anais da corrupção

A guerra dos tronos

Como a descoberta do bilionário esquema de propinas da Odebrecht esfacelou a relação entre o pai Emílio e o filho Marcelo

Malu Gaspar
Marcelo e Emílio, em foto de 2010: quando um mensageiro tentou entregar uma carta “muito carinhosa” escrita pelo pai, o filho não quis receber. “O que eu preciso dele são ações e coragem para assumir o que fez, e não de carinho”, respondeu
Marcelo e Emílio, em foto de 2010: quando um mensageiro tentou entregar uma carta “muito carinhosa” escrita pelo pai, o filho não quis receber. “O que eu preciso dele são ações e coragem para assumir o que fez, e não de carinho”, respondeu CREDITO: GERMANO LÜDERS_EXAME

A resiliência do filho parecia encher Emílio Odebrecht de orgulho. Embora fosse o presidente do Conselho de Administração da holding, a Odebrecht S.A., o pai estava afastado do dia a dia do grupo. Quando seu filho Marcelo foi preso, em 19 de junho de 2015, o pai descansava com os netos na fazenda da família em Itagibá, no Sul da Bahia. Voltou para São Paulo e assumiu o comando. Nomeou um presidente interino, Newton de Souza, seu aliado de muitos anos. Mas não o efetivou porque, assim como quase todo mundo na Odebrecht, tinha certeza de que o filho seria logo libertado. Fosse por isso, por estar muito ocupado administrando o caos em que se convertera a organização nas investigações da Lava Jato, ou porque não pretendia se expor entrando em uma carceragem cercado por repórteres e câmeras, Emílio chegava ao fim de setembro sem ter visitado o herdeiro. Não sabia como era o local onde ele estava, não lhe dera um abraço. Ainda assim, quando perguntavam sobre o humor de Marcelo, batia no peito: “Meu filho aguenta!!!”

Apesar do propalado orgulho, a relação dos dois era tumultuada. Os conflitos se repetiam desde que Marcelo era pequeno. Continuaram mesmo depois de ele se tornar um dos principais executivos do império familiar, e ainda mais quando atingiu o topo da hierarquia. Não eram poucas as ocasiões em que Marcelo criticava abertamente o pai e recusava suas orientações. Aos mais próximos, dizia que Emílio não era firme o suficiente no comando. Que era otimista demais e achava que os problemas se resolviam sozinhos. Irritava-se com a maneira como ele conduzia os assuntos, sempre procurando um consenso e minimizando dificuldades, a ponto de se omitir diante de questões graves. Dizia que o pai distribuía dinheiro demais a quem não merecia. Ressentia-se por não compartilhar de suas opiniões, achava que o velho não entendia seus raciocínios.

No final de setembro de 2015, enquanto os investigadores da Lava Jato tentavam trazer para o Brasil os dados das contas da Odebrecht no exterior, Emílio desembarcou em Curitiba no jato da empresa, acompanhado da mulher, Regina, da filha mais velha, Márcia, e da nora, Isabela, mulher de Marcelo. Era uma da tarde de sexta-feira quando ele entrou no pátio da prisão, o Complexo Médico Penal (CMP), nos arredores da capital paranaense, para visitar o filho pela primeira vez. Fazia três meses que Marcelo havia sido preso. Os outros executivos estavam reunidos com as respectivas famílias. Emílio juntou-se ao filho, mas a conversa foi breve. Naquele momento, os anos de conflito e disputa se fizeram sentir. Não havia calor para abraços apertados, choro ou conversa íntima. Não houve desabafos ou lágrimas. Só uma conversa tensa, entremeada de silêncios, observada disfarçadamente de longe por olhares curiosos, vindos de todos os cantos do pátio – uma área de mais ou menos 1 mil m2 em formato triangular, com um único arbusto no canto de um gramado simples e bancos distribuí-dos lado a lado rente às paredes brancas, protegidos por uma cobertura de telhas onduladas. Embora, naqueles momentos, cada um ficasse com sua respectiva família, era possível circular livremente entre os grupos. Em poucos minutos, Emílio deixou Marcelo com a mulher e foi conversar com os outros. Abraçou Alexandrino Alencar, que durante anos havia sido o responsável por administrar o relacionamento do grupo com Lula e o PT, travou um papo caloroso com Márcio Faria, ex-todo-poderoso presidente da área de Engenharia Industrial, que fazia obras e serviços para a Petrobras, e deu atenção especial ao número dois de Faria, Rogério Araújo, de quem se dizia na Odebrecht que estava a ponto de explodir.

Já em São Paulo, quando lhe perguntaram como havia sido o reencontro com o filho, Emílio respondeu apenas: “Foi péssimo.” De volta à cela, ao final da visita, o herdeiro encontrou um clima de constrangimento. Os companheiros censuraram a forma como Marcelo havia tratado Emílio. Márcio Faria, que perdera o pai fazia pouco tempo, lhe passou um pito. “Eu daria tudo para ter meu pai por perto num dia como hoje. E você fica aí, maltratando o seu.” Não importa o que dissessem, daquele dia em diante Marcelo sempre se referiria à visita do pai com um misto de mágoa e desdém. “Meu pai não veio aqui para me ver. Ele veio encontrar os caras dele.”



