esquina

Google boy

Ele é carioca, tem 20 anos e se apelidou de Cotangente de Pi

Cristina Tardáguila
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

Com uma mochila de náilon preta nas costas e fones de iPod espetados no ouvido, o carioca Fábio Dias Moreira, de 20 anos, não destoa em nada dos seus colegas da Pontifícia Universidade Católica do Rio. Ele abusa da combinação camisa pólo-calça jeans e costuma travar lutas irritantes com a lingüeta do tênis, que insiste em engolir a barra da calça. Os óculos de armação fina e uma espinha já espremida no rosto não o distinguem da multidão.

Jamais foi a um boteco encher a cara com amigos. Não vê um pingo de graça nos efeitos do álcool e não passa pela sua cabeça sair de casa depois das 8 da noite. Carrega no corpo uns 10 quilos a mais e nem por isso está pensando em praticar esportes. Odeia televisão, mesmo a cabo. Não sabe quase nada sobre Harry Potter. Não cogita fazer uma tatuagem, muito menos um piercing. Jura por Deus que nunca namorou pela internet. Não carrega um celular no bolso nem mantém uma página no Orkut.

Quando lhe perguntam sobre a mulher mais bonita do mundo, fica em silêncio por longos e intrigantes segundos. Depois, no tom sério de um velho e experimentado diplomata, sentencia: “Não vou citar nenhuma para não ser injusto com as outras”.

Ele substituiu as tradicionais experiências da adolescência por estudo. Estudou muito. Estuda, estuda. Primeiro, o colégio; em seguida, o mestrado em computação gráfica no Instituto de Matemática Pura e Aplicada; depois, o vestibular e as duas graduações (matemática e física) que freqüenta concomitantemente na PUC. Sim, Fábio começou o mestrado quando tinha 17 anos, antes de entrar na faculdade. Atualmente corre atrás do final da graduação para tirar enfim o seu primeiro diploma de pós-graduação.



De 1997 até hoje, já gastou pelo menos 2 440 horas com treinos e disputas de torneios nacionais e internacionais de matemática, computação e astronomia. No total, foram 37 certames, numa média de quase quatro por ano. Cálculos rápidos (realizados por ele, é claro) revelam que foram cem dias inteiros sem dormir, atravessando livros, gabaritando simulados e resolvendo questões em provas de alta competitividade.

Moreira abre o armário do seu pequeno quarto na Tijuca, zona norte do Rio, e aponta um saquinho bem usado de supermercado. Ali dentro estão as 33 medalhas que tirou das mãos dos maiores cérebros do mundo, 26 de ouro, três de prata e quatro de bronze. Motivo de orgulho, mas comedido.

Em março, Fábio Moreira foi a Tóquio participar pela segunda vez da International Collegiate Programming Contest, a maratona mundial de computação. Embarcou com a certeza de que ficaria entre os doze primeiros do mundo e de que seria o melhor latino-americano da competição. Havia estudado mais de 260 horas expressamente para esse fim. Voltou cabisbaixo, arrastando um 26º lugar do ranking mundial. Teve de engolir o “argentino com sorte” que se instalara no primeiro lugar da América Latina.

O resultado no Japão, entretanto, não empalidece a sua maior conquista em 2007. No dia 1º de março, ele venceu o Google Code Jam Latin America e passou a ser considerado o melhor programador latino-americano de 2007 pelo maior sítio de buscas do mundo. Não que a glória o satisfaça.

Fabinho nunca fez teste de QI, nem fará. Acha o teste “arbitrário”, adjetivo que costuma empregar toda vez que vêm à tona assuntos não quantificáveis. “Ah, horóscopo é arbitrário. Uma bobagem.” “Aniversário nem devia ser comemorado. É arbitrário demais, gente.” “E Natal? É a data mais arbitrária de todas. Podia ser qualquer outro dia!”

Como prova do horror a toda arbitrariedade, seu codinome na internet é CtgPI. Leia-se: Cotangente de Pi, que resulta da divisão de -1 por 0. Foi escolhido por um motivo: simplesmente não existe. Homem das ciências exatas, Fábio se nega a deitar filosofia sobre a escolha. Ele gosta do apelido e ninguém tem nada com isso.

Cristina Tardáguila

Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa e autora do livro A arte do descaso (Intrínseca)

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