esquina

Hamlet é pinto

Um bom velhinho vai muito além do hô-hô-hô

Érica Georgino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

A aluna Simone Cardoso está atrasada. O professor, Donizetti Gonçalves, severo, espera por ela na calçada. Sem perda de tempo, descem os degraus até o subsolo do prédio e entram no que é o escritório de um modesto apartamento do bairro de Perdizes, em São Paulo.

Ofegante, Simone pede desculpas – não praticou os exercícios respiratórios em casa nem trouxe a roupa adequada para a aula –, engata uma conversa de cerca-lourenço – o marido, as crianças, a dificuldade de fechar as contas – e finalmente põe o dedo na ferida:

– Será que vai dar certo comigo? Assim, mulher? Será que as pessoas não vão ficar zangadas?

Como um mestre kung fu de televisão, o professor lhe diz:

–  Se acalma um pouco. Quer uma água fresca?

–  Tomei uma Coca gelada no caminho.

–  Coca-Cola não pode quando você estiver trabalhando. Lembra o que eu te disse? O doce gruda nas cordas vocais e você não consegue impostar a voz.

É um ponto importante. A aluna abre o caderno e toma nota. Aproveitando, tira da bolsa o cartão de visitas que mandou fazer: “Papai Noel para lojas, feiras e eventos em geral”. O mestre aprova e tenta tranquilizá-la:

– Eu já te disse que esse é um trabalho que não tem sexo. O importante é assumir o bom velhinho.

Simone respira fundo. De fato, no seu caso os desafios não são poucos: ela é morena, tem 32 anos, não passa de 1,60 de altura e, lástima, seu figurino é quase de sílfide – a angústia a consome. Certo, ela precisa muito complementar o salário que ganha trabalhando numa instituição beneficente, mas vive um dilema e está a um passo de desistir.

Impávido, o professor abre um caderno de anotações e começa a argumentar: a) desde segunda-feira, seis pessoas o procuraram atrás de Papai Noel; b) em Alphaville, a proposta foi de 1,2 mil reais por meia hora de trabalho na noite de Natal; c) uma empresa oferece o mesmo valor por um profissional que se desloque até Atibaia, a meros 65 quilômetros da capital; d) no bairro do Jabaquara, a coisa soa ainda melhor: quatro horas diárias de trabalho, entre 4 e 24 de dezembro – “Quer saber quanto é a diária?”, pergunta. “Quinhentos e cinquenta reais!”

Caso encerrado, fecha o caderno e põe a mão na massa: “Hoje a gente vai começar a receber o personagem.”

 

Donizetti Gonçalves, também conhecido como palhaço Pirulito, tem quase três décadas de experiência como Papai Noel. Encarnou-o pela primeira vez em 1982, num momento de grande urgência. Estava animando a festa de fim de ano numa escola quando a diretora, em pânico, veio lhe dizer que o velhote contratado tinha dado o cano. Pirulito agiu feito um raio. Pegou seu estojo de maquiagem e pintou as sobrancelhas de branco. Sentiu-se seguro. Então rasgou um pedaço de veludo branco e se aplicou uma barba. A felicidade das crianças era tanta que elas nem perceberam que Papai Noel ficou segurando o queixo a tarde inteira. Não largava nem para fazer “hô, hô, hô”. A cola improvisada não deu conta do recado.

Aos 46 anos, Gonçalves nada tem de velhinho, ao contrário. Sua energia deve fazer inveja a muito jovem indolente. Multitarefa convicto, além de encarnar Pirulito e Papai Noel, Gonçalves também se dedica ao ramo pedagógico. No site de sua empresa, oferece cursos de mágica, barman, pintura de rosto, gestão de eventos, narração de histórias e por aí afora – sua extensa lista compete com a da Casa do Saber. Para 2010, planeja inaugurar uma TV online.

Nada bate o curso de formação de Papai Noel nesta época do ano. Por 150 reais – parcelados em 12, 15 ou 18 vezes no cartão –, o aluno tem direito a cinco aulas presenciais, com duração de duas horas e meia cada. Do currículo constam lições de avigoramento, dicção, expressão facial e corporal, diálogo com crianças e pílulas de psicologia. No final, está-se com um diploma na mão.

Desde a primeira aula os alunos devem ir vestidos de Papai Noel, um modo de começar logo a “aceitar o personagem”. E por isso é que foi grave a falta de Simone, que veio à paisana. É como um aluno de geometria que chegasse para a aula sem régua e compasso. Ela terá de suar em dobro.

 

Em termos de criatividade pedagógica, Gonçalves é quase um Paulo Freire. “Imagina que eu te sequestrei”, ele diz. “Coloquei você dentro de um carro, te amarrei e prendi dentro de um quarto escuro.” É o primeiro exercício. Simone permanece imóvel, mãos atadas e olhos fechados, expressão tensa, dolorida.

Gonçalves deixa o relógio correr cinco minutos de angústia e de súbito estala os dedos (é para desfazer a ilusão):

– O que você sentiu?

– Medo. Vontade de chorar.

– Vamos treinar mais isso.

A ordem agora é para que Simone fique furiosa e, da fúria, aos poucos, chegue ao riso. Ela tenta, mas é incapaz de atingir o nível bíblico de raiva que Gonçalves julga apropriado. Ele sugere:

– Lembra de alguém que você não gosta. Imagina que essa pessoa te chamou de feia, gorda, que te humilhou, que você ficou com vontade de bater nela. Vai, bota raiva nisso aí.

Vai funcionar. Simone franze as sobrancelhas e fica corada. De punhos cerrados, está prestes a botar a boca no mundo… Gonçalves corta, reconduz a expressão dela à suavidade e daí a uma gargalhada. “Tudo isso é pra aprender controle emocional”, explica. “Assim você vai saber desmontar a pessoa quando ela disser que você não é o Papai Noel.” Sem receio de piorar a insegurança da aluna, ele sintetiza:

– É difícil, eu sei. Papai Noel é a última escala da atuação. Ele precisa seduzir apenas com o olhar.

Envelhecimento é o tópico seguinte. É indispensável saber andar, sentar, tossir e pigarrear como uma pessoa de idade. Para exemplificar, Gonçalves envolve os dentes com os lábios e, simulando uma boca banguela, solta algumas frases de octogenário bondoso: “Como vai?”, “Tudo bem?”, “Você vem sempre por aqui?” Ele recomenda que a aluna se exercite com a leitura em voz alta de qualquer texto. Quinze minutos diários e estará apta.

A aula se encerra com exercícios faciais: cara de alegre, cara de surpresa, cara desconfiada, cara triste, cara em suspense. Simone faz, mas continua em dúvida quanto ao seu potencial. O professor dá uma força: “Na hora da entrevista, você diz assim: ‘Eu sou Simone, mas viro Papai Noel.'”

Gonçalves calcula já ter formado mais de 200 alunos e tudo indica que não lhes faltará trabalho. Em 2006, os Correios receberam cerca de 500 mil cartas endereçadas a Papai Noel. Em 2008, esse número dobrou. Foram exatamente 1 078 711 cartinhas.

Jovens, esqueçam as opções profissionais do momento: melhor que webdesigner, melhor que estilista, melhor que cineasta, carreira de futuro, mesmo, é Papai Noel.

Érica Georgino

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