vultos da literatura

A hora e a vez de Chimamanda

A escritora nigeriana que alcançou fama mundial

Larissa MacFarquhar
Chimamanda Ngozi Adichie teve uma criação católica e quando criança amava a Igreja. Adorava ir à missa, fascinada por aquele teatro todo. Seu desejo, aliás, era um dia se tornar padre
Chimamanda Ngozi Adichie teve uma criação católica e quando criança amava a Igreja. Adorava ir à missa, fascinada por aquele teatro todo. Seu desejo, aliás, era um dia se tornar padre FOTO: BEN PIER

Tradução de Sergio Tellaroli

“É preciso recuar no tempo, até 2005. Trabalho como médico e estou em Warri, uma cidade grande no estado nigeriano de Delta, discutindo com minha mãe. ‘Você empacou’, ela me diz. ‘Estudou medicina, mas não está indo muito longe. Poderia ter progredido!’ Eu me sentia bem na condição de médico de uma cidadezinha do interior, um lugar sossegado, porém na Nigéria isso é falta de ambição. Daí a bronca da minha mãe. Ela pegou uma revista e me mostrou a foto de uma jovem com contas nos cabelos: ‘Veja esta garota. Ela escreveu um livro de horticultura, um livro sobre flores. Você poderia fazer algo assim.’ Na verdade, ela pouco se importava com o que eu fazia. Só queria que eu fizesse mais. ‘Escreva um livro! Não fique aí sentado, distribuindo Tylenol.’ E eu respondi: ‘Está bem.’ Então comprei um computador e comecei a escrever.”

Eghosa Imasuen tinha 28 anos. Morava perto dos pais, numa pequena cidade vizinha, a cerca de 400 quilômetros de Lagos. Lia bastante, em geral romances policiais e ficção científica que comprava em sebos por 1 dólar ou menos. “Literatura, para mim, eram aqueles livros adotados na escola, ou seja, Chinua Achebe: O Mundo Se Despedaça, A Flecha de Deus, O Mundo Se Despedaça, A Flecha de Deus, O Mundo Se Despedaça, A Flecha de Deus. Tentei ler Ben Okri,[1] não consegui passar da página 10. Eram livros que logo estariam a cinquenta anos de distância, ambientados num passado remoto. Não me diziam nada.”

“Mas minha ideia de romance sempre fora aquela, de literatura de gênero. Aí comecei a escrever e ficou uma merda. Ruim mesmo. ‘Porra, está horrível’, pensei. Entrei na internet e li sobre Chimamanda, a garota na revista, a responsável pelo sermão da minha mãe. Então viajei até Lagos e comprei Hibisco Roxo. Peguei um táxi para ir à casa da minha tia e já comecei a ler dentro do carro.”

Esse era o problema com nosso povo, explicara Papa: nossas prioridades estavam erradas; nos importávamos demais com igrejas enormes e estátuas imponentes. Um homem branco jamais faria isso.

“Cheguei na minha tia e continuei lendo.” A prosa era clara e de uma simplicidade enganosa. O enredo se desenrolava aos poucos, devagar, a violência da trama era abafada pela confusão da narradora, uma adolescente sem malícia. Havia surpresas; truques, não.

Por que Ele tinha de assassinar o próprio filho para nos salvar? Por que Ele simplesmente não nos salvou de uma vez?

“Na viagem de volta a Warri, que dura cinco horas, terminei o livro no ônibus. Não dormi. Ao chegar em casa, abri o computador, localizei o arquivo do meu romance, deletei, limpei a lixeira e comecei de novo.”

Hibisco Roxo conta a história de uma família rica dominada por um católico tirano, Eugene, cujo pai jamais se converteu ao catolicismo. Por isso Eugene não permite que ele frequente sua casa e, nos poucos minutos que passam com ele a cada ano, proíbe os filhos de aceitar a comida ímpia do avô. Eugene é brutal na submissão que impõe aos filhos, mas porque os ama profundamente. Quando bate neles, chora.

[…] então o cinto parou e Papa olhou para o couro em sua mão. Ele franziu o rosto; suas pálpebras desceram. “Por que vocês se deixam enredar pelo pecado?”, perguntou Papa. “Por que gostam do pecado?”

Além disso, faz doações anônimas a orfanatos e hospitais e publica um jornal de oposição ao governo, mesmo ameaçado de morte. É um homem cuja intransigência de princípios o leva à destruição.

Antes de ler Hibisco Roxo, Imasuen pensava que um romance sobre a vida da classe média nigeriana seria muito aborrecido e desimportante. Receava que os leitores perdessem o interesse. Ao escrever seu primeiro manuscrito, imaginou que seria necessário inserir uma nave espacial, ou providenciar um flashback, e que a história deveria ter o ritmo do trailer de um filme, com cortes constantes, para trás e para a frente. Hibisco Roxo foi uma revelação: “Eu conhecia aquelas personagens. Era como se minha geração fosse autorizada a falar. Um dos temas da ficção norte-americana é discorrer sobre Long Island e as donas de casa que não têm o que fazer, e eu percebi que agora nós também podíamos fazer aquilo: nós podemos escrever coisas banais! E existe um público para isso.”

 

Mais ou menos à época em que a mãe de Imasuen gritava com ele, a autora de Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie – hoje considerada uma das romancistas mais vigorosas e originais de sua geração – terminava de escrever seu segundo livro num minúsculo apartamento em Baltimore, nos Estados Unidos. Tinha 26 anos. Hibisco Roxo, publicado em outubro de 2003, estabelecera sua reputação de escritora talentosa e em ascensão, mas ela ainda não era muito conhecida.

Embora a violência política estivesse presente como cenário, a história de seu primeiro romance fechava-se em si mesma, restringindo-se a uma única família. Já o segundo, Meio Sol Amarelo, teria um alcance bem mais amplo. Ela estava construindo uma narrativa de complexidade sinfônica, com personagens saídas de toda a Nigéria e de diversos níveis sociais, entrelaçadas pela via do amor e dos encontros fortuitos de refugiados. Era a história de Biafra, a república separatista na Igbolândia,[2] no leste da Nigéria, que existiu por três anos ao final da década de 60 em meio a uma guerra civil e à fome generalizada, antes de se render ao governo nigeriano.[3] O livro se filiaria à tradição dos grandes romances de guerra – Chimamanda não estava interessada em experimentos literários engenhosos.

Mais tarde, Meio Sol Amarelo ganharia o Orange Prize e seria adaptado para o cinema. Depois a autora publicaria um livro de contos, No Seu Pescoço, e receberia uma bolsa da Fundação MacArthur.[4] Seu terceiro romance, Americanah, ganhador do National Book Critics Circle Award, seria ainda mais abrangente e descreveria a desorientação, a libertação e as crueldades vividas no exterior por jovens nigerianos, que, na qualidade de outsiders, também expõem sua visão dos Estados Unidos. O público aumentava à medida que sua temática se expandia, até que Chimamanda atingiu a condição de celebridade que se desprendeu dos livros e ganhou vida própria. Sua conferência “O perigo de uma história só” (TED-Talk) teria mais de 18 milhões de visualizações. “Sejamos todos feministas”, outra palestra da autora (TEDx), seria sampleada numa música de Beyoncé e distribuída em forma de livro a todos os suecos de 16 anos.[5] Chimamanda se tornaria a garota-propaganda de uma linha de cosméticos. Passou a ser o tipo de pessoa que frequenta festas do Oscar e é fotografada ao lado de Oprah Winfrey e Brigitte Macron. Mas isso tudo pertencia ao futuro.

