esquina

Glória inglória

O homem mais feio do Brasil

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

A plateia ainda era escassa quando o mestre de cerimônias adentrou o palco, entusiasmado, e encheu o peito para anunciar os prêmios do concurso daquela noite. O terceiro lugar seria agraciado com 100 reais, uma camisa da Argentina (falsificada) e um aperto de mão; ao segundo, caberiam 300 reais, uma lâmpada mágica e um pôster do Ney Matogrosso. O grande campeão receberia 1 mil reais, 5 metros de linguiça, 1 litro de cachaça e uma foice.

Os jurados foram chamados a compor a mesa – entre eles um vereador, um coveiro, uma subcelebridade da internet e uma mulher-fruta. No fundo do palco, na penumbra, perfilaram-se os candidatos ao prêmio máximo, que haviam se preparado para valorizar sorrisos banguelas, línguas compridas, olhos estrábicos e outros dotes pouco graciosos. O apresentador lhes desejou sorte. “E que vença o mais feio!”

A ideia de celebrar os menos favorecidos pela natureza foi do produtor de eventos Fábio Medeiros. Quando criou a competição, há oito anos, foi modesto e propôs eleger tão somente o homem mais feio de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Com o crescimento do público e a repercussão do evento, o idealizador não hesitou em promovê-lo para “Concurso do Homem Mais Feio do Brasil”, embora não haja eliminatórias em outras cidades.

Para a edição de 2014, cercou-se um terreno, prevendo-se 30 mil pessoas ao longo dos três dias de festa que culminariam, no último domingo de julho, com o desfile dos mal-apanhados. Mas nem a intensa programação de shows de artistas da região animou o povo a sair de casa naqueles dias frios e chuvosos. A noitinha do domingo despontava e parecia remota a chance de se esgotarem os estoques de feijão tropeiro, pastel e espetinho das barracas.



O espaço morto do festival, tomado de névoa e gelo seco, era cortado por holofotes errantes e ecos de microfonia vindos do palco. Mais adiante, brinquedos vazios de um parque de diversões ainda aguardavam os primeiros aventureiros. No chão, cartazes caídos exibiam as figuras tenebrosas de Freddy Krueger, Chucky (o Boneco Assassino), o Corcunda de Notre Dame e Vanderlei Mendes, o “Caveirinha”, Mister Feiura 2013. O cenário opressivo de filme de terror ganhou alguma graça quando um homem cambaleante, com uma lata de cerveja na mão, ao avistar um infeliz que se aproximava, disparou: “Já ganhou! Já ganhou!”

 

Ninguém havia procurado a cabine de inscrições nos dias anteriores, mas a produção do evento estava confiante de que o número de candidatos chegaria a cinquenta. Por volta das oito da noite, os primeiros inscritos começaram a aparecer. Em minutos surgiram curiosos, atraídos pela câmera da equipe do programa de tevê de Sabrina Sato. No centro da pequena aglomeração e devidamente iluminado, um simpático rapaz caprichava na ribalta: olhos arregalados, pescoço bem esticado, dentição falha à mostra, ele se pôs a executar uma performance desengonçada. Logo acorreram outros dois, acirrando a competição por um lugar de destaque no picadeiro do circo de horrores.

No passado, o concurso já foi prestigiado por celebridades como Gretchen e Rita Cadillac. Na edição de 2014, a fada madrinha dos indivíduos de má catadura foi a modelo, funkeira e ex-candidata a deputada estadual no Rio de Janeiro Renata Frisson, a Mulher Melão. O lugar mais disputado do evento era o entorno da área reservada para a ilustre convidada. Dois policiais militares estavam entre os que tentaram furar o cerco da produção para conseguir um selfie com a moça, no que foram bem-sucedidos.

Nos bastidores, meia dúzia de gatos pingados ligados à organização rodeava um carro que acabara de chegar com o grande prêmio da noite. De dentro dele, um funcionário despontou portando o troféu dos desgraçados. A foice estava longe de se assemelhar à gadanha monumental do Ceifador Sinistro, mas era imponente o suficiente para fazer brilhar os olhos dos curiosos. “Zero bala, hein?”, comentou um deles.

O desfile dos concorrentes – eram seis, afinal – aconteceu com horas de atraso, quando já havia algumas centenas de pessoas na plateia (ou milhares, pelas contas otimistas dos organizadores). O primeiro candidato foi saudado por um grito de repulsa ao surgir com suas feições assimétricas e cabelos em pé. Mal conseguindo mascarar o desconcerto que a figura lhe causava, a Mulher Melão simulou a muito custo um esgar de pavor que Zé do Caixão teria pudor de incluir num de seus filmes.

Um a um, os inscritos – uns mais, outros menos lúcidos a respeito do que ocorria – desfilaram ao som de Thriller, de Michael Jackson, em referência ao videoclipe povoado por criaturas terríveis que marcou época nos anos 80. Todos se esforçaram para impressionar o público e submeteram-se ao “feiômetro” – uma moldura que dispara uma sirene assim que alguém posiciona o rosto dentro dela.

 

Passava da meia-noite quando o veredicto foi proclamado. O título de Homem Mais Feio do Brasil foi entregue a Glayson Vicente Ferreira, dono de uma calva e de um rosto macilento que lhe valeram a alcunha de “Crânio”. Comemorando saltitante, Glayson chegou a perder a compostura, e por um momento a expressão sinistra se dissolveu em um riso amistoso. Mas logo retomou a performance, enrolou os metros de linguiça recém-conquistados ao redor do pescoço e ergueu triunfante sua foice para as câmeras.

O detentor do título de 2013 subiu ao palco para passar-lhe a faixa, escancarando o sorriso novo que ganhou de um dos patrocinadores da festa. Vestia uma camiseta com a propaganda do consultório odontológico que lhe ofereceu o tratamento. Convocada ao microfone, apresentada como a melhor dentista de Minas Gerais, a benfeitora anunciou uma promoção no implante “pra todo mundo aqui hoje que está com o sorriso vago”. Só não se deu conta de que a oferta punha em risco o sucesso das próximas edições do concurso.

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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