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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

esquina

Homens e mulheres, juntos

Os trinta anos do sexo frágil na Marinha brasileira

Cristina Tardáguila | Edição 50, Novembro 2010

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Numa tarde de setembro, diante de um painel fotográfico de 2 metros de altura por 3 de comprimento, o vice-almirante Armando Bittencourt, um senhor de cabeleira branca e nariz proeminente, piscou o olho direito com picardia e declarou: “As mulheres se comportam muito bem como militares. Quem se comporta mal são os homens diante delas.”

Plasmada no painel de fundo laranja, uma mesma tenente de cabelos escuros vestia os oito uniformes femininos da Marinha – do simples macacão operativo, que agradaria a qualquer mecânico não fosse a gola até o queixo, ao requintado alexandrino azul-escuro, um tailleur reservado às festividades do 11 de junho, dia da Batalha Naval do Riachuelo. Nas oito poses, a oficial exalava uma beleza militarmente contida. “Note a postura exemplar da tenente Fabíola!”, ressaltou Bittencourt, o indicador apontado para a sucessão de fotografias. Seus olhos brilhavam de orgulho.

Aos 69 anos de idade, o vice-almirante da reserva é o diretor do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Naquela quarta-feira de muito vento nas docas da Capitania dos Portos do Rio de Janeiro, entre crianças que ziguezagueavam ao redor da galeota de Dom João VI, ele oferecia um tour pelos corredores da exposição 30 Anos da Mulher Militar na Marinha do Brasil, recém-inaugurada. É ele o curador.

“Um homem não é capaz de deixar uma mulher ferida para trás. Comporta-se mal nessa situação”, retomou o vice-almirante. “Além disso, a consciência de que uma mulher foi feita prisioneira e pode estar sendo sexualmente abusada pelo inimigo tem o poder de desestabilizar um país. Que dirá, então, um comandante em ação…” Justificava assim – pondo a culpa na hombridade sem freios – a não-admissão de mulheres nos navios e nas tropas que vão à guerra.

 

Logo no primeiro bloco temático da exposição, que tem entrada franca e estará aberta até março de 2011, um painel tão grande quanto o de Fabíola mostra quem foi e como agiu o homem que pôs as mulheres para dentro da corporação. No alto, à esquerda, em foto recém-saída dos arquivos navais, vê-se o almirante-de-esquadra Maximiano da Fonseca em ação. Embaixo, lê-se que foi ele o fundador, em 1980, do Corpo Auxiliar Feminino da Reserva, o primeiro espaço ocupado pelas mulheres na força. Maximiano, que virou patrono do Corpo Feminino, foi o ministro da Marinha nos cinco anos do governo Figueiredo, de 79 a 84.

“Não se pode dizer que tenha sido um ato corajoso, vanguardista, o.k.? Foi bem mais simples do que isso”, esclareceu logo Bittencourt antes que alguém atribuísse liberalidades excessivas à nossa Marinha. “O almirante precisava preencher os quadros do recém-fundado Hospital Naval Marcílio Dias e resolveu abrir as portas para a mulherada.” Quase vinte anos depois, em 1997, quando foi extinto o Corpo Auxiliar, ares progressistas começavam a acariciar as nossas costas e as militares puderam ocupar não só os postos de enfermeiras e médicas, mas também de engenheiras e mecânicas. “Passaram ao trabalho duro”, resumiu o vice-almirante com um sorrisinho cândido. “E essas imagens aqui”, prosseguiu, mostrando cerca de dez fotografias de mulheres em ação, “passam essa mensagem. Mulher na Marinha não tem moleza.”

Ao lado de Bittencourt, acompanhando o tour num silêncio a toda prova, a tenente Yana Vale assentiu. Ela é o braço-direito do vice-almirante na diretoria de Patrimônio Histórico. Em conformidade com o Regulamento de Uniformes da Marinha do Brasil, sua saia cobria os joelhos e o salto do sapato não ia além dos três dedos. Ela não trazia os cabelos soltos nem brincos que excediam o lóbulo da orelha. Há anos não usa esmalte vermelho. Ilumina-se apenas com uma leve maquiagem nas bochechas.

A poucos passos do painel de Maximiano, Bittencourt mostrou o painel As Pioneiras, no qual leu a lista das principais conquistas femininas em trinta anos. O texto não cita nomes. O visitante não saberá, por exemplo, quem foi a primeira mulher a assumir a direção de um hospital naval ou quem foi a primeira a ganhar uma medalha por permanecer mais de 500 dias embarcada. Tampouco saberá quem foi a primeira militar a concluir com êxito o árduo curso de mergulho da corporação.

“A Marinha é assim, contra o individualismo”, explicou Bittencourt. “Fui eu mesmo quem mandou tirar o nome e a foto de todas elas daí.” Na exposição também não há referência a mulheres que historicamente se destacaram em outras forças armadas, em outros tempos. “Vetei qualquer menção a Joana D’Arc ou a Maria Quitéria por motivos óbvios. Elas eram travestis.” Grande é a torcida para que a República Francesa não seja leitora assídua de piauí.

Com cerca de 35 mil visitantes até o final de outubro, a exposição ainda não havia sido alvo nem de críticas nem de elogios por parte de movimentos feministas. O vice-almirante deu de ombros: “Convenhamos que ser feminista hoje em dia é pouco sensato. O mundo precisa dos dois sexos.” E, na mesma linha, deu outra tacada. “Os machistas, assim como os fumantes, também estão contidos, graças a Deus.”

Até dezembro de 2009 a Marinha do Brasil contava 61 437 membros. Três mil, setecentos e vinte e quatro eram mulheres. O número não desestimula Bittencourt. No último bloco da mostra, diante de um manequim feminino vestido de almirante, ele comentou o futuro das militares na força e, recorrendo ao verso mais indefectível do poeta espanhol Antonio Machado, disse: “Se faz o caminho ao andar.” O manequim não tinha rosto nem cabelos.