esquina

Hemingway do subúrbio

Os jabes de um taxista escritor

Breno Barreto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Adalto é moreno, tem 65 anos, pernas finas e braços musculosos. O brinco na orelha esquerda está escondido por um capacete. Com a guarda levantada, protege-se dos jabes de um iniciante na academia do bairro da Glória, no Rio de Janeiro, enquanto movimenta os pés ágeis, buscando o centro do ringue. Do outro lado das cordas, enfaixando os punhos com uma bandagem elástica, o taxista Dedé Mendonça − 52 anos, 71 quilos, três acima do ideal − grita com voz ofegante: “Encurta miúdo, Adalto. Vai pra dentro dele.” Dedé se prepara para a sua vez de “fazer luva”, que é como os praticantes do boxe chamam a luta-treino.

Talvez porque Adalto não tenha lhe dado ouvidos, ele retoma o assunto que interrompera. “Pode ter certeza. Se os marcianos desembarcassem na Terra, no relatório deles dois itens certamente entrariam: a Coca-Cola e o Muhammad Ali. Esse cara é o símbolo perfeito do super-homem nietzschiano.” Ele se afasta dois passos até a mochila e retorna com um protetor de boca transparente entre os dentes. “Você já parou para pensar em todos os intelectuais e artistas que lutaram boxe? O Hemingway, o Sartre, o Miles Davis… O boxe é um xadrez mental e uma arte dramática, como a literatura.” O cronômetro apita quando findam os três minutos. O round de Adalto termina e Dedé se dirige para o ringue com postura de combate. “É por isso que eu sou uma espécie de Hemingway do subúrbio.”

Elder Antônio de Mendonça Figueiredo é o nome de Dedé, apelido franqueado apenas à família e aos amigos. Para o resto, Elder é o Vário do Andaraí, autor de dois livros, um dos quais levou o segundo lugar no Prêmio Jabuti de 2010, na categoria Contos e Crônicas. Para quem mora no Rio, não é improvável que o motorista já lhe tenha atravessado o caminho. De cabelo grisalho arrepiado e voz macia, Elder dirige seu táxi desde 2008 pelas madrugadas da cidade, e não raro seu papo acaba enveredando pela filosofia e a literatura. Se a conversa é boa e a viagem longa o bastante, ele pode até brindar o passageiro com um dos exemplares estocados no porta-luvas. Invariavelmente o passageiro se surpreende e acaba a corrida com uma boa história. “As pessoas entram no táxi esperando que eu fale sobre o tempo e se assustam quando menciono Hegel ou quando ouvem Rosa Passos.”

 

Dedé estudou no Santo Agostinho, um dos melhores colégios da cidade, e cresceu na Zona Sul carioca. O pai, oficial da Marinha, casou-se com uma moça oriunda de uma rica família de Alagoas − o trisavô de Dedé foi barão e senador; seu avô, um poeta parnasiano de pouco renome. Sua infância, portanto, teve conforto de sobra, e a ela − esperavam seus pais − se sucederia um futuro sólido e bem-sucedido. “Acontece que desde muito cedo me viam como o bufo da família, e isso me afastou daquele destino planejado, e da própria família.” Preterido, Dedé passou a trilhar um caminho profissional errático, mais de acordo com seu temperamento.



Estudou composição e regência na UFRJ, ensaiou uma carreira de jogador de futebol, foi analista de sistemas, cuidou de um sítio de limões e, finalmente, teve um quiosque na praia de Copacabana. Àquela altura, desinteressado por ocupações tradicionais, decidiu vender o quiosque e perseguir um objetivo desejado havia tempo. “Resolvi preencher minha lacuna filosófica e literária. Minha grande ambição era entender as bases da filosofia, que, por sua vez, é a base de tudo.” Abandonou o trabalho e passou quatro anos enfiado nos livros, “como um urso em hibernação”.

Em 2006, enquanto cumpria sua meta de erudição, Dedé recebeu o e-mail de uma prima do Canadá. Ela elogiava um texto seu e recomendava que ele se tornasse escritor. Fazendo graça, Dedé respondeu que já tinha até pseudônimo. “Se Machado de Assis era o Bruxo do Cosme Velho e Cervantes era o Manco de Lepanto, então eu seria o Vário do Andaraí.” Três anos depois, a conversa estava esquecida, mas restara o pseudônimo.

Já vivendo do táxi, Dedé decidiu escrever um livro, assinando como Vário do Andaraí. “Quando mandei aquele e-mail, nem refleti sobre o sentido do pseudônimo − foi instintivo. Hoje vejo como tudo se amarra: vário é um adjetivo que significa inconstante, inquieto, buliçoso, mas também diverso, diferente. Andaraí, por sua vez, é um bairro do Rio que, como eu, foi preterido. Ele está diminuindo, porque cada vez menos gente declara que mora no Andaraí. As pessoas preferem dizer que moram na Tijuca.”

Em 2009, Dedé já havia reunido as crônicas do que viria a ser seu primeiro livro: Máquina de Revelar Destinos Não Cumpridos. Mostrou-as ao ilustrador Guto Lins, com quem estudou no colégio, e o amigo as encaminhou para Maria Antonieta Cunha, ex-secretária de Cultura de Belo Horizonte, ligada à editora Dimensão. Encantada com os textos, ela decidiu publicá-los. Quando chegou a notícia do Jabuti, Dedé, então com 48 anos, ficou surpreso, embora não tão animado quanto se poderia supor. “Não é que eu não tenha gostado. O Jabuti me abriu portas, mas eu já tinha me desinteressado da ideia de uma carreira, mesmo literária. Se o preço para ser escritor for abrir mão do meu táxi e do meu boxe, recuso sem pensar duas vezes.” Para ele, a vida de taxista lhe permite viver em contato direto com as pessoas e escrever com liberdade. “Sei que meu texto está muito acima do que se faz por aí, mas prefiro ter dez leitores que vão guardar meu livro para reler dentro de um ano a dar entrevista na televisão ou ser convidado para feiras literárias.”

O segundo livro de Dedé, Passatempos, é, na opinião dele, bastante superior ao premiado. É esse título que ele volta e meia distribui aos passageiros e do qual fala com mais orgulho, como se o primeiro já nem existisse. “Hoje meu grau de desprendimento desse tipo de reconhecimento é total”, diz ele. Mas, pensativo, arremata em seguida: “O bufo da família ganhou um prêmio com o qual o avô poeta jamais sonhou.”

Breno Barreto

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