Quando Emílio entrou no pátio do CMP para ver o filho, Marcelo estava ansioso para resolver um assunto que o incomodava. “Meu pai, você tem que substituir Newton, ele não tem condições de liderar a empresa. O certo seria colocar três líderes empresariais: você pega um e põe na engenharia, um na de concessões e outro na industrial. E você conduz a organização.” Marcelo achava que o grupo estava agindo de forma lenta e acanhada. Não entendia por que os advogados não conseguiam avançar com as “nulidades” – como chamavam as falhas processuais com que pretendiam anular o caso jurídico contra o grupo – e se exasperava com o fato de que eles não cumpriam suas ordens. “Pô! Eu tô aqui preso, peço para fazer um negócio, no dia seguinte chega outro e diz que não estava sabendo!” Ele queria que a Odebrecht adotasse uma postura mais agressiva. Emílio, porém, preferia recuar.

Desde que Marcelo fora preso, o patriarca ocupava boa parte do tempo visitando banqueiros, políticos e donos de jornais. Começara o périplo com a certeza de que, assim como as outras, aquela crise seria rapidamente superada. “O que estão descobrindo agora é o que sempre reinou no Brasil”, dizia, certo de que todos entendiam do que ele estava falando. “Se forem criminalizar as empreiteiras, têm de criminalizar o sistema todo.” A reação dos interlocutores, porém, foi mostrando a Emílio que, desta vez, não seria tão fácil contar com o apoio dos aliados de sempre. Tinha a nítida sensação de que só o recebiam por educação. “Eles já formaram a opinião deles. Não querem ouvir o nosso lado”, constatava, com uma ponta de mágoa. Julgava-se credor de todos aqueles barões da mídia que, em algum momento, haviam recorrido a seu dinheiro ou influência para construir gráficas ou se safar de dificuldades financeiras. Pensava no quanto tinha “ajudado” aqueles políticos e figurões do Judiciário que, agora, se limitavam a concordar com suas queixas e lamentar a sorte da Odebrecht – mas escorregavam na hora de se comprometer com alguma ajuda concreta. “Se esse pessoal, que sempre soube de tudo, continuar nessa hipocrisia, eu estou perdido!”

Por isso chegou ao CMP convicto. “Marcelo, bater não adianta. Temos que parar de brigar!” O filho não aceitava. Para não discutir, Emílio se afastou e foi conversar com os outros funcionários da Odebrecht. Findo o horário de visitas, deixou o pátio do presídio sem se despedir do filho. Naquele dia, decidiu não voltar mais a Curitiba. “E vocês não me tragam mais nada de lá. De mim eles terão tudo o que precisam, mas não quero ficar recebendo pedidos e instruções”, ordenou aos advogados. “Não quero me emprenhar pelo ouvido”, explicou, usando uma expressão muito comum na Bahia para dizer que não se deixaria influenciar. Aos que tinham intimidade o bastante para perguntar, ele esclareceu: “Eu aqui represento minha família, meus executivos, os acionistas. Represento a organização, e a organização tem que continuar. Não vou abrir mão disso para atender A, B ou C.” Se alguém lhe trazia um pedido ou recomendação de Marcelo, nem deixava continuar. “Deixe lá o rapaz, que ele está perturbado.”

 

Para a Lava Jato, o filho, mais do que o pai, era a grande ameaça. Marcelo tinha sido mentor e articulador da estratégia para minar a operação. Mesmo negociando a rendição, mantinha um ar desafiador e resistente que contrastava com o do resto do time. Os procuradores conheciam a capacidade argumentativa e o gênio difícil, e tinham ouvido falar da disciplina e da resiliência que ele demonstrava na cadeia. O herdeiro da Odebrecht era alvo de ressentimento, mas também de temor e respeito. Não estavam lidando com um adversário comum. Por isso, na primeira entrevista para a delação, no início de agosto, decidiram desestabilizá-lo logo na saída.

Já sabiam, pelos advogados, que Marcelo não estava disposto a admitir os crimes relacionados à Petrobras. Sempre que tocavam no assunto percebiam que a questão era delicada. Os processos que ele enfrentava eram todos ligados a propinas pagas na estatal. Em sua lógica, se assumisse envolvimento com o petrolão, acabaria chancelando os argumentos do juiz Sergio Moro para prendê-lo e condená-lo. Muitos não entendiam essa teimosia, já que, fechado o acordo, isso não faria a menor diferença. Seria estabelecido um limite máximo para a pena, independentemente da razão e do número de condenações. A ligação da Odebrecht com o petrolão era o que justificava o processo de Marcelo ainda estar em Curitiba, e ele já fora até condenado a dezenove anos e quatro meses de prisão na primeira ação, originada a partir de sua prisão. Na pauta apresentada pelos advogados para a reunião, o petrolão vinha no final da lista. Era o que Marcelo esperava e para o que ele se preparara. Justamente por isso, os procuradores decidiram inverter a ordem.

