇA-FEIRA_Viemos a Itu, no interior de São Paulo, fazer uma visita técnica à locação do teatrofilme Gaivota. A pandemia é uma realidade incômoda da qual não podemos nos desviar. Murillo estava com as malas prontas para vir quando recebeu o resultado positivo do exame de Covid. Está completamente assintomático, trancado em casa.

 

29 DE ABRIL, QUINTA-FEIRA_Gabriel, Theo, Lindsay, Domingos, João, Muriel, Alice e eu retornamos de Itu. Tudo a fazer! Fiquei feliz principalmente porque parecíamos o dream team ou o incrível exército de Brancaleone.

A peça A Gaivota conta a história de um núcleo familiar russo e seus agregados no final do século XIX, enfatizando o conflito entre a mãe, uma célebre atriz, seu filho, que pretende ser dramaturgo e escritor, a jovem aspirante a atriz, Nina, e o companheiro da mãe, o famoso escritor Trigórin. Anoto aqui um trecho do posfácio do tradutor Rubens Figueiredo para lembrar a mim mesma por que insisto em montar A Gaivota:

A rigor, em A Gaivota, há antes coisas que não acontecem, em um enredo que parece não caminhar para parte alguma. No entanto, entre diálogos triviais, aspirações e desavenças corriqueiras, apenas rompidas por reflexões nada idealizadas sobre a atividade do artista, uma crise obscura se avoluma pouco a pouco. Um desajuste sutil impede que os personagens entendam uns aos outros e subtrai de cada um a compreensão do que eles mesmos desejam e pensam. Esse desajuste e essa crise fazem as vezes de uma estrutura para a peça, soldam as partes que parecem à deriva. Ao mesmo tempo, permitem pressentir o que há subjacente às camadas de banalidade e de frustração.

 

3 DE MAIO, SEGUNDA-FEIRA_Fiquei desamparada porque hoje o ator Roberto Audio e eu chegamos à conclusão de que ele, de fato, não vai poder fazer o personagem Sorin em Gaivota. Beto, que está no Rio fazendo um trabalho na tevê, é desses atores que não consigo substituir, dentro e fora de cena. E agora?

 

4 DE MAIO, TERÇA-FEIRA_Beto enviou uma mensagem linda com inúmeras sugestões de atores. Do elenco original, apenas ele não vai participar da montagem. Mas agora estou excitadíssima com a única possibilidade que vejo para o papel do Sorin – convidei o tradutor Marcos Renaux. Mesmo não sendo ator, só ele poderia entrar na peça a essa altura, com o bonde já em movimento. É ele! Tenho certeza. Renaux me pediu 48 horas para pensar.

 

5 DE MAIO, QUARTA-FEIRA_Habemus Sorin, em 24 horas!

 

6 DE MAIO, QUINTA-FEIRA_A nossa equipe de produção foi hoje a Itu para fechar hospedagem, alimentação, logística etc. A equipe chama-se Lindsay. Ela foi acompanhada por Theo, nosso assistente de direção, no Fusca verde dele. À noite, retomamos os ensaios online. O texto está devidamente fechado, dizemos – o que é uma mentira, porque sempre há o que modificar até o último segundo. Infeliz de quem acha que tudo está definido. Essa é a graça e o tormento do nosso ofício.

 

DE 8 DE MAIO, SÁBADO, A 7 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_Os ensaios feitos por Zoom duram em torno de duas horas, no máximo. Se fossem presenciais, teriam duração de quatro ou cinco horas. A tela cansa, é limitada. Trabalhamos tons, tempos, intenções, talvez até ritmos, mas paramos por aqui. Impossível trabalhar espaço, corpo e jogo de cena. A câmera pega apenas um ângulo, e quando enquadra o corpo inteiro não capta o olho. Ocorre ainda o delay das vozes, o ator que trava, a internet que falha… Tudo é sofrível.