Sentada em seu apartamento em Baltimore, Chimamanda descobriu que escrever o romance sobre Biafra lhe despertava um grau de obsessão até então desconhecido. Não fazia outra coisa. Oficialmente, estava matriculada num mestrado da Universidade Johns Hopkins com uma bolsa de estudos de dois anos, mas passava semanas sem frequentar as aulas, fechada em casa escrevendo – só descia para comprar banana e amendoim, ou então para pagar o entregador de comida chinesa. Quando se sentia muito agitada, pulava corda.

Para esvaziar a cabeça, lia Derek Walcott.[6] Qualquer poema – ela só queria ouvir a voz dele. Gostava de alguns outros poetas também, embora só dos modernos. Se topava com um “vós” ou um “Ó”, ela virava a página.

Quando enfim se aventurava pelo campus da universidade, vestia-se de um jeito que a deixava em conflito. Havia observado que no mundo acadêmico norte-americano o estilo jovem – cores fortes, estampas, babados, laços, franzidos, salto alto, sombra nos olhos, batom cor-de-rosa, todos os adornos da feminilidade de que ela sempre gostara – era sinal de futilidade feminina. Precisava se afirmar, e por isso decidiu se vestir à maneira profissional e insossa das feministas americanas sérias.

 

Quase uma década havia se passado desde sua primeira experiência nos Estados Unidos, como aluna de faculdade, quando, como escreveu mais tarde, se descobriu negra. Foi no momento em que uma colega de quarto na Universidade Drexel, na Filadélfia, ao tomar conhecimento de que Chimamanda vinha da África, admirou-se por ela saber usar o fogão e não ouvir “música tribal”. Desde então a nigeriana vem absorvendo pouco a pouco a simbologia do preconceito racial norte-americano, que de início achara curioso. Agora entendia por que as pessoas se ofendiam com comentários sobre os cabelos e o gosto por melancia ou frango frito.[7]

Decidiu ambientar seu romance sobre Biafra em Nsukka – a cidade da Igbolândia na qual havia crescido e onde James, seu pai, lecionara estatística na universidade –, e centrá-lo na família de um professor radical. Sua obsessão se caracterizava por uma quase superstição quanto ao local onde escrever cada segmento do livro. Para a primeira parte, que descreve o começo dos anos 60, antes do início da guerra, ela voltou para a casa dos pais e pôs-se a trabalhar no quarto que ocupara quando menina.

[…] nossas mulheres que andam com homens brancos pertencem a uma certa categoria, vêm de famílias pobres e têm o tipo de corpo de que os brancos gostam.” Calou-se e depois prosseguiu em tom trocista, imitando o sotaque inglês: “Uns rabos maravilhosamente desejáveis.”

Para escrever sobre os primeiros meses da guerra, foi para Abba, seu lar ancestral. Queria sentir o cheiro da cidade.

Eles achavam que Ojukwu tinha armas estocadas em algum lugar, tendo em vista o jeito como ele fala: “Poder nenhum na África Negra pode nos derrotar!” […] os homens estão tendo que treinar com armas de pau […].

Mas, ao chegar à última parte do romance, quando a guerra ia muito mal para Biafra, não quis permanecer na Nigéria: precisava de distância. Por isso Baltimore. A cidade não significava nada para ela, e tinha a vantagem de ser muito barata.

Chimamanda sempre soube que escreveria sobre Biafra, mas era uma tarefa e tanto contar a história da guerra que havia sido tão catastrófica para seu país; além do mais, fora um acontecimento que ela própria não vivera – o conflito terminou em 1970, sete anos antes de seu nascimento. Havia sido um flagelo sobretudo para os igbos, e sua origem igbo significava muito para ela. Rabiscara uma peça sobre o assunto na escola; detestou o resultado e a deixou de lado. Então, pouco depois de terminar Hibisco Roxo, escreveu um conto sobre a guerra, uma espécie de segunda tentativa. O texto ficou bom. Era chegada a hora.

Ela queria que os episódios narrados soassem verdadeiros, e para tanto entrevistou muita gente. Desconhecia muita coisa a respeito daqueles anos até começar a fazer as perguntas. Seus pais tinham vivido o conflito, no entanto quase nunca o mencionavam. Ela sabia que, em 1968, depois do nascimento do primogênito, Chuks, em Biafra, sua mãe, temerosa de que ele morresse de subnutrição, só conseguira leite para o bebê à custa de muita súplica. Seu pai, como boa parte dos acadêmicos, tinha trabalhado num dos diretórios da capital[8] e tentou convencer o próprio pai a também se mudar com eles para lá, mas o velho não quis deixar Abba…

De quem é que estou fugindo, e da minha própria casa?

… e ali ficou até quase tarde demais. O exército nigeriano estava prestes a tomar a cidade, a maioria das pessoas já tinha fugido. No último minuto o avô partiu para um campo de refugiados, onde adoeceu e morreu. O pai dela acreditava que, tanto quanto as circunstâncias físicas, a perda da dignidade matou aquele homem que tinha um importante título, mas se viu impelido a implorar por alimento junto às agências humanitárias – ou, se a comida tivesse acabado, a caçar lagartos. Como primogênito, o pai de Chimamanda tinha a obrigação de enterrar o progenitor, mas a guerra não permitiu que ele o fizesse.

Também o avô materno morreu doente num campo de refugiados. Ele e a filha eram muito próximos. Poucos pais daquela época teriam se empenhado tanto para dar educação à filha. Em certo momento, ele escreveu a ela uma carta chamando-a, em inglês, de “meu querido filho” – my dear son. A mãe de Chimamanda sabia que o inglês dele não era dos melhores, e por isso, ao vê-lo, disse-lhe: “Papa, a palavra certa é daughter.” Ao que ele respondeu: “É claro que eu sei a diferença entre daughter e son. Eu só queria que você soubesse que é tudo que um filho poderia ser.” A mãe só tomou conhecimento da morte dele cinco dias depois do ocorrido, tempo que o mensageiro da notícia levou para atravessar o território ocupado. Quando sua mulher soube, contaria mais tarde o pai de Chimamanda – e isso soou bem mais dramático em igbo –, ela “primeiro se manteve firme, e depois se atirou no chão”.

Como não se estudava a Guerra de Biafra na escola e as pessoas não tocavam no assunto – como se a geração de seus pais tivesse enterrado aqueles anos –, Chimamanda sabia que, para muitos nigerianos da idade dela ou mais jovens, o romance seria lido como um livro de história. Era por isso que precisava se inteirar muito bem dos acontecimentos, em especial do horror da conflagração em Biafra, um horror que não era visível a partir de Lagos. Pressentia que seu livro seria importante, que afetaria as pessoas. De resto, ela sempre afetava as pessoas – tinha consciência de possuir uma força resultante das histórias que contava, mas que não se reduzia a elas.