“A gente quer saber do assunto da Petrobras”, abriu o procurador Roberson Pozzobon. Ele e outros seis colegas sentavam-se em uma fileira de cadeiras na sala da Superintendência Regional da Polícia Federal no Paraná, normalmente usada para aulas e seminários. Marcelo estava de frente para eles, ladeado pelos advogados. Usava “a fardinha do delator da Odebrecht”, na descrição de um dos presentes: calça jeans, camisa de botão e um blazer. Pozzobon reforçou: “A gente precisa saber da Petrobras.” Marcelo não vacilou: “Eu preciso inclusive esclarecer isso, porque essa delação é o que vai me absolver.” A frase surpreendeu os procuradores. “Como é que é? Você quer dizer que não sabia de nada?!”, perguntaram. Mesmo para quem já tinha alguma experiência com delatores, aquilo era bizarro. Os próprios advogados haviam incluído o petrolão na lista de anexos. Como então ele não sabia de nada? Marcelo confirmou: “Não, não sabia de nada. Com a Petrobras eu não tenho nada a ver. Eu não sabia dos negócios de Márcio e Rogério. Inclusive fiquei puto quando soube.”

Começou mal, pensaram todos. Mas não parou por aí. Para tentar convencê-los  de que nunca tinha ficado sabendo dos acertos com Paulo Roberto Costa, o primeiro delator da Petrobras, Marcelo começou a dizer que o próprio sistema das Operações Estruturadas, nome do setor de propinas do grupo, tinha sido montado para que as informações ficassem compartimentadas, e as contas sujas não contaminassem as limpas. Além de não engolirem a história, os membros da Lava Jato já tinham ouvido outros delatores envolverem Marcelo no caso. Os procuradores pressionaram, argumentando que era impossível ele não saber de nada. Começou uma discussão, e ele foi ficando nervoso. Até perder o controle e passar a berrar. “Não era para eu saber, não era para ter controle! Era um sistema de caixa dois, não tinha registro! Se Hilberto [o chefe do setor de propinas] tivesse feito do jeito que era para fazer, não era para ter tido tudo isso! Ele foi um estúpido! Eu dizia que não era para contaminar!”

O clima pesou. Marcelo apoiou-se sobre os joelhos e baixou a cabeça, derrotado. Os procuradores também estavam irritados. “Assim não vai dar. Isso não está dando certo. Vamos fazer uma pausa para o almoço. Vocês conversam e se acalmam. Depois a gente vê se continua ou não à tarde”, disse Eduardo Pelella, chefe de gabinete do procurador-geral Rodrigo Janot. Enquanto os procuradores rumavam para um restaurante japonês num bairro próximo ao da superintendência, Marcelo voltou para a cela com os advogados Adriano Maia e Theo Dias, e a irmã Mônica Odebrecht, também advogada. Contrariado e abatido, ele chorou. Com jeito, a irmã o convenceu de que não era hora de brigar. “Você tem que mostrar para eles a importância da sua colaboração. Se ficar dizendo que não sabe de nada, eles vão te excluir. Você tem que virar essa reunião. Essa reunião está muito ruim.”

Na volta do almoço, Marcelo parecia outro. Estava mais calmo e concentrado. Disse que tinha entendido as necessidades dos procuradores, e que reconheceria os crimes na Petrobras. Explicou o que eram a planilha Italiano e a pós-Itália, que se referiam aos ex-ministros da Fazenda Antonio Palocci e Guido Mantega, contou sobre o dinheiro para o PMDB e a compra das legendas para apoiar a candidatura de Dilma Rousseff, em 2014, e deu uma visão geral sobre o que seria seu relato. Apesar do cacoete incômodo de por vezes se referir a si mesmo na terceira pessoa – e de quase sempre começar suas respostas com um “Não, veja bem” que passava a impressão de que os interlocutores não estavam captando o que ele dizia –, o clima desanuviou. Só uma coisa Marcelo não admitia mesmo: a culpa pelas “ajudas” a Luiz Inácio Lula da Silva. “Eu nunca lidei com Lula. Os negócios de Lula, ele resolvia com meu pai.”

 

Ao final daquela rodada de reuniões, advogados da Odebrecht e procuradores da Lava Jato se reuniram em Curitiba para um balanço. Várias etapas haviam sido superadas. Era preciso definir que cara teria a delação. “Acho que podemos fechar um acordo, se vocês preencherem as lacunas que ainda faltam. Mas tem uma coisa”, explicou Pozzobon. “O que é?”, perguntou o advogado Maia. “O Emílio tem que entrar”, respondeu o procurador. Maia ficou muito irritado e, como em toda vez que isso acontecia, seu rosto se afogueou. “Aí não é possível. Assim vocês vão acabar com toda a liderança da empresa! A Odebrecht vai ficar acéfala! Nós vamos precisar do Emílio quando o acordo for fechado!” Dos 77 executivos envolvidos em delação, uma boa parte ainda estava exercendo suas funções no grupo. O afastamento em massa, de fato, criaria um vácuo no comando da empresa, na pior crise de sua história. Agora, porém, era meio tarde para pensar nisso. Teria sido um cálculo mais útil quando a companhia avançava publicamente e nos bastidores contra as investigações. Maia, que vinha trabalhando com afinco para manter Emílio longe da delação, perdeu o controle diante da exigência. “Ele não fez nada diretamente! O que ele contou não justifica isso!” Os procuradores tinham a resposta pronta. “Mas foi Marcelo quem disse que o Lula era assunto do Emílio. O que você quer que a gente faça, se o próprio filho entregou o pai?!”