Antes dos ensaios, os atores trocam relatos sobre as dificuldades que a pandemia trouxe para o trabalho e a vida de cada um. Alguns voltaram para suas cidades de origem, outros para a casa dos pais fugindo do aluguel, ou decidiram fazer trabalhos fora de suas áreas. A pandemia veio escancarar a complexa vida econômica do artista brasileiro.

O número de mortos por Covid-19 sobe para 474 mil.

 

12 DE JUNHO, SÁBADO_Gabriel e eu chegamos a Itu, exatamente na casa onde ensaiamos no Carnaval do ano passado. Perto da casa, existe uma pequena clareira no meio do mato onde montamos o nosso cenário, que consiste em tablados de diversas alturas. A esse conjunto chamamos de “casa de Sorin”. É ali que a maioria das ações da peça se passa. Como tudo conspira a nosso favor, conseguimos alugar umas casinhas, a alguns minutos da casa central, para acomodar parte da equipe e do elenco. Ficamos assim: ocupamos as casinhas alugadas, a casa central, a sauna, que virou quarto, e um cômodo fora da casa. Só para lembrar: se não fossem os vários apoios que recebemos, não conseguiríamos realizar tal façanha, inconcebível para o nosso orçamento teatral.

Nosso carro veio apinhado de malas, remédios e compras. Logo que saímos de casa, vimos uma mãe coragem puxando uma carroça, sobre a qual estava a filha. Após calibrar os pneus, consultamos o Waze, que traçou a rota: pela Rodovia Anhanguera e não pela Bandeirantes, como de costume. Nós não queríamos obedecer ao aplicativo, e sim seguir pela estrada predileta. Consultamos a Lindsay, que tinha ido horas antes, e ela disse: “Peguem a Anhanguera, a Bandeirantes está travada.” Na Rodovia dos Bandeirantes acontecia uma motociata em apoio ao tal líder brasileiro.

Desviamos do mal, como sempre tem de ser. Baús escritos Cia. BR116 estavam todos organizados e dispostos diante da casa dando as boas-vindas. Durante toda a manhã, Lindsay, Murillo, Theo, Domingos, João e mais dois ajudantes descarregaram, de um caminhão de 9 metros, o figurino, os objetos, os equipamentos etc.

Finalmente, no jantar, comemos a comida do senhor Baleia – é, de fato, muito gostosa. Me sinto protegida. Há beleza, vida, há Deus nisso tudo. Um objeto não identificado que estava na cozinha foi alvo de várias ilações sobre suas possibilidades de uso.

 

13 DE JUNHO, DOMINGO_Uma seriema passou em frente à varanda do meu quarto enquanto éramos banhados pelo Sol. Lindsay e eu fomos visitar os aposentos da equipe. Sol, bolhas nos pés.

Descrição do Gabriel: “Hoje o almoço do Baleia foi arroz, feijão, farofa e frango assado com macarrão à bolonhesa por cima.” Ele também me avisou que a privada do banheiro do nosso quarto entupiu, e descobriu outra coisa importante: o objeto não identificado da cozinha é um espremedor de laranja, mas poderia estar exposto em qualquer Bienal do mundo.

A gente até chega a esquecer, mas apenas por alguns segundos, os 487 mil mortos no Brasil.

 

14 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_Amanhã chega o restante do elenco. Vimos uma estrela cadente, o que nos anunciou um encontro auspicioso. Lindsay e eu tínhamos acabado de organizar todos os camarins, cujas mesas também serviriam para as refeições. Foram feitas por Domingos e João de tal forma que garantem a distância saudável entre nós e permitem nossa lúdica personalização da madeira que segura o espelho. Essa divisória aguarda ansiosamente a história tchekhoviana dos atores e atrizes. Em meio a risadas e expectativas, enfeitamos tudo com flores que mais pareciam plumas brancas de uma gaivota.

Um pequeno adendo: nosso banheiro está super o.k.

