esquina

Hasta la victoria!

Um outdoor marxista encravado entre dois templos de consumo cariocas

Paula Scarpin
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Ao avistar a equipe fixando o outdoor, um senhor de fronte calva e cabelos longos presos num rabo de cavalo se aproximou, com um frozen yogurt em punho. “Está ficando bonito, pessoal!”, gritou com um forte sotaque castelhano, assustando o rapaz trepado no alto da escada. Já passava das 22 horas, mas o uruguaio Luis Acosta, professor de filosofia na UFRJ, chegara a tempo de monitorar a operação. Com uma vassoura, o funcionário estava espalhando cola para fixar a 12ª das vinte folhas necessárias para cobrir um painel com 27 metros de largura por 5 de altura.

Quem passou por ali na manhã seguinte encontrou a obra concluída: sobre um fundo com prédios em tons de amarelo, laranja e vermelho, destacavam-se, na contraluz, silhuetas de trabalhadores empunhando enxadas e picaretas, além de uma mulher erguendo um bebê. Ao centro, havia um grande punho cerrado acima da frase “Trabalhadores do mundo, uni-vos!!” – a convocação final do Manifesto Comunista de Karl Marx –, escrita numa tipografia que imitava o alfabeto cirílico. No canto direito, jazia discreta a logomarca da associação dos docentes da universidade, a ADUFRJ.

O maior outdoor que o Rio de Janeiro já conheceu não anuncia carros, lingerie ou empreendimentos imobiliários. Seu objetivo é divulgar congressos, greves e palavras de ordem do movimento sindical. O enclave marxista fica numa movimentada avenida de Botafogo, num de dois caminhos possíveis para quem vai da Zona Sul em direção ao Centro. Está estrategicamente localizado entre dois templos do capitalismo: os shoppings Rio Sul e Rio Plaza.

Vice-presidente da Associação de Docentes, Luis Acosta é responsável pela gestão do monumental outdoor, que fica no quarteirão do campus da UFRJ na Praia Vermelha. Militante desde a juventude, Acosta participou do movimento estudantil durante a ditadura uruguaia e se lembra saudoso das madrugadas em que colava cartazes com palavras de ordem nas ruas de Montevidéu. “A cidade é um lugar a ser ocupado pelos trabalhadores, mas ela está sendo mercantilizada, e os murais são só para publicidade”, lamentou.

Admirador das artes plásticas, o professor decorou seu gabinete com a reprodução de um autorretrato de Frida Kahlo. Para ele, a causa política não deve ser dissociada do compromisso com a estética. “Tem que ser uma coisa bonita, não pode sujar a cidade.” Quando a ADUFRJ encomendou ao artista gráfico Marcelo Ment a confecção do outdoor fixado na noite de 18 de março, o próprio Acosta lhe recomendou que buscasse inspiração no realismo soviético.

A obra, uma homenagem ao Dia do Trabalhador, foi concluída em abril de 2012 pelo grafiteiro, mas está sendo reaproveitada este ano porque os professores não tiveram tempo de pensar num novo outdoor. O último, que convidava para um congresso realizado há dois meses, já estava parcialmente destruído.

A chuva não tinha dado trégua na noite do dia 18, mas os professores telefonaram várias vezes para a Grafic, empresa contratada para produzir os cartazes, implorando pela troca. Quando o tempo estiou, por volta das 20 horas, uma equipe saiu da sede da gráfica em Anchieta, subúrbio carioca, para resolver a pendência. Paulo Miranda, dono da empresa, trouxe consigo três empregados: um motorista, um auxiliar e um funcionário desprovido de qualquer sentimento de vertigem, que sobe a escada extensível montada sobre a carroceria da Kombi.

 
Até outubro de 2010, o muro onde hoje está fixado o outdoor sindical era suporte para um letreiro de neon amarelo em que se lia “Canecão”, nome de uma das casas de shows mais populares do Rio. Em mais de quarenta anos de funcionamento, seu palco recebeu praticamente todos os nomes relevantes da MPB, além de atrações internacionais como Miles Davis e Billy Paul.

Igualmente longeva foi a luta judicial da UFRJ, dona do imóvel, para reavê-lo. Por julgar injusto o valor do aluguel, estimado em 200 mil reais mensais, o administrador do Canecão Mario Priolli pagava um valor inferior e acumulou uma dívida milionária. Uma medida judicial deu ganho de causa para a universidade em 2010, mas o espaço está fechado desde então. “Queríamos botar para funcionar, mas tem equipamentos do antigo ocupante que precisam ser retirados e algumas estruturas estão deterioradas e oferecem riscos”, explicou Luis Acosta.

Assim que a UFRJ recuperou o acesso ao imóvel, a Associação de Docentes tratou de usar o painel onde ficava o letreiro do Canecão para exibir informes importantes para os companheiros de luta. A primeira mensagem era uma defesa da democratização do Canecão. Inexperientes, os professores encomendaram à Grafic um outdoor de tamanho convencional, sem antecipar que ele ocuparia apenas um quarto do espaço disponível. “Era um cartazinho, ficava perdido ali no meio”, contou Paulo Miranda ao lembrar-se do episódio.

O outdoor seguinte trouxe a reivindicação de investir 10% do PIB na educação – um clássico do movimento sindical. Por orientação da gráfica, foi encomendado já com as atuais proporções colossais. Em seguida veio uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher, em março de 2012, com a reprodução de um desenho da artista plástica chilena Verónica Ytier. É também dela o mural que serviu de manifesto para a greve de mais de 100 dias que os professores fizeram no ano passado.

Sensibilizado pela causa, Miranda faz um desconto generoso para a ADUFRJ: cobra 2 500 reais pela impressão e fixação do outdoor dos professores, cerca de 60% do que pediria por um cartaz comercial com as mesmas dimensões.

No ramo há quinze anos, a Grafic viu seu negócio minguar depois que o prefeito Eduardo Paes baniu outdoors do Centro e da Zona Sul do Rio. Como têm “finalidade cultural e educativa”, os painéis da ADUFRJ não se enquadram na proibição. Paulo Miranda achou justificada a exceção aberta para o espaço gerido pelos professores. “Esse outdoor traz beleza e arte. É um brinde para a cidade.”

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da revista desde 2007 e diretora da rádio piauí

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