esquina

Guerra e paz

Orgulho bélico de uma sede da Copa

Gian Amato
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2018

No fim de março, o ex-presidente da Fifa Joseph Blatter criticou aqueles que propunham boicotar a Copa do Mundo em represália à crise diplomática entre a Rússia, o Reino Unido e outros países. “Vamos jogar o jogo em paz e pela paz!”, conclamou o cartola suíço no Twitter. Blatter não fala mais em nome da entidade – foi afastado em 2015 após a revelação de um escândalo global de corrupção –, mas traduz a sua vontade institucional. No que depender da Fifa, a Copa será uma celebração da paz entre os povos.

Só falta combinar com 1,3 milhão de habitantes de Níjni-Novgorod, uma das onze sedes do torneio, situada a 420 quilômetros de Moscou. Fundada em 1221, foi um centro comercial estratégico do Império Russo e mais tarde tornou-se um polo industrial. A cidade se ufana de ter sido a principal produtora de veículos militares e armamentos para o Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial (na época, era chamada de Górki, em homenagem ao escritor ali nascido). O circuito turístico local inclui atrações que celebram esse orgulho e estarão no roteiro de alguns dos 60 mil visitantes aguardados para a Copa.

Do estádio de Níjni-Novgorod é possível avistar a principal atração da cidade – o Kremlin, uma imponente fortaleza militar com treze torres de pedra que começou a ser construída em 1500. Chama a atenção o navio em tamanho natural fincado no sopé da sinuosa escadaria que leva da margem do rio Volga até a colina onde foi erguida a fortaleza, hoje um complexo turístico que inclui museus, salas de espetáculo e uma catedral.

No Kremlin há um pátio interno tomado por tanques de guerra, baterias antiaéreas, caminhões, aviões e outras relíquias militares fabricadas em Níjni-Novgorod. No dia em que a piauí visitou o Kremlin, crianças se divertiam subindo nos canhões e imitando rajadas de metralhadoras. Nas barracas de suvenires havia à venda réplicas de madeira das metralhadoras PPsh-41, usadas pelos soldados soviéticos na Segunda Guerra, e dos fuzis AK-47, fabricados às dezenas de milhões desde o fim da guerra. Alguns pais pagavam de 300 a 400 rublos (cerca de 20 reais) para fotografar seus filhos empunhando imitações das armas.

O orgulho que os habitantes de Níjni-Novgorod têm de seu passado bélico reflete, no fundo, um instinto de sobrevivência. A cidade foi um alvo estratégico para os alemães quando eles atacaram a União Soviética na fracassada Operação Barbarossa. A fim de destruir o polo industrial militar soviético, a Luftwaffe, a força aérea de Hitler, lançou sobre a cidade mais de 35 mil bombas ao longo de vinte meses, entre 1941 e 1943. Cerca de mil civis morreram. Dentre os alvos centrais estavam a Fábrica de Automóveis Górki (GAZ, na sigla em russo), que produzia os tanques T-60, a usina de aviões Sokol e a Dvigatel Revoliutsii (“motor da revolução”), onde eram feitos motores a diesel. O prédio de outra fábrica atacada – a Krasnoye Sormovo, um dos berços dos tanques T-34 – resistiu e hoje abriga um museu.

O primeiro bombardeio atingiu a cidade em novembro de 1941. As explosões sacudiram as janelas e assustaram a pequena Rimma Pleshakova, então com 7 anos. “Nós colávamos os vidros para que não se despedaçassem”, contou ela, hoje uma costureira aposentada com 85 anos. “Os vizinhos tinham um porão e era para lá que corríamos.” Pleshakova se lembra também das bombas que caíram por engano num parquinho onde ela brincava – o lugar hoje abriga o campo de treinos do Lokomotiv, um clube de futebol local. “Lembro de ter visto corpos pendurados nos galhos das árvores do parque”, disse. “Foi assustador.”

Ao falar da guerra, Pleshakova usa frases curtas e pausadas e assume um tom respeitoso. Evocou o Memorial da Chama Eterna de sua cidade, construído no Kremlin em homenagem às vítimas russas na Guerra Patriótica, como eles chamam a Segunda Guerra. “Perto do memorial, tudo o que tenho são lágrimas”, contou. A costureira mora na cidade baixa, num dos bairros criados para os operários das fábricas, e costumava subir a colina para passear no Kremlin com Andrew Sorvachev, seu neto. O menino se empolgava no pátio com os veículos do Exército Vermelho. “Eu aproveitava para subir nos tanques e nos carros grandes”, disse ele à piauí, duas décadas depois.

Quando cresceu, Sorvachev virou jornalista e trabalhou por quatro anos no F.C. Volga, outro clube de futebol local. Hoje é um sujeito magro de 28 anos de cavanhaque e brinco que trabalha como colaborador do Comitê Organizador da Copa da Rússia, na equipe de comunicação. Ele vai com frequência ao Kremlin, que fica na vizinhança de secretarias da prefeitura onde sua equipe costuma dar expediente, e encara com naturalidade as atrações turísticas de inspiração bélica de Níjni. “Não penso no tema militar quando vejo a exposição do Kremlin”, afirmou. “Isso é parte da nossa história, como qualquer outro monumento.”

Sorvachev reconheceu que os russos se orgulham de suas vitórias militares, mas negou que isso estimule o belicismo. “Os veteranos sempre dizem aos mais jovens que não deve haver outra Guerra Patriótica.” A avó, que sempre foi uma referência para ele, reforçou seu argumento. “As pessoas que vierem para a Copa não pensarão nada”, afirmou, taxativa, referindo-se aos marcos históricos da Segunda Guerra espalhados pelas ruas da cidade. “Os idosos respeitarão, mas os mais novos não têm interesse pela guerra.”

Vagamente assemelhada ao Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, a arena de Níjni-Novgorod foi inaugurada em 15 de abril com um jogo válido pela segunda divisão russa. Erguido no entroncamento dos rios Volga e Oka, o estádio custou cerca de 1,3 bilhão de reais e tem capacidade para 45 mil espectadores. Receberá quatro jogos da primeira fase, um das oitavas e outro das quartas de final. Em 21 de junho, será o palco de Argentina x Croácia. Na mesma data, comemoram-se 75 anos da queda da última bomba que a Luftwaffe lançou sobre Górki. Atual detentora do título, a Alemanha não jogará em Níjni-Novgorod.

Gian Amato

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