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Goiano atômico

Em Fukushima, um brasileiro teve de fugir pela segunda vez do césio-137

Guilherme Pavarin

Às nove da manhã do dia 12 de março, o goiano Dimitri Ferreira saiu com sua minivan pelas ruas da cidadezinha de Namie, na província de Fukushima. Queria ver de perto os estragos causados pelo terremoto e pelo tsunami da véspera. No caminho, de menos de 10 quilômetros, deparou-se com postes no chão, árvores em farelos, pontes dilaceradas. Nas ruas, nem uma alma sequer. De tempos em tempos, um alarme avisava a chegada de outros pequenos tremores. “No Japão, estamos sempre preparados para uma catástrofe, mas até para um cético aquilo parecia o fim do mundo”, contou Ferreira, num português arrastado.

Não fosse pelo tom escuro da pele e pelos olhos redondos, Ferreira poderia se passar por um japonês. Chegou ao país no verão de 2002, aos 25 anos, para abrir duas escolas de idiomas com a japonesa Magume, a namorada que conhecera em Londres durante um curso de inglês. Em Fukushima, incorporou o jeito polido, o formalismo, as roupas e o gosto por tecnologia. Teve com Magume três filhas, que herdaram da mãe os olhos puxados, e ergueu uma típica casa japonesa, branca e quadrada, com quatro andares.

Seria uma vida invejável, não tivesse ele escolhido morar numa região sob a qual se encontram três placas tectônicas que teimam em se chocar e fazer tremer a terra. Com 8,9 pontos na escala Richter, o sismo que havia deixado seu vilarejo com a feição de uma cidade fantasma foi o maior da história do Japão e provocou a formação de tsunamis com até 10 metros de altura.

Ao voltar para casa de sua inspeção, Ferreira avistou sua mulher na frente do portão, com um pano enrolado na cabeça. “Rápido, Dimitri, corre para dentro!”, gritou ela. A televisão acabara de anunciar a suspeita de vazamento radioativo na usina de Fukushima Daiichi, a menos de 31 quilômetros dali.

O goiano não obedeceu à recomendação e voltou para o carro. Dirigiu até o maior supermercado da região e comprou tudo que havia nas prateleiras: dez pacotes de macarrão instantâneo. Depois, encheu o tanque num posto de gasolina distante. “Foi o que me salvou”, avaliou, meses depois. “Pelo caminho, não encontrei nenhum outro lugar para abastecer, estava tudo em ruínas.”

Fugir de um acidente radioativo não era novidade para Ferreira. Nascido e criado em Anápolis, a 48 quilômetros da capital goiana, ele viveu de perto o medo da contaminação por césio-137 que assombrou o estado de Goiás a partir de 1987. Na época, um aparelho usado para radioterapia foi encontrado por sucateiros num hospital desativado de Goiânia. Para ganhar uns trocados, desmontaram o equipamento em várias peças. Encantados com o pó fluorescente que encontraram ali dentro, distribuíram amostras para parentes e amigos, e o césio se espalhou por todo o estado. Foram reconhecidas oficialmente 14 mortes devido à contaminação por césio, embora a associação de vítimas alegue que o número é bem maior. “Lembro que eu e minha família evitávamos alguns caminhos e desviávamos itinerários, sempre com medo da radiação que vinha de Goiânia”, afirmou Ferreira.

 

Quase 25 anos depois, Dimitri Ferreira se viu de novo às voltas com o césio-137, desta vez devido ao vazamento dos reatores de Fukushima. Para fugir da radiação, lançou mão do know-how goiano para buscar rotas de escape alternativas. Enquanto sua família preparava as malas, foi buscar um professor de inglês que havia contratado menos de uma semana antes para uma de suas escolas, o camaronês Olivier Neba. Ele morava sozinho a 12 quilômetros da casa de Ferreira, e quase não falava japonês. Não foi difícil convencê-lo a juntar-se ao grupo que estava prestes a abandonar a cidade.

Voando pelo asfalto que ruía, Ferreira foi buscar as filhas, a esposa e a família dela. Partiram em três carros em direção a oeste. “Não pudemos pegar a rodovia estadual por causa do tsunami, e algumas alternativas na montanha estavam obstruídas por deslizamentos”, contou o brasileiro. “Eu queria ficar a uma distância segura da radioatividade, a mais de 50 quilômetros da usina.”

Por volta do meio-dia, receberam pelo rádio a notícia da explosão num dos reatores de Fukushima. Temeroso de que o vento pudesse trazer a radiação, Ferreira levou o grupo para uma área no sul do país. Durante três dias, dormiram dentro dos carros. Na hora das refeições, dividiam os dez pacotes de macarrão crus. Ao final do terceiro dia, com o estoque já esgotado, souberam de um ônibus que ia para Tóquio. Todos aproveitaram a oportunidade, exceto Olivier Neba, que havia feito contato com um amigo que estava indo ao seu encontro: “Demorei a sair do estado de choque, e não gosto muito de me lembrar daqueles dias”, contou o camaronês. “Oro todas as noites por Dimitri e sua família. Ele será sempre o meu chefe.” Neba mora hoje de favor na Prefeitura de Saitama.

Sem documentos e com pouco dinheiro no bolso, Ferreira não sabia para onde ir. Quando encontrou uma conexão de internet sem fio, falou com parentes e descobriu que o governo estava distribuindo domicílios em Nagoya, a mais de 100 quilômetros dali. O casal, com as filhas, se instalou então numa casa apertada no centro dessa cidade, e lá estão até hoje. Quem paga é o governo, e assim será até o começo do ano que vem. Mas a vida ali é difícil – por causa dos olhos grandes e do tom de pele de Ferreira. “Aqui há muita discriminação contra os brasileiros”, disse. Em Nagoya, seus conterrâneos têm fama de beber cerveja até tarde e deixar latinhas pelo chão – insulto grave naquelas paragens.

O goiano ficou desempregado por mais de cinco meses, até que conquistou a simpatia do dono de uma empresa local de tradução. Casado com uma brasileira, o empresário se impressionou com os bons modos de Ferreira e resolveu lhe dar uma oportunidade. Seu trabalho consiste em fazer traduções do japonês. “É difícil e recebo bem menos”, queixou-se. “Ainda assim, é um alívio viver onde não há risco de tremor.”

Namie, sua antiga cidade, continua vazia. Ela está dentro do perímetro de 25 quilômetros no qual havia risco de contaminação por radioatividade. Oito meses depois do desastre, porém, o governo local afirmou que já não há mais perigo e pediu aos moradores que voltassem. Para Ferreira, trata-se de um artifício para que as empresas possam demitir por justa causa os funcionários que não voltarem. Gato escaldado, ele garante que não põe mais os pés lá: “Se uma máquina de radiação já fez aquele estrago em Goiás, imagina o que essa usina não pode fazer.”

Guilherme Pavarin

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