Seu editor enviou o manuscrito a Chinua Achebe, que se envolvera muito de perto no conflito. Chimamanda havia escrito um conto em homenagem a O Mundo se Despedaça e estava sempre relendo A Flecha de Deus, embora não tivesse o costume de reler livros. Achebe a considerou “uma nova escritora agraciada com o dom ancestral dos contadores de histórias”. Ao ler isso, ela chorou. O romance foi publicado em 2006, pouco antes de Chimamanda completar 29 anos.

 

Depois de devorar Hibisco Roxo e descartar seu manuscrito, Eghosa Imasuen escreveu e publicou seu primeiro romance. Renegou-o e começou a trabalhar no segundo. Então, em setembro de 2007, um sujeito que ele conhecia, autor de um romance kafkiano sobre um nigeriano que acorda branco, lhe disse que naquele mês a escritora promoveria uma oficina de escrita literária em Lagos.

Com o sucesso de Meio Sol Amarelo, Chimamanda pensou em reunir aspirantes a escritor e mostrar-lhes que tinham talento para se lançar numa empreitada semelhante. De modo geral, ela não sentia necessidade de estar na companhia de seus pares. Gostava da ideia de romancistas se apoiando mutuamente, mas pensava que em pouco tempo começariam a se esfaquear. Jamais poderia morar numa cidade como Nova York, onde as pessoas tropeçam em escritores o tempo todo – em restaurantes, no supermercado ou no metrô. Se fosse casada com um deles, um belo dia acabaria por estrangulá-lo.

Mais tarde, quando se tornou o centro das atenções, passou a sentir ojeriza a comentar sobre seu trabalho em curso, ou mesmo a falar sobre suas obras já publicadas. Receava que qualquer resposta pudesse soar pouco verdadeira e pretensiosa.

Quanto mais escrevia, menos certa estava. Cada post arrancava mais uma escama de seu eu, até que ela passou a se sentir nua e falsa.

Antes disso, porém, a ideia de uma sala cheia de escritores discutindo seu ofício a agradava.

Quando a oficina teve início, muitos dos alunos ficaram siderados por ela. Sob a atração gravitacional exercida por Hibisco Roxo e Meio Sol Amarelo, uma jovem que escrevia em iorubá havia passado anos criando personagens igbos, da mesma forma como Chimamanda, que na infância lera apenas livros ingleses, tinha imaginado suas primeiras personagens como pessoas brancas que comiam maçãs, embora ela mesma jamais tivesse experimentado uma. No intuito de criar uma atmosfera íntima e fazer com que seus alunos se sentissem menos intimidados, perguntava sobre as roupas que usavam e sobre sua vida amorosa. Passava a noite conversando. Era uma persona muito diferente de sua figura pública. Se, no palco, um entrevistador, ou mesmo alguém da plateia, fizesse uma pergunta que ela considerasse burra ou racista, com frequência dava uma resposta gélida, dizendo exatamente o que pensava.

Recomendou a seus estudantes que não explicassem demais. Disse que podiam usar expressões em igbo, iorubá ou em inglês nigeriano, que era preciso confiar na capacidade de entendimento do leitor. Disse também que todo texto literário, ainda que autobiográfico, precisa ser moldado – que, por exemplo, embora possamos ter dez amigos íntimos na vida real, eles não podem ser tantos na ficção, porque fica muito confuso. E que evitassem inflar a linguagem: “Jamais ‘adquira’, se você pode ‘comprar’.”

Estimulava os alunos a escrever histórias comuns. Muitos deles amavam ficção científica, um gênero que ela considerava infantil, pois admitia qualquer coisa, tudo podia acontecer. Outros seguiam escrevendo o que ela chamava “literatura de tanga”: histórias de homens de bem que se veem entre os demônios brancos e a tradição. “O estilo nigeriano sempre foi pomposo e vazio, cheio de ‘ismos’”, diz Imasuen. “É o que chamam de big grammar, o emprego de palavras longas e difíceis. As pessoas ainda pensam que, para contar uma história de peso, precisam falar do colonialismo ou da ditadura dos anos 90. O que elas esquecem é que, em Lagos, existe um sujeito que toda manhã acorda e vai ganhar suas 2 mil nairas lavando carros. Mil ele usa para comprar maconha e comida; os outros mil, para comprar tempo de estúdio e gravar seu álbum.”

A oficina de Chimamanda se transformou num evento anual, e ela expandiu seu alcance: encontrou um patrocinador para trazer escritores de todo o continente. Embora se irritasse com os ocidentais que falavam da África como se fosse um país, ela própria sempre fora, em certa medida, uma pan-africanista algo sentimental.

 

As conversas, que de início versavam sobre a escrita literária, logo tomaram o rumo da política – política sexual, feminista ou religiosa. Para Chimamanda, essas eram as vertentes fundamentais da existência humana, bem como os dois motores tradicionais da escrita ficcional eram o amor e o dinheiro. Ela queria que as pessoas sentissem que podiam ser quem de fato eram. Em especial, queria que escritores gays ficassem à vontade, porque era muito difícil ser gay em qualquer outra parte da Nigéria; na verdade, dois dos participantes de sua oficina revelaram ali, pela primeira vez, que eram gays. Por outro lado, era também seu desejo que aqueles que abrigavam crenças equivocadas – ou que ela considerava equivocadas – dissessem o que pensavam, contanto que não fossem grosseiros. Não que ela acreditasse que todas as crenças fossem aceitáveis; na verdade, um dos objetivos de sua oficina era promover uma espécie de engenharia social – segundo ela (em parte brincando, mas apenas em parte), fazer com que todos pensassem exatamente como ela. E só era possível convencer alguém se esse alguém se sentisse em casa para se manifestar com franqueza.

Chimamanda sempre odiou o caráter punitivo das ortodoxias da esquerda ocidental – o modo como pessoas que não entenderam certos protocolos, porque vieram de outros contextos, podiam se ver excluídas sem nem compreender direito onde é que erraram. Essa tinha sido uma experiência compartilhada por muitos nigerianos. Chude Jideonwo, um amigo dela que trabalha com relações públicas, havia retornado de um ano em Yale ofendido e furioso. “Os liberais norte-americanos supõem que todas as pessoas tenham a mesma visão de mundo e a mesma história”, ele diz. “Pronomes indicativos de gênero, por exemplo. Na Nigéria, qualquer um que acredite que minorias sexuais não devem ir para a cadeia já é um progressista. Por isso, nem temos cabeça para brigar por pronomes. Quando cheguei a Yale, eu ignorava que uma pessoa que não era he ou she era they, e me senti como se pisasse em ovos, sem nem saber em que encrenca estava me metendo. As pessoas não tinham apenas opiniões: seus pontos de vista eram sua personalidade. Sentia que, se não concordasse com elas, acabaria excluído.”

Além de se sentir confusa com a complicada dinâmica racial americana, Chimamanda ficou angustiada com a ideia de que até mesmo a falta de clareza podia ser ofensiva. “Às vezes as pessoas hesitam em te perguntar alguma coisa porque não querem fazer uma pergunta racista”, ela conta. “Não podem alegar desconhecimento nem podem manifestar curiosidade. Em muitos círculos, perguntar a uma negra sobre os cabelos dela é considerado bem ofensivo. Claro, dependendo do modo como a pergunta é feita, ela pode mesmo soar ofensiva, mas boa parte do tempo as pessoas são simplesmente repreendidas e ficam confusas. Eu sinto que não se pode falar em raça.”

As conversas em sua oficina foram se tornando mais acaloradas. Vieram os gritos e o choro. Ela queria que os participantes falassem sobre tudo, porém sabia que determinados assuntos eram mais embaraçosos para certas pessoas. Assim, disse a seus alunos que, se as conversas se tornassem difíceis demais, eles podiam deixar a sala. “Tinha uma garota na minha oficina que havia sido vítima de estupro coletivo. Reinava certa tensão no grupo porque ela não queria que a sala discutisse estupro, nunca”, relata Olu Timehin Adegbeye, que hoje escreve livros de não ficção. “Chimamanda a autorizou a deixar a sala, mas a menina não quis ir embora – achava que o tema não devia ser discutido e ponto. Só que Chimamanda julgava aquela conversa necessária, e subiu até o quarto da garota para conversar com ela.”

As oficinas – que continuam acontecendo até hoje – duravam dez dias, nos quais a escritora queria que coisas acontecessem: queria catarse, mudança, queria quebrar convicções. Dispunha de vários meios para alcançar esses fins. Tinha a autoridade que emanava de seu sucesso, embora considerasse um recurso tosco, que ela não gostava de usar. Tinha carisma e, ao descrever as coisas a seu modo, conseguia mudar a aparência delas. Mas conseguia persuadir também pela atenção extremamente aguda. “Chimamanda você”, afirma Aslak Sira Myhre, que dirige a Biblioteca Nacional da Noruega e também deu aulas nas oficinas. “Ela percebe quando alguém está mentindo, percebe se está titubeante, percebe o jogo social que acontece em toda e qualquer situação. Se você conta a ela alguma coisa pessoal, ela percebe se está escondendo algo e costuma não deixar barato.”

Examinar as pessoas dessa forma só era possível numa sala pequena, não num livro. E, no entanto, para moldá-las e mexer com elas em suas oficinas, os instintos e os métodos de que ela se valia – instigar, fazer piadas, provocar, ouvir – eram os mesmos que empregava para moldar e levar adiante uma narrativa. Tinha uma fina percepção do quanto alguém era capaz de suportar – quanta dor e quanta tristeza podiam ainda ser prazerosas, ou pelo menos estimulantes – e da fisiologia da persuasão. Dor de menos deixava as pessoas confortáveis demais; o excesso de dor fazia com que se fechassem. Era preciso haver dor – mas, em uma história, fosse para os leitores, fosse para as personagens, tinha de haver alívio também. Se uma família era terrível, havia outras. Se não havia segurança, havia amor. Se não havia amor, havia a escrita.

Ao longo dos anos em que promovia suas oficinas, Chimamanda escrevia seu terceiro romance. Chamou-o Americanah – o termo nigeriano pouco lisonjeiro para aquelas pessoas que, de volta ao país africano, comportam-se de um modo americanizado e irritante, como levar sempre uma garrafinha de água a tiracolo e reclamar do cozinheiro que não sabe fazer panini. Ela própria já não era apenas nigeriana: tinha se tornado um ser híbrido, uma mulher cosmopolita, o tipo de pessoa que “divide seu tempo” e que está sempre em aeroportos. O livro seria, como o definiu Myhre, “pós-pós-colonial”: na qualidade de africana, Chimamanda escreveria sobre os Estados Unidos com a mesma autoridade sem compromisso com que os ocidentais falavam da África. Naquele momento, ela já observava os americanos havia anos e escreveria a respeito do que detectava neles: um otimismo infantil, uma cegueira deliberada em relação ao próprio poder, uma peculiar hipocrisia racial. Caracterizou Americanah como um “foda-se”, sinalizando com isso que não se sentia mais a obediente cria literária responsável pela história de seu país: escreveria o que lhe desse na telha. Os dois primeiros romances tinham se valido de vozes mais moças e mais ingênuas que a dela; a protagonista de Americanah, uma jovem mulher chamada Ifemelu, seria como ela.

Tinha decidido também que o livro conteria uma desavergonhada história de amor. Chimamanda crescera consumindo pilhas de romances de amor baratos e queria reter deles o componente viciante do puro prazer que proporcionavam. No romance, Ifemelu deixa o namorado americano em New Haven e volta para Lagos, na esperança de reatar com seu primeiro amor, Obinze. O namorado americano é idealista e politicamente engajado, sempre cuidando de crianças pobres e organizando manifestações. Obinze, por sua vez, enriquece ao cair nas graças de um figurão e é parte de uma sociedade inteiramente cínica tanto na política quanto no amor. É clara a conexão entre o idealismo do americano e o desconforto de Ifemelu ao lado dele: a ética rigorosa do rapaz só o deixa amar a namorada se nela encontrar os mesmos princípios éticos. Da mesma forma, há um vínculo direto entre, por um lado, Obinze aceitar os defeitos de seu país natal e, por outro, ele amar incondicionalmente tudo que se refere a Ifemelu, tanto o que ela tem de bom quanto o que tem de ruim. Como muitos romancistas, em relação ao ativismo político Chimamanda é mais cética na ficção do que na vida real.

 

A casa estava cheia. Estamos no final de dezembro de 2017 e os voos da época do Natal começam a chegar. Irmãos e irmãs de Chimamanda se reúnem na casa dela, em Lagos, antes de partir de carro para as seis horas de viagem rumo à casa da família paterna, mais a leste, em Abba, para as festas de fim de ano. Ijeoma, a irmã mais velha, estava vindo de Connecticut; Chuks, o primogênito, havia chegado de Londres na véspera. O marido e o irmão mais novo de Chimamanda, Kene, vão pegar um avião em Maryland. Uche, a outra irmã, está de volta de uma bolsa de estudos na Suíça; a escritora e Okey, o outro irmão, são os únicos que moram em Lagos.

A filha de 2 anos está com a babá. Um sobrinho assiste a um jogo de futebol na sala de estar; sobrinhas adolescentes circulam pela casa. Na sala de jantar, à mesa, Tinuke, a mulher de Chuks, e a dona da casa conversam. Chimamanda acaba de afirmar que falta jogo de cintura às crianças criadas no Ocidente: são muito mimadas e choronas. Tinuke comentou que servira à filha três cafés da manhã diferentes.

Essa cunhada tinha acabado de acordar de um cochilo e desceu à sala enfiada num vestido comprido preto e branco. Levava um caderno, queria mostrar um dos trabalhos da filha. Era a típica mãe nigeriana: sempre a incitar os filhos a feitos escolares e musicais cada vez mais altos. Tinha se reconhecido de imediato na personagem Ojiugo, de Americanah, e reclamou com a autora: da próxima vez que fosse escrever sobre ela, será que podia ao menos usar seu nome verdadeiro e tornar a coisa oficial?

Ela sabia as últimas notas de todas as crianças inteligentes. “Você não vai ser rapper, meu amor. Não viemos para Londres para você ser rapper.”

Chimamanda foi à cozinha e voltou com algumas taças e uma garrafa de vinho. Serviu Tinuke. “Sabe, tem vezes, à noite, em que decido ouvir algumas palavras sábias”, disse a cunhada. “Então fico vendo suas palestras, pulo de uma a outra, e penso comigo: ‘Quer saber? Eu posso fazer isso! Posso, sim! Sou mulher.’ Às vezes te escrevo mensagens e logo apago: ‘Não, estou virando fã.’ Não quero ser sua fã.”

Chimamanda gostou de ouvir isso, já que Tinuke não era dada a elogios. Alguns anos antes, havia lhe enviado uma versão inicial de Meio Sol Amarelo, juntamente com o texto de Achebe. A cunhada leu algumas páginas, ligou para ela e, expressando verdadeira perplexidade, perguntou: “Tem certeza de que foi esse livro que ele leu e elogiou?”

“Você nunca disse que minhas palestras fazem você se sentir mais forte”, Chimamanda comentou.

“Disse sim, não disse?”

“Não, mas isso me deixa muito feliz.”

Por volta das dez, Taiwo, o cozinheiro, começa a levar os pratos à mesa, um a um, conforme vão ficando prontos: ensopado de carne, arroz, frango assado, uma salada, um prato de bananas fritas. As pessoas se aproximam, fazem o prato e vão sentar. A filha de Tinuke aparece no topo da escada e a mãe logo esconde o caderno debaixo da mesa. Tinuke apanha o celular e mostra a Chimamanda um vídeo da menina tocando um solo de violino num concerto beneficente em prol de uma pesquisa sobre o autismo.

“Eu digo a minha filha: ‘Você pode ser modesta, mas se parecer apagada, é assim que será vista”, diz Tinuke. “Na Inglaterra, hoje em dia, há uma espécie de falsidade. Espera-se que a pessoa seja modesta, mas também confiante, sabe como? E, nas entrevistas para entrar em Oxford e Cambridge, quem não é capaz de se impor se estrepa.”

“Mamãe!”, a filha de Chimamanda chega perto da mãe e a chama.

“Sim, boubou? A ideia do marketing pessoal é bem americana”, diz. “Minha experiência como estudante de graduação nos Estados Unidos é que havia um bocado de enganação. Metade da turma não sabia nada, mas era a metade que mais falava. Lembro de me perguntar: ‘Mas o que é que está acontecendo aqui?’”

“Mamãe!”

“Sim, boubou? Foi um choque e tanto para mim. Homens e mulheres nas aulas…”

 

Durante toda a infância de Chimamanda, a família sempre viajava para Abba no Natal. Como se tratava da cidade onde muitas gerações da família de seu pai tinham vivido – há mais tempo até do que era possível rastrear –, ela a considerava sua cidade natal, mais ainda que Nsukka, onde cresceu. Percebia que não era coerente com seu feminismo identificar-se mais com a terra do pai do que a da mãe, mas assim eram as coisas. Nas férias de sua infância, a família passava um ou dois dias com os parentes maternos e três semanas inteiras com os paternos. O costume dita que uma criança igbo pertence à família do pai.

James Nwoye Adichie, seu pai, nasceu em Abba, em 1932. O pai dele, David, também, assim como o avô, Adichie, o bisavô, Maduadichie, e o trisavô, Olioke. David Adichie era agricultor, como todos na aldeia, e logo se converteu ao cristianismo porque viu que era para onde apontava o futuro. Viu também que o futuro estava na educação, e por isso pôs James na escola já a partir dos 3 anos de idade. De certo modo, Chimamanda se decepcionou por seu avô não ter sido um irredutível herói dos livros de Chinua Achebe, fiel à própria tradição e avesso às tentações do Ocidente. Era, ao contrário, um homem pragmático, que olhava para a frente e, vendo que não havia como resistir ao novo mundo, integrou-se a ele. Por outro lado, certo tipo de pragmatismo voltado para o futuro era também, em si, uma tradição igbo. E ela sabia que, se o avô não tivesse mandado os filhos para escolas católicas, ela não seria quem é e nenhum de seus irmãos teria o tipo de vida que ela levava. Ainda assim, queria a outra história.

James casou cedo e nos anos 60 mudou-se com a mulher, Grace Ifeoma Adichie, para Berkeley, a fim de fazer o doutorado. Embora lhe tenham oferecido um posto como professor de seu departamento, nunca pensou em ficar por lá: sentia que era seu dever estudar muito e voltar para casa. Ao se tornar professor de estatística, uma das primeiras coisas que fez foi pagar para que seu pai pudesse assumir o título de ozo, o mais elevado da cidade, que lhe havia sido oferecido no passado. Para assumi-lo, David Adichie precisava oferecer uma festa para a cidade inteira, o que não teve condições de fazer na ocasião. Após a posse do título, não deveria comer em público, porque isso estaria abaixo de sua dignidade.

Muitos dos colegas de James também tinham partido para o exterior a fim de fazer faculdade, e alguns voltaram casados com mulheres brancas – havia, por exemplo, a senhora Nwoga, irlandesa, que morava na mesma rua e falava igbo, e havia a senhora Ijere, suíça. Outros voltavam sozinhos e se casavam com uma nigeriana; anos mais tarde, então, uma americana ou europeia birracial batia à porta de um deles e dizia: “Você é meu pai.” Quando Chimamanda leu as memórias de Barack Obama e soube que o pai dele havia abandonado a esposa americana branca, com quem havia se casado apesar de já ter uma mulher no Quênia, ela o julgou com menos severidade do que o filho. “É fácil que se tome tal atitude como má-fé”, ela diz. “Mas não é assim que eu vejo. Ser africano naquela época, ter o privilégio de poder se educar, muitas vezes com a contribuição de gente da sua cidade para pagar parte dos custos – você contrai com essas pessoas não apenas uma dívida financeira, mas também uma dívida emocional, porque para elas você é uma estrela, pertence a elas. Então, você sai do país e se apaixona por alguém que elas julgam inaceitável, e por isso se sente dividido. Nessa queda de braço, muitas vezes a aldeia fala mais alto. Assim, ao ler o livro de Obama na condição de alguém que conhecia histórias parecidas, uma parte de mim gostaria de dizer: ‘Não é que ele não amasse você.’”

 

Chimamanda foi a quinta de uma prole de seis. A família era muito unida, sempre rindo e fazendo piadas, mas ela sentia que os três filhos mais novos tinham sido criados de um modo menos tradicional. Não sabia, porém, se era porque haviam nascido mais tarde ou porque haviam nascido depois da guerra.