A pressão sobre Emílio não partia só do Ministério Público. Da cadeia, ao ser informado do estágio das negociações, Marcelo mandava recados, pela irmã, de que uma eventual omissão do pai (ou do ex-presidente da Odebrecht Pedro Novis, que, segundo o próprio Novis confessaria mais tarde em delação, também negociara dinheiro de caixa dois para a campanha de Lula) poderia custar caro à organização. Marcelo temia ser responsabilizado também pelas transações com o ex-presidente, e isso ele não ia admitir. Em 23 de agosto, depois de uma reunião com a irmã sobre o relato que entregaria na semana seguinte, ele escreveu no seu diário:[1] “Um ponto que a meu ver pode comprometer nosso acordo é o fato de EO [Emílio Odebrecht], confirmando sua covardia e omissão, estar resistindo a colaborar. Com isso, fica um hiato nos nossos relatos, pois ficam faltando relatos sobre Lula. Isso vai nos complicar bem (e nos custar muito), podendo até impedir o acordo ou aumentar penas e multas. Isso sem contar que me deixa em uma situação difícil, sem ter como responder muitas vezes sem expor meu pai.”

Mas as divergências nos relatos não eram a única razão do conflito com o pai. Ou, como ele dizia, com “EO e sua trupe”. Desde a prisão, Marcelo pedia à Odebrecht que adotasse providências para proteger financeiramente sua família. “Preciso ter essa prioridade resolvida, sabendo que, não importa o que vier a acontecer, minha família estará segura”, escreveu ele no diário. Mas a empresa demorava a agir, alegando risco jurídico. Marcelo achava que era pura má vontade. Por isso, ameaçava: “Como continuo sendo preterido a tudo e a todos, só me resta, estando preso, três alternativas para que minha demanda de catorze meses seja finalmente priorizada por EO e sua trupe: greve de fome, o que, por motivos óbvios, não é o caso… até pela minha hipoglicemia; ‘ameaçar’ os que estão aí fora, enquanto pago por eles, como fizeram todos os executivos presos – óbvio que é uma alternativa que não encontra respaldo no meu caráter –; fazer boicote, não falar com os advogados, atrasando e perturbando tudo. Que é justamente o que vou fazer caso a missão da Mônica não seja imediatamente resolvida!”

Emílio definitivamente não iria se sacrificar. Depois de muita conversa, a tese de que a empresa precisava dele para sobreviver emplacou na força-tarefa. Nos bastidores, acabaram definindo uma fórmula especial para ele – que não foi colocada no papel até porque não era a hora, mas combinada em caráter preliminar. Emílio teria pelo menos dois anos após a homologação do acordo para começar a cumprir a pena, de modo que pudesse organizar o grupo para suportar sua saída.[2] Embora muito poucos soubessem exatamente em que termos a participação do chefe estava sendo acertada, o que se dizia na Odebrecht era que ele faria uma “delação light”, algo mais simbólico do que efetivo, uma vez que seus crimes eram antigos e muitos já estavam inclusive prescritos.

Marcelo não sabia de nada disso. Só nos últimos dias de agosto ele foi informado de que o pai decidira colaborar, e em que termos. Não gostou do que ouviu. Numa longa carta enviada à mulher, ao irmão, Maurício, e a Mônica, ele escreveu que os relatos de Emílio eram “além de tardios, incompletos, omissos e inverídicos”. E explicou: “Não apenas não relata tudo a que meu pai está exposto (já dei ontem à Mônica o ‘caminho das pedras’ para checar), como principalmente não fala tudo e não aborda corretamente o tema Lula. Meu pai não apenas está se expondo a no futuro ter seu acordo comprometido, como está postergando e comprometendo o nosso acordo. Esse atraso não apenas me deixa mais tempo na prisão, como aumenta o risco econômico-financeiro da organização. Além do que passa uma mensagem péssima para a força-tarefa, comprometendo nossa credibilidade, e é um mal [sic] exemplo para os demais integrantes que têm que colaborar.”

Nas conversas com Mônica, Marcelo argumentava que o pai sempre havia sido o dono da “relação político-estratégica” não só com Lula, Fernando Henrique Cardoso e José Eduardo dos Santos, de Angola, mas também com outros presidentes e parlamentares brasileiros e estrangeiros.

 

Quando Marcelo sentou-se novamente na sala da superintendência da PF para a reunião final com os membros da força-tarefa sobre os anexos de sua delação, um novo personagem chegava para as negociações naquele dia, o advogado Luciano Feldens. Ex-procurador da República e responsável pela negociação da Carioca Engenharia, Feldens havia sido recrutado pela advogada Joana Batista a pedido de Marcelo, que estava especialmente impaciente. Dias antes, após um encontro com os procuradores, ele tinha ouvido Theo Dias dizer que a Odebrecht esperava que ele, Marcelo, fosse solto no fechamento do acordo. Não gostou do “modo frouxo” como o advogado tratara o assunto, chamando de expectativa o que Marcelo queria que fosse um compromisso. Em sua visão, Dias e Maia não podiam ser ao mesmo tempo advogados dele e de seu pai. Havia um conflito de interesses, e talvez por isso seu pleito de ser libertado não avançava. Quando chegaram para a reunião na PF, eles foram informados por Joana Batista de que Marcelo tinha um novo advogado, que falaria em nome do cliente.

A missão principal de Feldens ali era extrair da força-tarefa o compromisso de soltar o empreiteiro. Ao longo das negociações, todos tinham sido avisados de que as propostas de pena e as multas de cada um só seriam debatidas depois que os relatos estivessem fechados. Mas Marcelo não queria esperar. Sem o compromisso da liberação, não assinaria nada, e queria que Feldens deixasse isso bem claro. Antes de a reunião começar, o defensor ainda tentou preparar terreno, avisando aos procuradores que iria pleitear a libertação do cliente. Foi desencorajado. “Aqui não é ocasião para tratar disso. Se você tocar no assunto agora, vai azedar tudo”, avisou Sérgio Bruno Cabral Fernandes, o promotor que atuava pela Procuradoria-Geral da República na Lava Jato.

Feldens, porém, não desistiu. Aproveitou um hiato em que um dos procuradores pediu licença para sair, porque tinha que pegar um voo, levantou-se e começou a falar, como se estivesse num tribunal: “Quero aproveitar para fazer um pedido: estou aqui pela Rafaella, por Isabela, por Marianna e por Gabriella. Para conclamar pela liberdade de Marcelo. Já estamos aqui há meses, ele já fez muitos anexos. Está na hora de considerar a necessidade de ele ir para casa.” Os procuradores se enfureceram. Levantando-se, Pozzobon cobrou Maia e Dias. “O que está acontecendo aqui?! Nós já não falamos sobre isso!?” E gesticulando, voltou-se para Feldens. “O senhor está louco?! Estamos aqui há meses, já discutimos isso, o senhor chega e quer voltar a esse assunto? Não é a hora, e Marcelo não vai sair. Acordo não é a chave da cadeia.”

Aí foi a vez de Marcelo se virar para trás e começar a gritar, com o dedo na cara dos advogados. “Vocês me enganaram! Disseram que eu ia sair na hora do acordo! Doutor Adriano e doutor Theo, vocês vão se ver comigo!” O quiproquó estava formado. Todos gritavam ao mesmo tempo, e Marcelo no meio de todos. “Eu fui enganado! Eu não vou fazer mais acordo nenhum!” Os procuradores, igualmente alterados, responderam: “Então não faça! Fique aí.” E deixaram a sala, escapando aos braços de Feldens, que tentava segurá-los. Enfurecido, Maia foi para cima de Feldens. “Você não tinha o direito de fazer esse aparte sem combinar comigo antes! Você está prejudicando o acordo e prejudicando Marcelo. Já tentamos isso e não conseguimos!” O novato revidou, já avançando na direção de Maia. “Você me respeite!” Foi preciso os outros intercederem para evitar que a discussão descambasse para o conflito físico.

Dada a situação, os procuradores encerraram a reunião ali mesmo. Não haveria continuação à tarde. “Vocês precisam se rearrumar”, disseram. Marcelo se descontrolou novamente, e acusou Maia: “Estou nessa situação por sua causa. Isso é culpa sua! Se você tivesse feito o que eu te disse, se tivesse levantado a mesa caso não tratassem da minha liberdade, nós não estaríamos aqui!” Mônica Odebrecht, que assistia a tudo, partiu em defesa do colega: “Isso não é verdade! Você sabe o quanto ele está se sacrificando por nós e pela empresa. Se continuar falando isso, vou romper com você!”

A briga na superintendência ainda ecoava na mente de Marcelo quando ele abriu seu caderno universitário, três dias depois, para escrever mais uma carta aos advogados e à sua mulher. Já normalmente calado, havia passado os últimos dias ainda mais quieto, ruminando o que acontecera. Quando enfim colocou seus pensamentos no papel, o tom era de amargura. “Gostaria de deixar claro que não acredito em nenhuma teoria conspiratória da organização contra mim, e nem que exista uma tentativa deliberada da organização para me prejudicar. Estou seguro, todavia, de que minha defesa não é prioritária. Estou caminhando, caso não mudemos o rumo do acordo e de minha defesa, para um cenário ainda mais catastrófico.” Por isso, ele havia tomado a decisão de retomar as iniciativas que tinham sido suspensas para negociar o acordo de delação: os pedidos de habeas corpus e as tentativas de anular as buscas e apreensões contra ele. “Não posso em absoluto correr o risco de fragilizá-la [a defesa] por conta de um acordo sobre o qual não tenho confiança, ainda mais do jeito que as negociações estão sendo conduzidas pela organização. E mais, não posso correr o risco de ser condenado em segunda instância [TRF] estando preso.”

O que sempre lhe diziam era que voltar a combater a Lava Jato no Judiciário significaria queimar pontes com o MP. Mas Marcelo achava que eles acabariam cedendo. Na carta, afirmava também que abandonaria o silêncio que adotara como regra desde o início das negociações e voltaria a responder às perguntas nos interrogatórios, reativando a metralhadora giratória. Dali em diante, ele chamaria a atenção para, em suas palavras, “algo que até agora evitei ressaltar”: que não era o único responsável pelos fatos. “Tudo o que fiz era do conhecimento e alinhado com várias outras pessoas na organização, em especial o CCA [Comitê do Conselho de Administração]”. Traduzindo: já que o pai e seus parceiros não se empenhavam em salvá-lo, ele faria com que provassem das agruras da Lava Jato, envolvendo seus nomes nas negociatas que estava prestes a revelar. “Este último ponto talvez até venha a demandar uma revisão nos meus relatos/anexos”, escreveu.

 

A informação de que Marcelo ameaçava uma revanche deixou a Odebrecht em polvorosa. Conforme os dias se passavam, Joana Batista e Feldens até conseguiram convencê-lo de que uma ofensiva contra a Lava Jato poderia sair pela culatra. O habeas corpus ficaria de lado. Mas não o revide contra o pai e a cúpula da Odebrecht. Duas semanas depois daquela briga, enquanto se preparava para retomar a discussão sobre os anexos com a Lava Jato, ele escreveu para a mulher e as filhas: “Já era esperado, e se eu permitisse que o pessoal conduzisse o acordo me deixando para o final, aí sim é que essa pressão em cima de nós seria insustentável. A pressão e o isolamento que estamos (e vocês, principalmente, estão) sofrendo vêm de todos aqueles que, falsamente, diziam que eu era prioridade. São essas pessoas que não querem que eu, em tese, priorize o meu acordo e saia daqui logo. Afinal, para essas pessoas é melhor atender à demanda por meu sangue da força-tarefa, me entregar numa bandeja de ouro como bode expiatório e troféu para a força-tarefa, em tese, facilitando o acordo para todos os demais.”

Assim como quando estava solto, Marcelo apostava no enfrentamento. Parecia não ter se dobrado às derrotas – ou, como preferiam alguns, não aprendera nada com elas. Estava certo ao dizer que era um troféu para a Lava Jato, e acertava ao supor que o MP precisava dele para fechar o acordo com a Odebrecht. Se não participasse, Marcelo poderia tumultuar bastante o processo, principalmente se trabalhasse para desmontar os testemunhos do pai e de outros delatores. Mas o herdeiro também tinha suas fragilidades. Sem a Odebrecht, não teria como pagar sua defesa. Também precisava que os outros assumissem parte dos crimes para ajudar a reduzir sua pena. Tinha, sim, muito a perder. Contudo, como sempre fez em todas as disputas que enfrentou na vida, iria até o final. “Se cedermos, serei, para conveniência de todas as trupes (EO + Hitler) [referência a Moro], o criminoso-mor da Lava Jato, e ficarei ainda uns bons anos em regime fechado, pagando por todos aqueles da Odebrecht que cometeram ilícitos, os quais continuam no seu bem-bom em liberdade.”

Embora falasse no plural, Marcelo tinha em mente uma única pessoa: Emílio. Naqueles dias, o médico da família, Mayanse Boulos, o visitou para exames de rotina e insistiu em entregar uma carta antiga do pai que ele se recusava a receber. O doutor garantiu que a missiva era “muito carinhosa”, mas ele não quis saber. “Eu disse a ele que o que eu preciso de EO são ações e coragem para assumir o que fez, e não de carinho.”

 

“Isso é um absurdo! Calúnia, isso não existe! É assunto meu, não admito que ninguém trate disso!”, protestou Emílio Odebrecht, com o rosto afogueado típico de quando se irritava. O patriarca passara o dia todo reunido com advogados e delatores, para a última etapa da negociação antes do fechamento das penas. Naquele início da noite, fechado numa sala do hotel Windsor Brasília com um grupo muito restrito de auxiliares, ele tomava pé das exigências de Marcelo para fechar o acordo de delação. Estava tudo no bilhete manuscrito em folha de caderno universitário que o herdeiro entregara horas antes, em Curitiba, à advogada Joana Batista: além da multa, o valor que Marcelo perderia para a Lava Jato também deveria ser coberto, assim como a promissória que ele e Isabela haviam dado em 2015 para a liberação do empréstimo da Caixa ao consórcio que construiria os apartamentos da Vila dos Atletas, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro. Queria, ainda, a garantia de que nenhum dos funcionários que o apoiaram  até ali fossem demitidos. Falava principalmente dos advogados que haviam ficado do seu lado, contra o time jurídico capitaneado por Adriano Maia.

À medida que os emissários de Marcelo iam informando suas condições, Emílio assentia com a cabeça. Foi só quando ouviu o último item que ele se alterou: o pai deveria compensar os acionistas da Kieppe, a holding formada pelos cinco filhos de Norberto Odebrecht, que tinha 62% da Odebrecht S.A., pela transação que fizera meses antes. A transação era a seguinte: como pagamento por um antigo empréstimo de 300 milhões de reais, feito para investir em suas fazendas, Emílio entregou aos parentes parte de suas ações da Odebrecht S.A., que, naquele momento, já não valiam quase nada. Para compensar, injetou 60 milhões de reais na Cardio Pulmonar, de sua irmã Ilka, e 15 milhões de reais na Riocon, de seu irmão Norberto – valores citados pelo próprio Marcelo em cartas à família e em petições à Justiça.

