esquina

Georges Wolinski

A propósito de conveniências e incômodos

Da redação

O número 55 de piauí, que chegou às bancas em abril de 2011, prometia na capa “meio século de sexo”. A origem da lasciva boa-nova era o cartunista francês Georges Wolinski, cujas tirinhas se espalhavam ao longo das 74 páginas da revista. Eram desenhos impudicos, safados, divertidos alguns ou de mau gosto outros (embora não se saiba quem arbitra essas coisas), e todos – absolutamente todos – na extremidade oposta da moral e dos bons costumes. Em 7 de janeiro de 2015, Wolinski e seus colegas começavam mais um dia de trabalho quando foram abatidos por jihadistas. Ao contrário do que diria o estribilho reconfortante, a metralhadora vencia o lápis (lápis, as fantasias regressivas costumam tirar de letra). Era uma infâmia, e, para nós, algo além disso: era a morte de um colaborador.

Nos dias que se seguiram, sob o arco amplíssimo da liberdade de expressão, milhões de pessoas saíram às ruas proclamando-se Charlie. Em meio à desorientação e ao páthos, surgiram divergências, gestos comovidos, oportunismos, homilias tépidas e uma enxurrada de debates, dos intelectualmente honestos aos rasteiros.

Diante desse quadro, seria conveniente aproveitarmos a comoção para repetir o bordão solidário do Charlie e exibir em triunfo a nossa edição 55. Seria também fraudulento. Primeiro, porque o Wolinski que havíamos publicado dava canelada nos pudicos, não nos imãs. (Basta lembrar que pêlos havia, e em abundância, só que pubianos, não faciais, como os que ornam o Profeta.) Depois, e mais relevante, porque publicar aquelas tirinhas foi um experimento levado a cabo sem plena convicção por parte de alguns de nós.

Duas posições se contrapunham: a de que a revista era pudica demais, sendo o caso, então, de forçar os limites da nossa caretice; e, por outro lado, a de que, em tempos de BBB e coisas tais, já não se via nem valor estético nem ousadia política em tentar chocar o proverbial burguês com obscenidades fesceninas. Desses dois juízos, ambos legítimos, prevaleceu o primeiro. Alguns leitores gostaram, outros escreveram cartas furibundas, algum petiz iniciou ali a sua aventura sexual e a vida seguiu adiante. Era pouco provável que o Wolinski pornógrafo voltasse a aparecer nas nossas páginas.

Até o dia 7 de janeiro. Não há rubor de devotas, suscetibilidades virginais ou ponderações morais e estéticas de nenhum tipo que suplantem o imperativo de homenagear um colaborador assassinado por escolher como queria exercer a sua profissão. Permanecemos divididos quanto aos desenhos, mas não quanto a isso – consenso que Wolinski sem dúvida desprezaria. Em memória dele, afora perplexidade e luto, podemos apenas oferecer as safadezas de Reinaldo Moraes [páginas 54-57] e o nosso mal-estar.

Da redação

Leia também

Últimas Mais Lidas

STJ, novo ringue de Bolsonaro

Tribunal tem papel decisivo na crise entre presidente e governadores

Witzel a Jato 

Celeridade da Procuradoria da República contra governador do Rio surpreende na operação que expôs contratos da primeira-dama com um dos maiores fornecedores do estado

Esgares e sorrisos

Cinemateca Brasileira em questão

Sem prova nem lápis emprestado

Estudante brasileira em Portugal relata transformações na rotina escolar depois da epidemia de Covid-19

Na contramão do governo, brasileiros acreditam mais na ciência

Pesquisa inédita aponta que, durante a pandemia, 76% dos entrevistados se mostraram mais interessados em ouvir orientações de pesquisadores e cientistas

Médico no Rio se arrisca mais e ganha menos

Governo Witzel corta adicionais de insalubridade de profissionais que atuam contra a Covid-19 em hospital da Uerj

Maria vai com as outras #8: Ela voltou

Monique Lopes, atriz pornô e acompanhante, fala novamente com Branca Vianna, agora sobre seu trabalho durante a pandemia do novo coronavírus

Autor de estudo pró-cloroquina admite erros em pesquisa

Enquanto isso, maior investigação já realizada sobre a droga reitera que não há benefício comprovado contra Covid-19 e alerta para riscos

Mortos que o vírus não explica

Belém tem quase 700 mortes a mais do que o esperado apenas em abril; oficialmente, Covid-19 só matou 117

Mais textos
1

Dentro do pesadelo

O governo Bolsonaro e a calamidade brasileira

2

Mortos que o vírus não explica

Belém tem quase 700 mortes a mais do que o esperado apenas em abril; oficialmente, Covid-19 só matou 117

3

Autor de estudo pró-cloroquina admite erros em pesquisa

Enquanto isso, maior investigação já realizada sobre a droga reitera que não há benefício comprovado contra Covid-19 e alerta para riscos

4

Amazônia perto do calor máximo

Pesquisa inédita revela que, acima de 32 graus Celsius, florestas tropicais tendem a emitir mais carbono na atmosfera do que absorver

5

Nem limão, nem feijões: sem milagres contra a Covid-19

Ministério Público e polícia investigam “receitas infalíveis” contra o vírus

6

Médico no Rio se arrisca mais e ganha menos

Governo Witzel corta adicionais de insalubridade de profissionais que atuam contra a Covid-19 em hospital da Uerj

8

Uma biografia improvável

O que são vírus – esses parasitas que nos deram nada menos que 8% do nosso DNA

9

Lockdown à brasileira

Como estados e municípios usam estratégias de confinamento com prazos e métodos distintos contra a Covid-19

10

Foro de Teresina #101: Bolsonaro sob pressão

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana