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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

A herança do samba

Os sonhos de Carnaval do bisneto de criação de Pixinguinha

Mari Faria | Edição 189, Junho 2022

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Eram as férias de verão, e o menino Igor da Rocha Vianna esperou a avó Ana se distrair para sair de bicicleta pelas ruas de Padre Miguel, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Na maior velocidade que uma criança de 6 anos poderia alcançar, pedalou até o bar de seu pai, José da Rocha Vianna, conhecido como Ney Vianna, famoso intérprete da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel. Ao ver que o filho viera sozinho para cantar com os bambas que frequentavam o bar, Ney pediu a um deles que levasse a bicicleta de volta, mas deixasse o menino.

Negro de pele clara, magro, alto, sorriso carismático e bigode farto, Ney ficou conhecido por ser o dono da voz potente e anasalada que conduziu a Mocidade no desfile de 1983 e também nos de 1985 a 1989. Na escola, ele dividiu por três vezes o microfone com a única intérprete mulher do Carnaval na época, Elza Soares. O destino de Ney se entrelaçou ainda mais com o da Mocidade quando, em 1989, durante a disputa final pelo samba do ano seguinte, ele morreu na quadra da escola, vítima de um infarto.

Igor tinha 10 anos. Vinte dias depois do enterro, o garoto estava na mesma quadra cantando na Estrelinha, a versão mirim da Mocidade. Dos nove filhos de Ney, ele é hoje o único que permanece ligado ao mundo dos tamborins. “Coloco o Carnaval às vezes na frente da minha mulher e do meu filho, pra você ver a minha doença, a minha maldição”, confessa.

 

A maldição do samba construiu uma mitologia no clã dos Rocha Vianna. Começa com o tataravô de Igor, o compositor Alfredo da Rocha Vianna, conhecido por Seu Vianna. Segue com o bisavô de sangue, o violonista e cavaquinista Léo Vianna. E culmina em outro “bisavô”, o irmão de criação de Léo, Alfredo da Rocha Vianna Filho, mais conhecido como Pixinguinha.

Os biógrafos dizem que o autor de Carinhoso adotou com sua mulher, Betty, apenas um filho, Alfredo da Rocha Vianna Neto. Mas Igor conta que Pixinguinha também criou seu avô Nailor da Rocha Vianna, filho de Léo. “Ele segurou a marimba de Nailor”, diz.

Árvore genealógica à parte, estudiosos da música conferem a Pixinguinha a paternidade do choro e do samba como conhecemos hoje. Seus arranjos e orquestrações teriam sido fundamentais para fazer o samba soar como samba, como diz um texto publicado no portal mantido pelo Instituto Moreira Salles, onde está depositado o acervo de Pixinguinha. Numa linha do tempo do site, consta que entre 13 e 14 anos o músico viveu um ano decisivo, com sua estreia em disco, como flautista do conjunto Choro Carioca, do qual Léo, seu irmão de criação, era um dos violonistas.

Quando Igor cantava na Acadêmicos do Tucuruvi, em São Paulo, o jornalista Chico Pinheiro ventilou a história de sua ascendência. Mas Alfredinho, o filho efetivamente adotado por Pixinguinha, havia cortado laços com a linhagem que daria em Ney e Igor. “Acho que foi por medo de alguém tentar reaver algo da obra do Pixinguinha, mas nunca fizemos isso”, afirma o cantor.

 

Igor Vianna abandonou os estudos às vésperas de fazer 16 anos, para ajudar a mãe com as contas da casa. De 1996 a 2002, trabalhou como faxineiro, office-boy, garçom, entregador de gás. De 2002 a 2005, dividiu-se entre variados empregos e os ensaios de escolas, como cantor de apoio. Em 2005, tornou-se cantor oficial da Escola de Samba Tradição e, depois, passou por 26 agremiações do Rio, São Paulo e Rio Grande do Sul. Ele está convicto de que, atualmente, é o único brasileiro a viver só de sambas-enredos. Ao longo do ano, comanda rodas de samba-enredo que, somadas a shows, sustentam sua família. Aos 42 anos, casado e pai de um filho, vive na Cidade de Deus, bairro na Zona Oeste do Rio.

“Quando falei pra minha mãe que não trabalharia mais de carteira assinada, ela me chamou pra conversar e pediu que eu não caísse nos erros do meu pai, que morreu por causa da cocaína”, conta Igor. Esse vício é uma sombra que paira sobre a velha boemia do samba. Mas a bebida também causou estragos, como à carreira de Pixinguinha, que passou por hiatos profissionais por causa do álcool. Igor conta que o que mais o assusta é a depressão: “Tomo meus remédios, que me ajudam – eles, meu grupo e meus orixás.”

Como o pai, Igor também é negro de pele clara. Mas é mais gordo, tem o nariz mais largo e os olhos bem puxados, que parecem fechar quando ele sorri. “Eu não tenho o mesmo registro vocal do meu pai nem toco os instrumentos como meu bisavô”, diz, e ri, quando se compara ao antepassado mais célebre: “Puxei o dom, mas não tenho a excelência. Em compensação, o único integrante da família que é a cara do Pixinguinha sou eu.”

A tradição familiar pode ser um tanto opressiva. “Eu não sou muito de falar disso, porque minha correria dentro do Carnaval já é muito difícil”, justifica Igor. A pressão de ser filho de Ney Vianna fez com que a Mocidade se tornasse, para ele, quase um tabu. Adulto, só entrou lá como compositor. “Eu tenho um bloqueio. Já ganhei três sambas-enredos da escola, inclusive o da homenagem a Elza Soares, mas só vou à quadra até a disputa final.”

No Carnaval deste ano, Igor foi um dos intérpretes de Mangangá, o samba do Império Serrano, campeão da Série Ouro, que reúne as escolas da segunda divisão da festa carioca. Em 2023, ele vai levar para a Sapucaí o samba da União da Ilha do Governador, que também desfila na Série Ouro. Mas o sonho de Igor é ser “a” voz de uma escola e ter seu timbre eternamente associado à agremiação – como ocorreu com Jamelão na Mangueira ou com Ney Vianna na Mocidade.

Enquanto isso a tradição familiar continua, com Arthur, seu filho de 12 anos, que puxou mais aos bisavós que ao pai. “Ele não quer saber de cantar. A paixão dele é a percussão”, conta Igor. Neste ano, Arthur tocou entre os adultos em cinco escolas, como a Acadêmicos do Grande Rio, campeã da primeira divisão do Carnaval de 2022.

Logo no começo da conversa com a piauí, Igor pediu para que a reportagem não desse ênfase a “essa coisa do bisneto”. “Hoje prefiro falar descendente”, disse. Descendência que pode ter peso de maldição, insistência de sina ou encanto de mitologia.