Em 1983, quando Chimamanda estava com 6 anos, houve um golpe de Estado. Ela se lembra da família aglomerada em torno do rádio, da música militar, de um vizinho gritando: “Golpe! Golpe!” Se lembra da mãe chegando do trabalho e dizendo: “Preciso que vocês me ensinem o hino nacional, porque ouvi dizer que os soldados vão à universidade e espancam quem não sabe cantar o hino.” Lembra-se de ver na tevê pelotões de fuzilamento executando ladrões. Sabia que havia coisas que não podiam ser ditas, ou pelo menos não diretamente. Aos 12 anos, quando fazia um trabalho de escola sobre política, os pais lhe disseram que não falasse do governo. Como consequência da agitação política, funcionários públicos às vezes passavam meses sem receber, professores universitários inclusive, e aí não havia leite ou pão.

Chimamanda teve uma criação católica e quando criança amava a Igreja. Adorava ir à missa, fascinada por aquele teatro todo – o figurino, as velas, o incenso, as palavras em latim, as cores diferentes para cada época: o roxo no Advento, o branco no Natal, o vermelho no Pentecostes. Gostava dos cantos e de como todo mundo se abraçava no final. Nunca sentiu entranhada a culpa católica que mais tarde encontrou em Graham Greene. Conhecia a liturgia de cor e sussurrava cada palavra junto com o padre – aliás, seu desejo era um dia poder vir a ser padre. “O catolicismo nigeriano é quase feudal, e o padre é Deus”, diz. “Ele chegava de batina comprida, e você abria caminho para ele poder passar. Eu queria aquilo! Queria o poder. Mas era um tipo bonito de poder, porque eu sentia que podia instruir as pessoas sobre… Eu tinha ideias perigosas quando era criança.” Depois, em algum momento, começou a ir à missa com menos frequência.

Ainda menina, exercia uma espécie de autoridade natural. Muitas garotas queriam conquistar sua amizade e para tanto lhe davam seu lanche, e ela comia. Ao mesmo tempo, tinha crises de depressão – era o começo de uma enfermidade que continua a atormentá-la –, embora ainda não soubesse o nome daquilo. “Eu era uma criança popular, tinha um monte de amigos e ia bem na escola”, ela conta, “mas havia momentos em que não queria ver nem falar com ninguém, chorava à toa, me sentia má, uma pessoa terrível, e me isolava.”

Sua popularidade era tanta que, quando decidiu seguir estudando a língua igbo até o final do ensino médio, outros a acompanharam, apesar de ser uma matéria que a maioria parava de cursar assim que deixava de ser obrigatória. Chimamanda queria estudar igbo em profundidade, e não apenas por causa da família: o orgulho que sentia daquela língua era incomum. “Tem uma coisa que eu, sem muita delicadeza, chamo de vergonha dos igbos”, ela diz. “Os igbos que cresceram em Lagos tentam de tudo para escapar à sua origem. Se você se encontra com eles em público e diz alguma coisa em igbo, eles se recusam a responder na mesma língua.”

Perdemos a Guerra de Biafra e aprendemos a ter vergonha.

Na Nigéria, o estereótipo do igbo é uma pessoa que fala alto, é agressiva, gananciosa e até criminosa. Dizem: “Não contrate um igbo para trabalhar para você, porque, sem que você perceba, ele vai tomar o seu negócio.” Atribuem a eles a autoria daquele conto do vigário que circula pela internet e rendeu à Nigéria a reputação de um país de trambiqueiros.[9]

Chimamanda tem dificuldade em precisar o que na cultura igbo é tão importante para ela. Acredita haver certa verdade no estereótipo de que se trata de uma cultura demasiado materialista. E bem mais puritana que a iorubá no que diz respeito à sexualidade feminina. Não é que a cultura igbo seja melhor – é apenas a sua cultura. Os igbos são seu povo, aquele para o qual ela poderia voltar se precisasse. Mas hoje, mesmo em Abba, no coração da Igbolândia, muitas crianças não falam igbo, só inglês. Preocupa-a que, em uma geração, ou duas, talvez, a língua esteja extinta.

Durante a adolescência, seu conhecimento de igbo era limitado, tanto que escrevia seus poemas em inglês. Aos 17 anos conseguiu publicar um livrinho. Na esperança de que saísse alguma coisa na imprensa, procurou um figurão da mídia. Enquanto conversavam, o homem deu a volta por trás dela, enfiou-lhe a mão por baixo da blusa e apertou-lhe um seio. Ela nada fez por alguns segundos, chocada demais para reagir. Então empurrou a mão do sujeito, delicadamente, porém, porque não queria ofendê-lo. Mais tarde, naquele mesmo dia, teve uma irritação na pele que se espalhou por seu rosto, pelo pescoço e pelo peito, como se seu corpo manifestasse o repúdio que ela calara. Contou o ocorrido a uma amiga, e então guardou segredo por 25 anos.

Nas décadas de 80 e 90, as escolas nigerianas passaram a dar ênfase às ciências; assim, embora já tivesse publicado um livro de poemas, Chimamanda entrou para a universidade, em Nsukka, no curso de medicina. Pensou que talvez pudesse se tornar psiquiatra e usar as histórias dos pacientes em sua ficção, mas, ainda estudante, não conseguiu suportar os cadáveres. Em 1995, decidiu tentar a admissão em faculdades norte-americanas. Àquela época, era o que muitos faziam. Formar-se na Nigéria podia demandar alguns anos adicionais, porque os professores universitários estavam sempre em greve e não parecia haver emprego para os formados. Portanto, muitos estudantes faziam o exame de admissão norte-americano para escapar da “letargia opressiva da falta de opção” – como ela escreveria mais tarde em Americanah –, e porque eram pessoas “eternamente convencidas de que a vida real acontecia […] [em] outro lugar”.

 

Sempre imaginou que se casaria com um total desconhecido – fantasiava o choque da família quando apresentasse um “ruandês de cabelo espetado, meio mongol, meio cingalês”. Acabou se casando, em 2009, com um homem adequado, demasiadamente adequado: um médico nigeriano que trabalhava nos Estados Unidos, cujo pai era médico também e amigo dos pais dela, e cuja irmã era amiga íntima da irmã dela. Antes de engravidar, Chimamanda passava metade do ano na Nigéria, e o marido ia encontrá-la sempre que possível. Hoje, porém, ele não quer ficar muito tempo longe da criança, razão pela qual ela tem passado menos tempo em seu país. “Um dos perigos de um casamento feminista é que o homem quer mesmo estar presente”, ela diz. “Está presente quase o tempo todo e faz de tudo! E a menina adora ele. Juro por Deus, eu às vezes olho para ela e digo: ‘Carreguei você nove meses, meus peitos caíram por sua causa, minha barriga ficou flácida por sua causa, e agora o papai chega em casa e você corre para ele e me ignora? Sério?’”

Nos Estados Unidos, eles moram numa casa grande e nova, situada numa rua sem saída de um bairro residencial de Baltimore, no estado de Maryland, ladeada por quatro casas parecidas, dispostas em semicírculo. Em Americanah, descreve Princeton como um lugar sem cheiro – seu bairro tampouco tem cheiro. É calmo, tem muito espaço, mas, sem graça e vazio, é o contrário de Lagos. Quando olha pela janela, ela não vê nada. Não conhece muita gente em Maryland nem quer conhecer. Pode sair às ruas sem ser reconhecida. É um bom lugar para trabalhar.