Já seria um assunto delicado em circunstâncias normais de temperatura e pressão. Era um dogma cunhado pelo velho Norberto que família e empresa nunca deviam se misturar. Entre os parentes e amigos próximos, Emílio nunca negara a transação, mas dizia que os irmãos e sobrinhos tinham mais era que estar satisfeitos. Além disso, todos sabiam que ele não deixaria os parentes à míngua. Socorreria quem precisasse, como sempre fizera. “A trupe de Emílio, que levou muito dinheiro nos últimos anos, tem que comparecer com algo”, Marcelo disse aos advogados, quando resolveu incluir a exigência em sua lista de condições para fechar a delação. “Isso não”, decretou Emílio, na conversa tensa daquela noite no hotel. O pequeno grupo de auxiliares testemunhou a reação indignada do chefe em constrangido silêncio.

A cena que os advogados presenciaram horas antes, na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, não tinha sido menos dramática. Joana Batista, os colegas Luciano Feldens e Geraldo Vilaça, além do presidente da Odebrecht Ambiental, Fernando Reis, haviam tomado um jato em Brasília bem cedo, de manhã, para levar a Marcelo a proposta de pena formulada pelos procuradores. Na véspera, dia 5 de outubro, no auditório da Procuradoria-Geral da República, a força-tarefa distribuíra os envelopes com as punições estipuladas para os delatores do grupo. Estavam todos em Brasília para aquele momento crucial das negociações. Marcelo era o único ausente, e era o único que não podia ficar de fora. Daí porque era imperioso consultá-lo.

“É muito pior do que eu esperava!”, disse Marcelo, lívido, pondo as mãos na cabeça. Mesmo já tendo sido reduzida em Brasília, nas primeiras conversas com a Lava Jato, a pena de Marcelo ainda era a mais alta de todas. Seriam dez anos de privação de liberdade, divididos em quatro etapas: depois de completar dois anos e meio de cadeia, ele ficaria mais dois anos e meio em regime fechado domiciliar. Então viriam mais dois anos e meio de semiaberto domiciliar (em que o condenado pode sair durante o dia para trabalhar) e o último período de dois anos e meio em regime aberto (só não se pode sair de casa nos fins de semana). Isso significava que Marcelo não poderia sair da cadeia no fechamento do acordo. Mesmo descontado o tempo que já tinha passado preso, ele ainda deveria ficar mais um ano e meio em Curitiba antes de ir para casa.

Nem nos cenários mais drásticos Marcelo imaginara aquilo. “Eu não esperava isso. Na minha cabeça, eu sairia para o Natal. Só que esse nem é o problema. Eu aguento. O problema é a família. Bela e as meninas não vão aguentar. Eu preciso ter tranquilidade de que elas vão ficar bem. Por isso, para aceitar o acordo, eu tenho algumas condições”, disse ele, estendendo o bilhete que seria lido naquela mesma noite para Emílio, em Brasília.

Todos tentaram consolá-lo. O acordo era ruim, mas não tinha jeito. Por mais que se esforçassem, não ficaria muito melhor. Luciano Feldens sugeriu que Marcelo tentasse uma autorização para passar o Natal com a família. Nestor Cerveró, ex-diretor Internacional da Petrobras preso em 2015, conseguira a permissão em seu acordo. Marcelo não quis. “Ir para casa e ter que voltar vai ser muito pior.”

 

Emílio Odebrecht chegou à superintendência da PF para a segunda visita ao filho, na última semana de março de 2017, preparado para uma conversa difícil. Fazia um ano e meio que ele e Marcelo haviam se visto pela última vez, no pátio do CMP. Emílio não esperava que, agora, a conversa fosse mais fácil. Preferia mesmo não ter ido a Curitiba, mas não tivera opção. Desde que fechara o acordo, a Odebrecht vinha trabalhando para cumprir as exigências do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Uma delas era a contratação de um profissional especializado para monitorar a implantação de medidas anticorrupção na empresa – o chamado “monitor independente”, que responderia apenas aos norte-americanos. Outro compromisso era demitir os 51 funcionários que não haviam sido autorizados a continuar trabalhando na organização. Entre eles, estava Marcelo. Diferentemente do Ministério Público brasileiro, que o proibia apenas de voltar a liderar equipes na empresa e de ter contato com agentes públicos, os norte-americanos exigiram que ele nunca mais voltasse. O encarregado de resolver a situação de Marcelo era o diretor de Pessoas e Organização, Daniel Villar, que decidiu visitá-lo na cadeia para explicar que ele seria desligado. Marcelo ficou sabendo e mandou um recado por seus advogados. “Digam a ele que não venha. Na Odebrecht que eu conheço, é o líder que desliga o liderado. Meu líder é meu pai. Se alguém tem que me demitir é ele.” E agora ali estava Emílio, fechado numa sala da PF, de frente para Marcelo. De um lado, o pai, ansioso pelo fim das brigas e ameaças. De outro, o filho que se sentia injustiçado e passara meses remoendo mágoas. Além das questões mal resolvidas da delação, as últimas semanas tinham sido de muito estresse justamente por causa do acordo com os Estados Unidos. Marcelo discordava do acerto feito pela empresa e estava revoltado com o fato de não ter sido informado de seu conteúdo com antecedência. Estava também indignado com a forma como fora retratado no relatório norte-americano, e achava injusto ter de ser desligado da organização, em suas palavras, “por algo que não fiz”. Portanto, queria que o texto do documento fosse modificado antes da audiência em que um juiz federal de Nova York homologaria o acordo.

