esquina

Hey, Dude

Em Londres, mulher-tapete celebra o Cara

Emilio Fraia

Não sobrou nenhum pino. Enquanto a gerente de vendas Lisa Jones, 25 anos, vibra e abraça as amigas, Will Russell, 31, aperta o botão da máquina e, sem remorso, invalida o strike. “Pisou na marca!”, avisa, fulminante. Lisa tenta se justificar, mas Russell se mostra irredutível: “Isso não é o Vietnã, dear. Isso é boliche, há certas regras”. O pessoal em volta ri. A frase é do filme favorito de Russell e das 500 pessoas que lotam as 28 pistas do Tenpin Bowling, no bairro de Acton, em Londres: O Grande Lebowski, de Ethan e Joel Coen.

Em 2002, o americano Will Russell e um amigo, Scott Shuffitt, 34, tiveram a idéia de criar uma festa para celebrar a comédia noir dos irmãos Coen. A primeira edição foi realizada na cidade dos dois, Louisville, Kentucky, num boliche cujos donos eram batistas. Segundo Russell, no local não era permitido beber ou blasfemar, “o que, convenhamos, atrapalhava. Afinal, no filme os personagens falam fuck (ou alguma variação) exatamente 251 vezes”. Ainda assim, apesar da compostura evangélica, os 35 amigos convidados para a maratona – que incluía a exibição do filme, concurso de fantasia e competição de perguntas e respostas inspirados no Grande Lebowski – se multiplicaram, e a festa acabou atraindo 150 lebowskianos ortodoxos. Um ano depois, a revista americana Spin indicava o festival como “um dos dezenove eventos mais legais do verão”. A terceira festa, em junho de 2004, juntou mais de 4 mil Achievers – ou Conquistadores – , como se autodenominam os fãs, numa das muitas piadas com que se divertem. Reuniões já foram organizadas em Seattle, Los Angeles, Nova York e Las Vegas, e neste mês de março, em Chicago, a festa comemora os dez anos de lançamento do filme.

O Grande Lebowski chegou aos cinemas na primavera de 1998 e foi um grande fracasso. Crítica e (algum) público se perguntavam que raio de história policial à la Raymond Chandler era aquela – são os próprios irmãos Coen quem reivindicam essa filiação. Em vez de um detetive, quem seguia as pistas e tentava desvendar o mistério era um hippie de meia-idade, desempregado, pacifista, ex-ativista político, fã da banda californiano-ecológico-antiguerra-do-Vietnã Creedence Clearwater Revival e jogador de boliche. Seu nome era Jeffrey Lebowski, ou melhor, The Dude, como preferia ser chamado: “O Cara”.

Interpretado por Jeff Bridges, Dude é um sujeito tranqüilo que passa boa parte do filme metido num roupão de banho, fumando maconha e bebendo white Russian, um drinque para destemidos à base de licor de café, leite e vodca. A paz do Cara é desafiada quando o confundem com outro Jeffrey Lebowski, um velho milionário cuja voluptuosa namorada foi seqüestrada porque deve dinheiro a um magnata da indústria pornô de Los Angeles. Para alegria de Russell e Shuffitt, o filme traz também uma gangue de alemães niilistas, uma marmota selvagem e aforismos sem limite ditos por um caubói de bigode e voz profunda. Verdades eternas do tipo “Um dia agüentamos a barra; no outro, a barra cai em cima da gente”.

O casal Sam Chase, 30, e Frances Macklon, 27, saiu de Brighton, no sul da Inglaterra, para vir à Lebowski Fest de Londres. Ele está vestido como uma grande fita K7. No seu lado A, lê-se: “Creedence Clearwater Revival”; no lado B, “No fucking Eagles music”, referência aos Eagles, banda que o Dude abomina. Frances está fantasiada de tapete. “É uma homenagem”, explica ela, por entre os mosaicos de camurça que emolduram o seu rosto. “No filme eles roubam o tapete da sala do Dude, mijam no tapete.” Dude é muito apegado a esse tapete e passará o resto do filme tentando recuperá-lo. Brandindo uma bola de boliche, Frances protesta: “Essa agressão não vai ficar assim, man!” (Mais uma frase do Cara, no caso, em alusão a um discurso de Bush-pai contra Saddam Hussein. O Grande Lebowski se passa em 1991, em plena Guerra do Golfo.)

 

Passa das onze da noite. O quiz, com perguntas do calibre de “Qual o número de pistas do Hollywood Star Lanes, o boliche do filme?”, está prestes a terminar, abrindo alas para o concurso de melhor fantasia. No bar, um imprevisto: o leite acabou. “Isso é realmente undude” (“anticara”), resmunga Frances Tapete. Sem leite, nada de white Russians. “Foram os irlandeses, bastardos!”, amaldiçoa Russell. “O gerente do boliche subestimou o fígado deles.” Uma correria ao supermercado mais próximo restabelece os estoques da bebida. “É, parece mesmo um encontro de fãs de Jornada nas Estrelas“, concorda Scott Shuffitt. “A diferença é que aqui nós temos mulheres e álcool, e ninguém fala palavras do tipo ‘klingon’.”

Esse culto, responsável pela sobrevida do filme, traduz o amor de gente como Russell e Shuffitt pelo personagem de Jeff Bridges. “O Dude é uma pessoa verdadeira, simples, sem máscaras. Põe a amizade acima do dinheiro e do poder. Ele é só um cara, mais nada”, explica Russell, no melhor estilo ONG. “Para muita gente, o Dude talvez seja um perdedor, porque não se importa com sucesso e dinheiro. Mas para nós ele é um herói. Um cara que não se vendeu ao sistema e não está trabalhando oito horas por dia numa empresa. O que ele quer é tomar banho de banheira, jogar boliche com os amigos e, de vez em quando, ajudar uma lady-friend a procriar. Não tem nada de errado nisso.”

O vencedor do concurso de fantasia ganha um troféu dourado com asas. O eleito é um grego caracterizado como o homônimo de Dude, o velho milionário Jeffrey Lebowski, na cadeira de rodas que usa ao longo de todo o filme. Antes do fim do evento, ainda dá tempo de um homem ficar nu em plena pista de boliche. “É por isso que eu amo essa festa!”, diz Shuffitt, quase emocionado. “Ela me lembra que eu sou apenas um cara tentando pegar o meu tapete de volta.”

Emilio Fraia

Emilio Fraia, jornalista e escritor, é co-autor, com Vanessa Barbara, do romance O Verão do Chibo, lançado pela Alfaguara.

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