 

15 DE JUNHO, TERÇA-FEIRA_Ainda nem começaram as filmagens e já estou exausta. Hoje experimentamos os figurinos feitos pela Simone Mina e a Carol Bertier e testamos maquiagens e cabelos com a Gabi Moraes. Digo sim para quase tudo, apesar de ter certeza de que muita coisa vai mudar quando estivermos no cenário, em ação e sendo filmados. Não sei por que invento de dirigir e atuar ao mesmo tempo. Mentira. Sei por quê. Primeiro: tenho o Gabriel; segundo: tenho uma equipe formidável; terceiro: amo atuar; quarto: amo os atores; quinto: quero matar todos eles.

 

16 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_O fim do primeiro dia de filmagem nos abraçou como se fosse o terceiro ou quarto, tamanha a intensidade e as tensões. Não só esse teatrofilme precisava nascer como também torcíamos para que quase trinta pessoas, cujos testes de Covid-19 deram negativo, convivessem com alguma harmonia no meio do mato e ficassem minimamente satisfeitas com as acomodações e a alimentação. E que nossos velhos parceiros junto com os novos somassem algo próximo do que Gabriel e eu imaginamos para “nossa” Gaivota.

 

18 DE JUNHO, SEXTA-FEIRA_Ouvi por aí que tudo está dando certo: a captação dos sons, os cabos, as antenas, os microfones… Dada a minha ignorância no assunto, fico me perguntando por que Rovilson Pascoal (o Rovis), Bruno dos Reis e Bia Passeti, nossa equipe de som, passam horas a fio naquela cabana no meio do mato chamada House. Estou achando um pouco suspeito. De vez em quando vejo surgir de lá, com uma música pronta, nosso diretor musical, Felipe Antunes. Estranho, muito estranho.

 

19 DE JUNHO, SÁBADO_Hoje o Brasil atingiu a trágica marca de 500 mil mortos. Sem palavras. Por aqui, a maioria de nós ainda sem vacina. Que pesadelo!

 

21 DE JUNHO, SEGUNDA-FEIRA_Mesmo mantendo os cuidados e tendo testado negativo antes de chegarmos aqui, nós fizemos hoje um novo exame e, para alegria geral da nação, nenhum B. O.

 

23 DE JUNHO, QUARTA-FEIRA_Tem sido dias olhando para o céu, para a luz, olhando ao redor para fugir de algum animal peçonhento ou para usufruir dos tons ocres das folhas e terras onde plantamos nosso cenário. Partimos dos caminhos e trilhas abertos com as lentes do cinema pelo olhar amante do Gabriel e a cumplicidade e precisão do nosso fotógrafo e câmera, Rodrigo Fonseca, mais conhecido como BG. É surpreendente também acompanhar os movimentos e a competência acima do normal do senhor Ducho, que Murillo insiste em chamar de Drucho, cujo nome porém é Eduardo Fujise, nosso logger e assistente de câmera. Aos poucos os ângulos vertiginosos do cinema foram substituídos por um olhar disposto no meio de uma plateia hipotética.

No meio do palco, a arte da Alice Tassara decifrava situações. No meio das cenas, palavras decifravam emoções. E, ao contrário do que se pensa, são as emoções que decifram os atores. Experimentamos momentos de beleza rara nas pupilas, plumas e paixão de Nina (interpretada por Luiza Curvo); na indecifrável idade e na força misteriosa de Treplev (Matheus Campos); no imenso amor silencioso de Medvedenko (Murillo Carraro); no domínio sapiente de Sorin (Marcos Renaux), aquele que simplesmente é; na cumplicidade e tranquilidade de Dorn (Diego Machado); nos inquietos desejos de Macha (Viviane Monteiro); na procura incessante de Trigórin (Flávio Rochaa) para descrever a si mesmo; na Polina (Muriel Matalon), que dá um show de paciência e generosidade; e eu, com alguma modéstia, fazendo a célebre atriz Irina Nikoláievna Arkádina. O palco sempre será terra fértil para os que procuram decifrar o insondável tempo. “Eu tenho fé e não sinto tanta dor. E, quando penso na minha vocação, eu não tenho medo da vida”, diz Nina, no Ato IV da peça.

