esquina

Homeopata convertido

O 7 a 1 de Edzard Ernst

Bernardo Esteves
ANDRÉS SANDOVAL_2018

O médico britânico Edzard Ernst projetou no telão a imagem de um selo que celebrava os serviços prestados à humanidade pelo alemão Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia no final do século XVIII. Ernst, um senhor calvo de 70 anos, de bigode, tem intimidade com a matéria: nascido na Alemanha, filho e neto de médicos, ele cresceu tomando remédios homeopáticos e passou a receitá-los assim que se formou, no final dos anos 70.

Mas o médico não estava ali para festejar o legado de Hahnemann. Falava a pesquisadores, estudantes e divulgadores de ciência críticos à homeopatia, reunidos em novembro num centro de convenções paulistano. O palestrante foi o convidado de honra do lançamento do Instituto Questão de Ciência, uma organização não governamental que pretende lutar por políticas públicas baseadas em evidências científicas.

Homeopata praticante no passado, hoje Ernst é um dos principais questionadores da terapia no Reino Unido. Porém a conversão não se deu da noite para o dia, conforme contou à piauí antes de sua palestra. “Foi um processo lento. Eu era um entusiasta da homeopatia, depois me interessei por ela como objeto de pesquisa e fui ficando cada vez mais cético porque as evidências não mostravam sua eficácia.”

A semente da dúvida foi plantada logo em seu primeiro emprego, num hospital homeopático. Nada que ele aprendera na faculdade explicava a melhora dos pacientes que tratava: os medicamentos homeopáticos são diluídos dezenas ou centenas de vezes, num processo que praticamente elimina qualquer resquício do composto original – Hahnemann alegava que eles manteriam suas propriedades terapêuticas se sacudidos vigorosamente durante a diluição.

Em 1993, Ernst assumiu a chefia de um departamento dedicado às terapias alternativas na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Abandonou a clínica – tinha se especializado em medicina de reabilitação – e dedicou-se à pesquisa da eficácia de tratamentos controversos. Realizou uma análise sistemática – “o Rolls-Royce da pesquisa clínica”, conforme define – que examinou os resultados de dezenas de estudos e concluiu que não havia evidências que recomendassem o uso clínico da homeopatia.

Ernst atribui a melhora de pacientes tratados com homeopatia a uma conjunção de fatores, como o efeito placebo criado pela expectativa da melhora e o próprio ciclo natural de algumas doenças. “A gripe comum leva uma semana para desaparecer se for tratada, e sete dias se não for”, ironizou, durante sua apresentação.

Ao fim da palestra, ele citou um benefício da homeopatia e enfileirou uma sucessão de argumentos que a desacreditavam. Contabilizou os prós e contras: “Deu 7 a 1”, anunciou, em seu inglês com sotaque alemão, à frente de um slide verde e amarelo com uma bola de futebol. O público aplaudiu, mas só depois de um breve silêncio que traiu o desconforto com a piada.

 

No Brasil, a homeopatia é uma especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e foi incorporada ao Sistema Único de Saúde no final dos anos 90. Está longe de ser a única terapia alternativa bancada pelo SUS, que em março deste ano passou a cobrir procedimentos de aromaterapia, imposição de mãos e florais de Bach, dentre outros. São 29 práticas integrativas que fazem do Brasil o campeão mundial da modalidade, conforme festejou na ocasião Ricardo Barros, então ministro da Saúde.

Combater o gasto de recursos públicos em terapias cuja eficácia não foi demonstrada é a primeira campanha do Instituto Questão de Ciência, conforme explicou Natalia Pasternak Taschner, idealizadora da iniciativa, numa conversa com a piauí em outubro. Num cenário de escassez de recursos para tratamentos que de fato funcionam, não faz sentido alocar dinheiro dos contribuintes em terapias duvidosas, diz ela.

Taschner, uma bióloga de 42 anos que estuda a genética de bactérias, criou o instituto com recursos próprios e pretende conseguir doações de pessoas físicas para bancá-lo no futuro. Em seu site e na revista eletrônica Questão de Ciência, a iniciativa pretende divulgar informações que, espera-se, sejam levadas em conta pelos gestores públicos – e pelos cidadãos que queiram pressioná-los. Deve atuar também em Brasília, acompanhando de perto o processo legislativo e batalhas jurídicas no STF.

Em sua palestra no lançamento do instituto, Taschner evocou o caso da fosfoetanolamina sintética, a chamada “pílula do câncer”. Em 2016, o Congresso aprovou uma lei que autorizava o uso clínico da substância sem que houvesse evidências de sua eficácia ou segurança – ela não tinha a propriedade antitumoral alegada, conforme mostraram meses depois estudos bancados pelo governo. “A pílula enganou muitas pessoas e custou muito dinheiro aos cofres públicos”, disse Taschner. “Quando não baseamos as políticas públicas em ciência, isso é o que acontece.

 

À  medida que seus estudos acumulavam evidências contra as terapias alternativas, o ex-homeopata decidiu combatê-las publicamente, escrevendo artigos na imprensa e livros de divulgação como Truque ou Tratamento?, que lançou em 2008 com o físico e escritor Simon Singh. No caminho, comprou briga com cachorros grandes. Foi criticado pelo homeopata da rainha Elizabeth II e bateu de frente com o príncipe Charles, defensor de longa data de terapias alternativas.

Ernst se envolveu intensamente na campanha pelo fim do financiamento da homeopatia pelo sistema público de saúde do Reino Unido, que, em julho de 2017, culminou com a decisão do governo de não bancar mais os remédios homeopáticos que lhe custaram 92 mil libras no ano anterior, ou 464 mil reais em valores atuais. Mesmo admitindo que a medida acabava por reduzir as escolhas dos pacientes, ele foi taxativo: “Não quero reduzir nada, cada um pode fazer o que quiser – só não quero pagar por isso.”

O médico disse que adoraria ter mostrado a eficácia dos remédios que receitava no começo de carreira. “Quem provar que a homeopatia funciona vai levar o Nobel de Física e de Química, porque as leis dessas ciências precisariam ser reescritas”, brincou. Se, além disso, o pesquisador em questão conseguisse a trégua nos debates inflamados sobre o tema, decerto seria também forte candidato ao prêmio da Paz.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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