esquina

Haja fígado

Uma viagem no tempo com os católicos ortodoxos russos

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Passava do meio-dia quando Tchaikowsky Almeida abriu uma lata de cerveja. Estava diante de uma mesa comunitária, repleta de iguarias. Até a véspera, esse carioca baixo e sorridente cumpria um rigoroso jejum de quarenta dias. Como fiel membro da Igreja Ortodoxa, ele vinha se abstendo de qualquer álcool, carne, óleo, ovos ou derivados de leite desde a madrugada de 27 de novembro. Para os mais aguerridos, a privação atravessou todo o período de festas e comilança que marcam o mês de dezembro no Ocidente, e chegara ao fim. Era 7 de janeiro, dia de comemorar o Natal.

 

Tchaikowsky, por ser cristão ortodoxo, continua a celebrar o nascimento de Cristo pelo calendário juliano, estabelecido por Júlio César no ano 45 a.C. Por esse sistema, cada período de um ano tem onze minutos a mais do que o tempo que a Terra de fato leva para completar uma volta em torno do Sol. E por isso, a cada nova primavera aumenta a discrepância entre o calendário ortodoxo e a data regida pelos solstícios e equinócios. Em 1582, quando a diferença acumulada ao cabo de um milênio e meio já somava dez dias, o papa Gregório XIII resolveu colocar ordem na casa e instituiu o calendário que porta o seu nome – por ser mais preciso, foi gradativamente adotado em todos os países cristãos. Menos no maior de todos, a Rússia dos czares.

Refratária à mudança, ela só adotou o calendário gregoriano depois da Revolução de Outubro – quando o país já estava treze dias atrasado em relação à data observada no resto da Europa. Nada que o comissário Lênin não resolvesse com uma canetada: por decreto, quem adormeceu na república bolchevique no dia 31 de janeiro de 1918 acordou na manhã seguinte de volta ao futuro – 14 de fevereiro. A partir de então a Rússia passou a viver na mesma data dos seus vizinhos. Só que os ortodoxos, pouco afeitos à nova ordem comunista, decidiram manter as comemorações religiosas de acordo com o velho calendário. Para eles, o dia de Natal continua sendo 7 de janeiro.

Tchaikowsky e seu grupo são minoria de uma minoria. Segundo o censo de 2000 do IBGE, a Igreja Ortodoxa não conseguiu arrebanhar mais de 38 060 almas Brasil afora. E o ramal especificamente russo é ainda menor. “Não passamos de 700 em todo o país”, arrisca Tercílio Carlini – o primeiro brasileiro ordenado padre ortodoxo, em 1967. No Rio de Janeiro, onde ele reside, a estimativa é que não sejam mais de uma centena.

Os fiéis cariocas se reúnem na modesta igreja de Santa Zenaide, fincada numa sinuosa ruela do bairro de Santa Teresa. Sua cúpula dourada se destaca contra o céu, como se aquela ladeira levasse à própria Praça Vermelha. A igreja foi erguida no final dos anos 30 de acordo com os cânones da antiga arquitetura sacra russa. É o principal templo brasileiro da Igreja Ortodoxa filiada ao Patriarcado de Moscou.

A celebração do Natal deste ano foi comandada pelo padre russo Vassily Gelevan, com o auxílio de dois acólitos brasileiros, barbados como ele. O pequeno grupo de uns quarenta fiéis acompanhou o ritual quase sempre de pé na pequena nave de não mais de 50 metros quadrados. Entre eles, vários brasileiros convertidos, sobretudo jovens descontentes com os rumos do catolicismo romano ou encantados com o formalismo da liturgia ortodoxa. Sob uma atmosfera carregada de incenso, o ritual é celebrado numa mistura de português e eslavo antigo, pontuada por trechos cantados por um coro de três mulheres e um homem.

A conversão de Tchaikowsky Almeida, que deve o prenome a uma idiossincrasia do pai apaixonado por música erudita, tem raízes mais carnais do que propriamente espirituais. Na época em que frequentava a Associação Cristã de Moços conheceu uma jovem que estudava russo. Foi paixão à primeira vista. A pretendida, viria a descobrir, é filha do padre Tercílio [a Igreja Ortodoxa Russa permite a ordenação de casados]. Daí a converter-se e casar-se foi um pulo. Hoje, o técnico em informática dedica seu tempo livre ao estudo e à divulgação da ortodoxia. É dele a maior comunidade do Orkut voltada ao tema, com cerca de 1 250 membros.

Na manhã de 13 de janeiro, último dia do ano segundo o calendário juliano, os cristãos ortodoxos se reuniram para celebrar o encerramento dos festejos de Natal aos pés da estátua do Cristo Redentor. A cerimônia reuniu sacerdotes de outras igrejas católicas não romanas, como as de filiação grega, polonesa e sírio-libanesa.

Presente à cerimônia, o vice-cônsul Sergey Sapozhnikov, dono de traços inequivocamente eslavos e vasta bigodeira ruiva, contabilizou o tamanho diminuto da comunidade de compatriotas que moram no Rio. “Apenas cerca de 270 russos residentes na cidade estão registrados no consulado”, contou ele, “e em todo o Brasil o numero não passa de 3 mil.”

No último dia do calendário juliano, não é incomum que russos – mesmo os não religiosos – desfrutem de um repeteco de Réveillon com a família e amigos. Enquanto aguardava a comunhão aos pés do Cristo, a professora de russo Elena Tseluiko, radicada no Rio desde 1958, contou que não costuma perder a ocasião de erguer um brinde com o filho à meia-noite do dia 13 de janeiro – ela com vinho, ele com vodca. Aos 68 anos, a vida dupla dos ortodoxos começa a soar-lhe pesada para o fígado. “Já temos que enfrentar duas Páscoas, dois Natais, dois Anos-Novos… Há que saber administrar”, ensina.

Caso os descendentes de Elena cultivem a tradição de celebrar as festas de fim de ano de acordo com o calendário juliano, seu Natal sofrerá novo ajuste dentro de 89 anos. Para compensar o atraso que continua a se acumular, a data de nascimento de Jesus Cristo, a partir de 2100, passará a ser comemorada no dia 8 de janeiro.



Bernardo Esteves

Repórter da piauí, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)

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