 

24 DE JUNHO, QUINTA-FEIRA_Hoje à noite, depois de um dia cansativo de trabalho, com a refilmagem de algumas cenas, tivemos direito a fogueira, quadrilha, quentão, salsichão do Marcola (como apelidamos as melhores salsichas do pedaço, trazidas pelo Renaux), doces e a bênção de São João. Eu me premiei como a melhor caracterização caipira feminina da noite. A alegria, o amor, a amizade e a ressaca triunfaram.

 

2 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_Depois que tudo se desfez e o caminhão levou embora equipamentos, figurinos e objetos cênicos, Lu Curvo e eu estávamos deitadas no que sobrou do cenário, em silêncio e gratidão, quando recebi a seguinte mensagem do nosso Tchékhov, o empresário e agora ator Luiz Frias, que aceitou o convite para narrar algumas passagens da peça: “Você sabe que posso ser meticuloso, tinha anotado na agenda! Dia 2 de julho – Ich sterbe. Morte de Tchékhov.”

 

3 DE JULHO, SÁBADO_Alice e eu vimos uma estrela cadente.
– Você viu???
– Vi!

 

4 DE JULHO, DOMINGO_Estamos indo para São Paulo começar o trabalho minucioso de montagem e finalização do teatrofilme Gaivota.

 

5 DE JULHO, SEGUNDA-FEIRA_Voltamos para São Paulo com a sensação de “final feliz”, mas ao mesmo tempo estamos apreensivos com o que nos aguarda: uma quantidade enorme de trabalho minucioso chamado edição. Gabriel também cuida dessa função, o que facilita nossa direção conjunta. Estou numa de “deixa a vida me levar, vida leva eu…”.

 

7 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Gabriel tomou a primeira dose da vacina contra Covid-19. Foi um dia feliz e muito aguardado. Quem o acompanhou foi Murillo, que se tornou um grande amigo e uma espécie de anjo, dada sua disposição para enfrentar todas as situações. Murillo é um representante de inúmeros jovens talentosos que escolhem o teatro como ofício. O que os move são sonhos, força e juventude. Uma vida dura, áspera e instável os espera. Entre um trabalho e outro, atravessam momentos sem perspectiva e sem apoio algum. Geralmente autodidatas, eles devem expandir seus talentos, contar com a sorte e com bicos para garantir a sobrevivência. No funil da resistência, Murillo se destaca com seu otimismo, beleza e sinceridade nos atos, falas e gestos.

 

9 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_Antes de mais nada, Gabriel me pediu paciência, disse que eu deveria rever todas as cenas e fazer uma primeira seleção sem descartá-las. “Sabe como é, né? O primeiro corte. É só o primeiro corte!”

Eu respondi: “Claro! Sei exatamente como é!”

Ele então me lembrou da edição de Medeia, dos momentos em que eu fiquei deprimida, querendo mudar tudo, refazer cenas, cortar, enfim… Ele me lembrou que fui grosseira inúmeras vezes, questionando o trabalho feito e dizendo coisas horríveis, principalmente na última edição de O Santo Inquérito (leitura encenada da peça de Dias Gomes que realizamos no Theatro Municipal de São Paulo, em junho, para o festival São Paulo Sem Censura). Ouvi as críticas já com o coração acelerado e o sangue fazendo seu circuito muito mais rápido do que o normal.

E assim iniciamos esse momento romântico e sedutor chamado “preliminares”.