Na Nigéria, quando uma mulher de sua família dava à luz, todas as parentes iam ajudar, e a mãe ficava deitada na cama como uma rainha moribunda. De certo modo, Chimamanda gostava daquilo; porém, quando teve sua filha, em Maryland, instruiu a mãe a não ir visitá-la por um mês. Percebeu depois que havia internalizado algo que entendia ser uma concepção americana: receber ajuda para cuidar de um recém-nascido é motivo de certa vergonha. Espera-se que a mãe faça tudo sozinha, senão não estará estabelecendo os laços afetivos apropriados, ou não estará sofrendo o bastante, ou algo assim.

Desde o começo, descobriu que a ansiedade a consumia. Ela parecia ter se tornado uma pessoa um pouco diferente do que era antes – neurótica, nervosa. Não gostou daquela nova versão de si mesma, mas não havia o que fazer. Sua filha está com 2 anos. E mesmo assim, quando está dormindo, a mãe vai conferir se ela está respirando.

Quando mais jovem, não sabia ao certo se queria ter filhos. Como a escrita era o centro de sua existência, pensava que seria melhor morrer caso não pudesse se dedicar a ela, e sua preocupação consistia em não conseguir dar conta das duas coisas ao mesmo tempo: escrever e ser uma boa mãe. Decidiu arriscar, mas já durante a gravidez vislumbrou sinais alarmantes. Em certo momento, não conseguia fazer mais nada: seus pais estavam de visita, e a casa vivia cheia de trabalhadores – ela havia decidido que, uma vez que esperavam uma criança, era preciso remodelar a cozinha –, e ficar sem trabalhar a estava deixando louca; resolveu sair de casa por dez dias, apenas para poder escrever. Planejava voltar com o rascunho de um conto curto. Descobriu que os contos castigam de uma forma que não ocorre com os romances, onde existe margem para o fracasso, margem para trechos de que não se gosta muito; já o conto curto é pura pressão. Hospedou-se num hotel em Annapolis e ligou o computador; acabou passando o tempo todo sentada na cama, assistindo um episódio após o outro de Spiral – uma série policial francesa – e comendo bolo de chocolate.

Depois que a filha nasceu, cavar espaço mental para trabalhar ficou mais complicado. Escrever significava ser inteiramente consumida por pessoas que não existiam, o que era ainda mais difícil e perverso diante de um bebê que, sim, existia. Chimamanda e o marido dividiam igualmente os cuidados com a filha. Ele tirou uma licença de seis meses e, quando voltou a trabalhar, ia apenas três dias por semana. A ideia era que ela trabalhasse nos dias em que ele ficava em casa, mas muitas vezes ela descobria que, passado seu turno de cuidar da criança, estava tão cansada que simplesmente caía no sono. Foram dias exaustivos. “Eu levava a menina para o playground e convivia com o que chamo de ‘a sociedade das mães que ficam em casa’ – mulheres profundamente boas, todas elas, puras e virtuosas, cuja vida gira em torno do bem-estar dos filhos –, mas dizia a mim mesma: ‘Deus do céu, ainda nem passei os olhos pelos malditos jornais, e só leio ficção por meia hora, antes de dormir. Eu não sou essa pessoa.’”

Além de não conseguir escrever, a coisa que mais a preocupava era a situação emocional que se instalaria logo após dar à luz. Seu médico havia dito que era bem provável que ela tivesse depressão pós-parto, e por isso Chimamanda foi pesquisar na internet como outras mulheres haviam lidado com isso. A maior parte delas defendia a prática da ioga, conselho que estava longe de ser o que ela esperava encontrar. No final das contas, a filha nasceu e ela ficou bem.

Tinha horror a cair naquele abismo de novo. Sabia que algumas pessoas acreditavam existir um vínculo entre arte e depressão, condição que tornava a pessoa mais perceptiva, mais profunda ou coisa assim, mas a ideia de que alguém conseguisse escrever naquele estado não fazia sentido para ela. “Nem ler eu consigo. É uma coisa horrível, horrível. Não vejo minha vida, fico cega, sinto que estou afundando – essa é a palavra que uso com minha família e com meus amigos. Bom, de modo geral, não falo muito sobre isso com minha família, por mais adorável que ela seja, porque eles não entendem o que é depressão. Querem um motivo, e não tenho um motivo.” Ninguém mais na família de Chimamanda sofre de depressão, e todos são da opinião de que ela não deveria se expor – não deveria tocar no assunto em público, exatamente o contrário do que ela pensa. “Há tamanho estigma ligado às doenças em geral nessa cultura”, ela diz. “Os nigerianos têm câncer e escondem ou mentem a respeito.”

Quando está deprimida, ela passa horas assistindo filmes sobre o Holocausto. Os familiares tentam dissuadi-la dessa estratégia – parece-lhes uma ajuda improvável –, mas ela persiste. “Esses filmes me conectam com alguma coisa nos seres humanos, não sei explicar. Só sei que tenho uma conexão com a história do Holocausto. Me atraem as histórias em que a vida corre normal e de repente tudo muda, da noite para o dia.” Chimamanda não está tentando se curar, transformar a depressão em felicidade. De todo modo, não funcionaria. Está, talvez, tentando transformar a depressão em luto, algo que pelo menos tem sentido, uma história que envolve gente, e não um vazio sinistro. Ela odeia a depressão; já a tristeza é outra coisa. “Acho que sou viciada em certo tipo de nostalgia”, diz. “Assisto filmes assim e me vejo num estado de luto por tudo aquilo que poderia ter sido. Eles só me fazem chorar mais e mais. Sei lá. Só sei que vou continuar vendo esses filmes. Estou sempre procurando na Netflix, quero ver.”

 

Os meses que todo ano ela passa em Lagos são, em geral, agradáveis. Sua casa fica em Lekki, num bairro de classe média alta situado numa península separada do continente por uma lagoa e junto do mar. Conta com um cozinheiro e um motorista, Gabriel. Está cercada de pessoas que ama. Não escreve muito por lá – tem gente demais ao seu redor. Mas em casa é onde se sente mais feliz.

Nigerianos vivendo em lugares sombrios nos Estados Unidos, com a vida embotada pelo trabalho, guardando com carinho economias durante um ano inteiro para poder passar uma semana na Nigéria em dezembro, aonde chegariam com malas cheias de sapatos, roupas e relógios baratos, e veriam, gravadas nos olhos dos parentes, imagens radiantes de si mesmo. Depois, voltariam para os Estados Unidos para brigar na internet sobre a mitologia que cada um construía de seu país […] pelo menos online podiam ignorar a consciência de quão desimportantes haviam se tornado.

Por outro lado, em Lagos há muita coisa que lhe dá raiva. O trânsito é tão ruim que avançar alguns quilômetros pode levar horas, e, para piorar, ainda há as buzinas, a poluição, a gritaria e o comportamento dos motoristas. E pessoas presas em seus carros, incapazes de se mover, estão sujeitas a serem roubadas. Dirigindo em Maryland, ao constatar que os carros encostavam imediatamente ao som de uma sirene, Chimamanda ficava com vontade de chorar: era assim que as pessoas deveriam se comportar nas ruas, e não era isso que acontecia em Lagos. A preocupação com segurança era um problema, e por isso ela morava num condomínio com um portão e guardas armados na guarita, que checavam o porta-malas e o capô de cada carro; e depois havia outro portão e outro guarda na entradinha de sua casa. Em parte, ela era feliz na Nigéria porque sabia que podia ir embora.