Marcelo mandara seus advogados fazerem uma nota apontando os erros que ele via no relatório – em especial o trecho que afirmava ter sido ele, identificado apenas como Odebrecht Employee 1, quem, a partir de 2006, mandara criar estruturas financeiras secretas para pagar propinas a agentes públicos. Na nota, dizia que, em 2006, ele não dirigia a holding nem tinha mandado criar as offshores. Quem criara o esquema tinha sido Paul Altit, sob o comando de Renato Baiardi, então o chefe da construtora. Também afirmava que, ao contrário do que dizia o documento norte-americano, ele não aprovava absolutamente todos os pagamentos. “Eu virei, como previa, o criminoso-mor da Lava Jato, o grande mentor de um esquema que não começou comigo e que não era só eu que tocava!” Marcelo estava certo nesse ponto. Não foi ele quem inventou o pagamento de propina dentro da Odebrecht, e ele também não era o único que aprovava despesas. Mas bastava analisar a situação mais friamente para perceber que a mudança ou a supressão daqueles trechos não alteraria sua situação penal. Para o herdeiro, porém, era como se fosse a última chance de redenção.

No primeiro momento, a tarefa de “acalmar” Marcelo tinha sido delegada a Adriano Jucá, o advogado que assinou o acordo em Nova York, no final de 2016. Jucá foi até Curitiba se explicar. Disse que o documento em inglês era uma tradução do que diziam as confissões em português, que todos conheciam. O problema, segundo ele, havia acontecido quando os advogados norte-americanos transpuseram o texto para o inglês, adaptando o relato à sua maneira. O ex-chefe, porém, não aceitou a justificativa. “Você é um incompetente! Como é que você nem lê o que está escrito no documento que assina?!”

Quando Emílio chegou, a situação não havia melhorado. Na sala da custódia, a sós, Marcelo argumentou. “Meu pai, veja, o acordo americano mentiu em relação a mim. As pessoas não tiveram cuidado mínimo, me colocaram como o grande mastermind do esquema, e ainda escreveram coisas que não são verdade. Eu não posso ser expulso da empresa dessa maneira. Nem a força-tarefa me obrigou a sair.” Emílio tentou diminuir a importância do relatório norte-americano: “O acordo é só um detalhe, irrelevante para você ou para a organização.” Foi o que bastou para Marcelo explodir. Exaltado, ele se levantou e foi para cima do pai, gritando: “Este detalhe destruiu a organização e incriminou seu filho por muito mais do que eu fiz!” Ao ouvir os gritos, a escrivã que esperava do lado de fora entrou de pronto na sala, e encontrou o filho a ponto de agredir o pai fisicamente. Constrangido e abalado, Emílio foi para o corredor. Marcelo ficou sozinho, com a cabeça afundada entre os braços, conversando com a policial para se acalmar. Minutos depois, passado o susto, Emílio pediu para voltar. O encontro, porém, acabou de forma melancólica. O pai mal passou da porta, de onde fez a promessa que Marcelo queria ouvir, antes de dar meia-volta. “Meu filho, esqueça a demissão. Você vai ficar, isso é a palavra de seu pai. Seu pai vai resolver isso. E quem mentiu, se mentiu, vai consertar.”

Assim que chegou a São Paulo, Emílio convocou uma reunião com Newton de Souza e vários advogados da companhia. Contou a eles sobre a conversa com o filho – que ele mesmo definiu como “muito ruim”. Dizendo que Marcelo se sentia injustiçado, explicou ter prometido que corrigiria as mentiras do acordo. “Eu preciso e quero atender meu filho. Até porque considero injusto que ele pague por algo que não fez. Nós vamos fazer o que pudermos.” Os advogados tentaram alertar Emílio de que era praticamente impossível conseguir reverter um documento que o Departamento de Justiça norte-americano já havia até divulgado. A coisa era tão séria que o texto do acordo assinado em dezembro trazia até uma cláusula em que o representante da Odebrecht – Adriano Jucá, no caso – assumia o compromisso de nunca dar declarações públicas que contrariassem o que dizia o documento. Emílio não queria saber de nada disso. “A decisão está tomada. Marcelo não será demitido. Vocês, advogados, que acomodem isso.” Disse que deveriam olhar para a frente e esquecer os erros do passado. E, voltando-se para Jucá: “Filho, você vai resolver o assunto. Eu quero voltar a Curitiba em um mês, com tudo feito.”

Não aconteceu nem uma coisa nem outra. Emílio não conseguiu cumprir a promessa, porque a ideia foi rechaçada pelos norte-americanos, e Marcelo só seria demitido quase três anos depois. Pai e filho nunca mais voltaram a se ver.


Este texto é uma compilação de trechos do livro A Organização: A Odebrecht e o Esquema de Corrupção que Chocou o Mundo, a ser lançado neste mês pela Companhia das Letras.

[1] A autora teve acesso a trechos do diário que Marcelo Odebrecht escreveu na prisão.

[2] Emílio Odebrecht, bem antes de concluídos os dois anos depois da homologação do acordo, afastou-se do comando do grupo, como estava combinado, mas até hoje não começou a cumprir a pena de quatro anos, que será de dois anos em regime semiaberto domiciliar e dois em regime aberto domiciliar.

Malu Gaspar

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da editora Record

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