 

15 DE JULHO, QUINTA-FEIRA_O escritório do Gabriel agora se chama “ilha de edição”. No caso, é um pequeno cômodo do nosso apartamento. Theo assumiu novamente o seu posto de assistente. Isso significa mais eficácia no insuportável trabalho cirúrgico diante da tela. Ressoam pela casa incontáveis vezes as vozes dos atores de Gaivota, repetindo a mesma frase da peça, ou uma palavra ou até uma sílaba. Cada frame é trabalhado e pensado exaustivamente. Chega um momento em que a percepção fica viciada e perdemos a capacidade crítica. O ir e vir de Theo traz um frescor aos sentidos e altera nosso ponto de vista. Evidentemente, o trânsito de Theo é útil por causa do total conhecimento e envolvimento dele com o trabalho desde o início. Theo é sempre um respiro bem-vindo.

 

18 DE JULHO, DOMINGO_Durante a pandemia resolvi encarar finalmente a leitura completa de Ulysses, de James Joyce, livro que, devido ao seu considerável peso, não levei para Itu. Também achei que Tchékhov ficaria enciumado.

Retomei a leitura agora, no tempo que me sobra, e, sim, vou continuar. Sim. Nem que eu tenha de reler assim que eu acabar de ler, nem que eu tenha de reler a Odisseia de Homero. Nem que eu tenha que envelhecer muito mais. Sim. Eu digo sim e fim.

 

21 DE JULHO, QUARTA-FEIRA_Hoje é meu aniversário. Saí da tristeza para esperanças renovadas. Será? Recebi uma enxurrada de amor e cuidados. Agora sim, estou pronta para recomeçar. Será?

 

29 DE JULHO, QUINTA-FEIRA_A Cinemateca Brasileira está pegando fogo! E agora? A Cinemateca está pegando fogo!

 

30 DE JULHO, SEXTA-FEIRA_A Cinemateca pegou fogo! Uma grande parte da memória de vários artistas foi destruída. Parte da memória de um povo foi apagada. Fico me perguntando que tipo de política pública cultural é essa que despreza e negligencia um arquivo histórico da nossa sociedade.

 

31 DE JULHO, SÁBADO_Soube que o frio matou treze moradores de rua em uma semana, em São Paulo. E o Brasil soma mais de 550 mil mortes por Covid.

 

3 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA_Gabriel e eu quase sempre temos o mesmo gosto artístico. Concordamos especialmente em não gostar de efeitos cinematográficos. Preferimos a dramaturgia conduzida pela interpretação dos atores, pela dimensão da palavra e pela psique humana. Esse é um dos aspectos bem considerados por nós durante os ensaios, filmagens e finalização. É uma das características que define o trabalho das produções da Teatrofilme (como chamamos nossa produtora cinematográfica). A outra é a tentativa não muito fácil de sair do esquema de setorização das funções e nos apropriarmos coletivamente do trabalho. Agradeço especialmente a Lindsay, Cris e nosso diretor de comunicação, Maurício Magalhães, por compartilharem desse princípio e conduzirem conosco a Cia. br116.

 

9 DE AGOSTO, SEGUNDA-FEIRA_Hoje tomei minha segunda dose da vacina contra Covid-19, e terminamos o primeiro corte do primeiro ato. O que falta?

 

10 DE AGOSTO, TERÇA-FEIRA_Falta muito. Falta também reconstruir nosso país, que está doente e sintomático, sucateado num desfile antidemocrático de latas-velhas enferrujadas. De qualquer maneira, nossa Gaivota tchekhoviana está alçando voo. Já podemos ver escrito no céu: MERDA![1]


[1] A peça Gaivota, dirigida por Bete Coelho e Gabriel Fernandes, tem estreia prevista para o dia 12 de outubro, no canal da Cia. BR116 no YouTube.

Bete Coelho

É atriz e diretora. Atuou nas peças Um Processo, Cacilda! e Mãe Coragem, entre outras. Prepara o lançamento da filmagem da peça A Gaivota

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