esquina

Garis Kaiowás

Índios recolhem o lixo de Dourados

Paulo Renato Coelho Netto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Lucas Ramires Duartes, 20 anos, fala três idiomas. Português com os moradores da cidade, guarani com a família e kaiowá com os colegas de trabalho. As duas línguas indígenas são os últimos elos que o conectam a seus antepassados. Ele nunca se pintou como índio nem usou adereços. Suas orações acontecem no culto evangélico para o deus cristão, não para Nhanderu, um deus guarani que sempre emana luz ao se manifestar.

Com a mulher e o filho de 2 anos, Duartes vive numa casa de alvenaria de 10 por 5 metros quadrados, rebocada mas sem pintura, ao lado de um pé de seriguela. Não tem televisão nem rede de esgoto. A água só chega ali duas vezes por semana. A mãe e as duas irmãs moram numa casa igualmente simples, a 50 metros de distância da dele.

“Familiado” é o termo que ele usa para explicar a convivência de toda a família no lote de 1 hectare (equivalente a quase um campo de futebol) na maior reserva indígena urbana do Brasil, em Dourados, no Mato Grosso do Sul. A área abriga mais de 15 mil índios dos povos guarani-kaiowá – à qual pertence Duartes – e terena, em 3 520 hectares pontuados por moradias de alvenaria, de taipa e barracos feitos com sobras de madeira e papelão.

Duartes estudou até o 9º ano. Deixou a escola quando nasceu o filho Bruno, mas pretende voltar. Há três anos trabalha como gari. “Tenho carteira assinada, férias, 13º salário, benefícios e auxílio-alimentação. Sustento minha família com o dinheiro. E encontro meus amigos. A gente ri e se diverte”, contou. Ele ganha cerca de 1 800 reais por mês.

Dos 85 garis da Financial Construtora Industrial Ltda., empresa que também faz a limpeza urbana em Dourados, setenta são indígenas. Todos guaranis-kaiowás. Com a crescente mecanização das colheitas de soja, milho e cana-de-açúcar na região, os kaiowás passaram a procurar trabalho na cidade – na construção civil e na coleta de lixo. “Eles são a maioria dos garis porque, sempre que aparece uma vaga, um avisa o outro”, explicou Jonny da Silva Souza, que coordena e fiscaliza a coleta.

 

Pontualmente, às 5h50, um velho ônibus Mercedes-Benz da Financial parte de Dourados rumo à reserva indígena, a 7 quilômetros do Centro da cidade. Os dezoito anos de uso deixaram marcas no veículo. A porta da frente não existe e o barulho do motor é ensurdecedor. O sol ainda não nasceu.

O ônibus deixa o asfalto da rodovia MS-156 e se embrenha em uma estradinha de terra. Pouco a pouco, vão entrando os kaiowás. Eles vestem macacões de cor laranja, uniforme dos garis do município. Ao final do percurso de cerca de 6 quilômetros pela reserva, o ônibus terá recolhido 33 passageiros – entre eles Duartes.

Dentro do veículo, os garis conversam em kaiowá, que deriva da língua guarani. São todos jovens. Alguém no fundo tira da mochila uma caixa de som e põe para tocar uma música eletrônica. Pouco depois, o DJ muda a trilha sonora. Entra a música Jenifer, cujo refrão os índios cantam em coro: O nome dela é Jenifer/Eu encontrei ela no Tinder/Não é minha namorada/Mas poderia ser. O clima de festa contrasta com a paisagem silenciosa e bucólica.

O veículo avança pela região urbana. No Monte Carlo, bairro de classe média, entra Sabrina Couto, auxiliar administrativa da empresa de coleta, que sempre aproveita a carona. “Há seis anos faço diariamente esse percurso e nunca vi ninguém mal-humorado aqui”, ela disse.

 

O ônibus chega à garagem da Financial. Vai começar a jornada de trabalho de sete horas e vinte minutos. Como está há mais tempo na empresa, Duartes ajuda no treinamento dos novatos, explicando a eles como se precaverem dos riscos da atividade insalubre, seja por corte nas mãos, seja por atropelamento.

O caminhão de lixo que vai fazer a coleta no sul de Dourados dispara pelas ruas, levando Duartes e mais dois kaiowás. Quando chega à região definida, os índios saltam do veículo e iniciam seu trabalho.

Cinquenta minutos depois, perto do Hotel Querência, interrompem o serviço. Os garis entram pelos fundos do hotel, onde os aguardam copos de café e empanados de frango, servidos gratuitamente pelas funcionárias. Em outros lugares que passam, a cena se repete: as pessoas oferecem a eles refrigerantes, salgadinhos e marmitas. Duartes contou que nunca foi ofendido em Dourados, embora sinta alguma discriminação no olhar das pessoas. “O preconceito vem do branco. Isso não existe do negro com o índio e da nossa parte com os negros. Mas nós não somos brasileiros também?”

Às 8h45, o caminhão de lixo, que andava sobre o fio da navalha, quebra. Enquanto o motorista, Alcino Souza Vieira, aguarda o conserto do veículo, os índios desaparecem. E reaparecem assim que o reparo termina. Como a temperatura chegava a 30 graus, haviam se refugiado num canto com sombra. “Os índios são assim: ou ficam sozinhos ou entre eles. A gente tenta fazer amizade, mas é difícil”, disse Vieira.

Às onze da manhã, o caminhão de lixo volta à empresa. Aproxima-se a hora do almoço. No refeitório, os kaiowás desembalam as marmitas que trouxeram de casa e as aquecem no micro-ondas. Antes de uma da tarde, voltam às ruas para continuar o trabalho.

Naquela quarta-feira, 17 de abril, os garis kaiowás correram 27 quilômetros e recolheram 8 800 quilos de resíduos sólidos em Dourados, segundo os cálculos da Financial. “O branco desperdiça muito porque tem dinheiro sobrando”, comentou Duartes.

Paulo Renato Coelho Netto

Leia também

Últimas Mais Lidas

Sem máscara, no meio da fumaça

Entre o combate às queimadas e o resgate frustrado de um bicho-preguiça, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amazônia em chamas

Foro de Teresina #69: O racha no bolsonarismo, as derrotas do Posto Ipiranga e a farra do fundo eleitoral

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

O patriotismo como negócio

Vendas da Semana do Brasil, criada para incentivar consumo apelando ao Sete de Setembro, ficam 40% abaixo do esperado pelo governo

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

Mais textos
1

Que falta faz uma boa direita

Bolsonaro e o liberalismo no Brasil

3

O patriotismo como negócio

Vendas da Semana do Brasil, criada para incentivar consumo apelando ao Sete de Setembro, ficam 40% abaixo do esperado pelo governo

4

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

5

A casa da memória

Mentir para tratar a demência

7

Sem máscara, no meio da fumaça

Entre o combate às queimadas e o resgate frustrado de um bicho-preguiça, a rotina de trabalho de um bombeiro na Amazônia em chamas

8

Foro de Teresina #69: O racha no bolsonarismo, as derrotas do Posto Ipiranga e a farra do fundo eleitoral

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

9

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

10

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos