esquina

Homo tubus

Como e por que dar um mergulho no último paraíso alucinógeno

Willian Vieira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

À medida que enumera os machucados pelo corpo – três, quatro, cinco, se incluir a mordida da aranha –, Brant conta as pontes que faltam para chegar ao seu destino – três, duas, uma, graças a Deus. No velho ônibus que liga a Tailândia ao Laos, o canadense loiro está perfeitamente confortável. De bermuda sintética e camiseta com estampa de maconha, enquanto a paisagem corre pela janela, ele dá a entender que é um homem sem angústias existenciais: “Olha, eu não acordo todo dia animado, esperando coisas novas. É tudo sempre igual: eu bebo, me chapo de graça, ralo pouco e me divirto um montão. Não é um trabalho ruim, né?”

Né não. Trabalhar significa convencer os 60 mil ocidentais que chegam anualmente à cidade de Vang Vieng – uma horda de jovens hedonistas ávidos por ópio, álcool e sexo oposto – do lugar certo para ir. Brant é promoter de quatro bares que pertencem a um único dono. Ele carrega o lixo, serve bebidas e transforma a fala macia em moeda sonante para o chefe. Pega às 18 horas e vai até fechar as portas, em troca de três refeições, um quarto mofado e as drogas “de que precisar”. Dinheiro propriamente, nem um centavo. Trata-se de uma espécie de semiescravidão pós-hippie, sistema em que o escravo trabalha sorrindo e convence os amigos a também se tornarem escravos. “A gente é uma comunidade de trinta promoters. O pessoal não para de chegar e ninguém quer ir embora.”

A cada dois meses, Brant pisa na Tailândia, fuma um cigarro, bebe uma Coca-Cola e seis horas depois está de volta ao Laos, com um visto renovado no bolso. De olhos fechados, ele faz um esforço e calcula: está há 570 dias no paraíso. Mas em junho largará o único emprego que já teve na vida, retornará à pátria, completará 24 anos e – está certo já – entrará para a faculdade de engenharia. Está próximo o fim dos tempos. Só que até lá o mundo rola.

Uma vez, Brant bebeu e fumou um pouquinho além da conta e acordou emborcado na rede do bar. O sol ardia em seu rosto e a perna direita doía: aranhas. Fazer o quê? Os cinco furinhos foram se juntar às outras cicatrizes de guerra. No pé direito, uma fratura que ele sofreu meio sem saber nem quando nem como. Na panturrilha esquerda, um corte que, se Deus quiser, em breve cicatrizará. “Caí da moto”, explica. “Estava bêbado.”



Suas mãos não fariam feio na estiva, embora nunca tenham visto um contêiner. A calosidade rugosa resulta do ofício que ele exerce: horas sem fim segurando com força uma grossa corda, na qual se agarra – geralmente em estado mental exótico – alguém que pouco antes se atirou no rio Nam Song a bordo de um pneu. A tal atividade – a do pneu, não a da corda – se dá o nome de tubing.

Em termos de importância turística, o tubing está para Vang Vieng assim como o Louvre está para Paris. Os nativos o consideram um esporte náutico – classificação que merece ponderações. Primeiro, porque boa parte dos adeptos não está em pleno domínio de suas habilidades motoras. Segundo, porque o esporte não existiria sem doping. Terceiro, porque por 6 dólares qualquer um aluga uma câmara de pneu de trator no cartel local e pronto: basta se amarrar no pneu e se atirar na água para reivindicar o título de desportista. Em guias de viagem, lê-se que tubing é “o mais divertido esporte para bêbados da Terra”. Se as boias são de rodas de tratores que deitaram terra sobre as covas do genocídio cambojano, paciência. Por princípio, a diversão é atemporal, amoral e inconsciente.

A cena fluvial é francamente Woodstock. Com o corpo decorado à canetinha, centenas de jovens saltam, nadam, boiam e dançam na correnteza. Dali a pouco veem uma corda na frente, lançada de um dos bares ribeirinhos. Se aceitam o reboque, são recebidos com shakes de maconha. Bebem e dançam no bar e meia hora depois se atiram de novo na água, até a corda seguinte. Quando escurece, sendo muito gregários, correm todos para a Festa da Lua Cheia.

 

Na ilha de Nam Song, doze bares de bambu espalham punk rock e pop pós-Madonna Ásia afora. Quem chega ao Bucket’s encontra um Brant semissóbrio, ocupado em distribuir baldinhos de plástico – desses de praia – com uísque até a boca. Ao lado de uma fogueira, dez loiras dançam Lady Gaga. Passam-se as horas, o chão se cobre de baldes, a fogueira apaga, o DJ desaparece e as loiras tentam se equilibrar na ponte instável entre a ilha e os hotéis. Caem, levantam e riem, mas finalmente chegam lá, no Jaidee’s.

Ah, o Jaidee’s… Alguém pede um cardápio, que é trazido pelas mãos de um laociano de 15 anos. “Não, o outro”, diz o cliente. O garoto titubeia. O ocidental insiste: “O outro.” Nessa hora, Jaidee, o dono do estabelecimento, se materializa com um quadro-negro escrito a carvão (um pinguinho de água dá sumiço no crime). Está marcado ali: baseado de maconha, 2 dólares; de ópio, 4; vitamina de cogumelo, 10 – tudo café-pequeno, porque o povo veio mesmo foi para conhecer “o último opiário do Laos”. Muitos se estiram na penumbra e fumam – de preferência, não sem antes consultar uma das centenas de xerox do Lonely Planet espalhadas no local. A bíblia dos viajantes sem lenço nem documento recomenda vivamente: “Se for experimentar ópio, não misture com muita coisa e jamais com suco de limão. Soa improvável, mas a mistura é usada por mulheres da montanha que se suicidam como protesto contra maus maridos.”

Dada a semiconsciência da clientela, os bares não precisam caprichar muito no entretenimento. O que rolar geralmente está bom. Um deles, por exemplo, transmite diariamente 45 episódios da série Friends. Nos colchões, com um prato de porco à milanesa no colo, a plateia ri e às vezes, em coro, antecipa os diálogos. A TV só é desligada às onze da noite, quando os fregueses são postos para fora, muitos furiosos por deixar o episódio na metade. (Ele que volte no dia seguinte. Os 45 episódios são sempre os mesmos.) Um bar cinco metros adiante passa Uma Família da Pesada. Na birosca seguinte, Marge Simpson discute com o marido Homer, enquanto canadenses e britânicos debatem se heroína é melhor fumada ou injetada.

Não era para ser assim. Vang Vieng ganhou fama por causa da beleza do Nam Song, que na década de 70 atraiu os primeiros turistas. Mas havia o ópio, e para a segunda leva de ocidentais o rio já não passou de um bônus, meio como as faixas extras de DVD. Juntando os ecoturistas avant la lettre dos anos 70 com os turistas lisérgicos de sempre, surgiu o espécime atual: o Homo tubus.

Depois que responde ao sorriso da aeromoça de olho puxadinho e deixa o avião, o tubus penetra num mundo colorido de possibilidades ilimitadas, com trilha sonora dos Simpsons. Anos de culpa cristã, conformismo escolar, complexo de Édipo, superego, tudo será desfeito pelo shake de ópio, que escorregará pela garganta assim como o corpo – inconsciente, feliz e amarrado a um pneu – terá descido pelo rio. Isso, claro, se ele ou ela ficarem longe do suco de limão.

Willian Vieira

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