Em Lagos ela é tão conhecida quanto o presidente da República. Seu rosto pode ser visto em outdoors, as pessoas a cercam no aeroporto. Quando entra num restaurante, uma onda de reconhecimento vai se espalhando mais e mais. Às vezes, ao pedir a conta, descobre que seu almoço ou jantar já foram pagos. Seus livros são pirateados – seu editor lhe disse que os livros mais pirateados na Nigéria são os romances dela, os livros de T. D. Jakes (bispo de uma portentosa igreja cristã norte-americana sem denominação específica) e a Bíblia. Ela é admirada como uma nigeriana que se tornou celebridade internacional, deu renome ao país e a sensação de que agora tudo é possível a seus conterrâneos. Tamanha visibilidade, porém, faz com que todas as suas ações ou palavras estejam sob escrutínio.

Quando sai de casa em Lagos, sente que tem de se vestir bem, porque as pessoas podem comentar. Não está errada: quando apareceu na tevê com o cabelo ao natural, foi um acontecimento. Adotara esse penteado ainda na graduação, em parte porque se cansara do desconforto físico de alisar os fios, mas também porque detestava a ideia que lhe haviam incutido ainda jovem de que o cabelo dos negros era feio – para ficar bonito era preciso que parecesse com o dos brancos. Chimamanda começou a falar publicamente sobre cabelos naturais, e isso irritou muitas mulheres que se sentiram julgadas por alisar os fios.

Essa era apenas uma de suas manifestações que, em anos recentes, tinham incomodado as nigerianas. Quando disse não ter revelado a gravidez porque não queria transformá-la numa “performance”, algumas entenderam que ela criticava quem gostava de postar fotos da barriga nas redes sociais. O tipo de feminismo que ela defende em sua palestra “Sejamos todos feministas” – que as mulheres assumam postos de comando; que não sejam tomadas por prostitutas ao chegarem desacompanhadas a um hotel ou restaurante – não despertou grandes controvérsias nos Estados Unidos. Na Nigéria, porém, todo e qualquer feminismo pode ser encarado como uma declaração de guerra aos homens. Quando saiu a notícia de que ela havia se casado e, depois, tivera um bebê, muita gente em seu país ficou surpresa: não sabiam que as feministas faziam essas coisas.

 

Mesmo entre nigerianos progressistas, Chimamanda é uma figura controversa. Houve quem dissesse que o feminismo era um conceito ocidental, acusando-a de promover uma ideia colonizada das mulheres; não bastasse, algumas feministas nigerianas não a consideravam suficientemente radical. Depois, ao aceitar ser o rosto de uma linha de cosméticos, foi recriminada por essa atitude não ser feminista; ao permitir que “Sejamos todos feministas” fosse impresso em camisetas Dior que custavam mais de 700 dólares, ouviu que o capitalismo a havia corrompido. Por fim, ao dizer na tevê britânica que a experiência das mulheres trans é diferente daquela das mulheres que haviam nascido mulheres, porque as primeiras haviam tido o privilégio de viver como homens, foi massacrada por sugerir que as mulheres trans não seriam mulheres de verdade. Esta última crítica Chimamanda julgou particularmente ofensiva, porque ela vinha arriscando o pescoço havia anos pelos direitos LGBTQ. Denunciou o que entendia como uma ortodoxia simplificadora, que, em nome do apoio às mulheres trans, negava a existência de toda e qualquer diferença entre a experiência dessas mulheres e a das mulheres cis. Por outro lado, alguns nigerianos gostaram – enfim ela havia dito alguma coisa sensata.

Quando Chimamanda discorre sobre feminismo ou direitos gays na Nigéria, ela sabe onde está se metendo, e faz isso de propósito. Mas sua condição de celebridade é tal que mesmo um comentário casual pode deflagrar um tumulto inesperado. Poucos anos atrás, um jornalista pediu a ela que comentasse os finalistas do Caine Prize – um prêmio literário inglês para ficção produzida na África –, e ela respondeu que não tinha nenhum interesse no assunto, embora um dos indicados fosse “um dos garotos da minha oficina”. Sua antipatia pelo Caine Prize vinha de longa data e se devia a um ex-curador do qual não gostava, por tê-lo achado sexista e paternalista – o mesmo que, maldosamente, ela transformou em personagem do conto “Jumping monkey hill”.

[…] como se Deus, ao criá-lo, o houvesse atirado contra uma parede e espalhado as feições de qualquer jeito.

Então, quando lhe perguntaram onde procurar a melhor ficção que a África tinha a oferecer, ela respondeu: “Na minha caixa postal.” Que era onde ela recebia os contos dos participantes de sua oficina. No Twitter e na internet, foi uma gritaria. “Não é preciso ter muita massa encefálica para perceber, por suas entrevistas, que o ego de CNA é capaz de afundar uma ilha”, escreveu alguém. “Quer dizer então que a melhor ficção africana está na caixa de entrada de Chimamanda Adichie?”, tuitou o romancista Abubakar Ibrahim. “Salve, deusa-mãe e rainha. Vai se foder, Chimamanda.”

Ano passado na França, Chimamanda disse a um repórter: “Teoria pós-colonial? Não sei o que isso quer dizer. Acho que é alguma coisa inventada por professores para conseguir emprego.” Acadêmicos nigerianos reagiram ofendidos e revoltados. “Agora chega!”, escreveu Difficult Northerner, um perfil no twitter. “Essa Chimamanda precisa dar um tempo. Como é que alguém pode falar merda de teoria pós-colonial se não sabe o que isso quer dizer? E ainda por cima para os mesmos teóricos pós-coloniais que indicam seus livros e vídeos nas aulas?”

Em princípio, não ser gostada não é um problema – as mulheres precisam superar o desejo de serem benquistas. Um amigo lhe disse que Ifemelu, a protagonista de Americanah, era uma Chimamanda sem o calor que ela transmite, uma afirmação de que a escritora não gostou, embora tenha pensado que talvez fosse verdade. “Por que será que ele está julgando a personagem assim?”, pensou. “Se Ifemelu fosse homem, ele esperaria calor da personagem, ia querer seu calor?” Seja como for, é doloroso ser atacada. “Certa vez [o escritor norte-americano] Ta-Nehisi Coates me disse que o que mais o machucou, depois de ter alcançado sucesso, foi que justamente os intelectuais negros eram os que mais o perseguiam, e sei bem o que é isso. Eu disse a ele que existe um círculo de nigerianos ressentidos com meu sucesso internacional, e que isso é muito doído, porque eu quero que meu povo me queira bem.”

 

Um dia, no verão de 2015, em seus primeiros meses de gravidez, Chimamanda estava em casa, em Maryland, sentindo-se péssima, com um enjoo monstruoso. Era um dia quente e ela se sentou no jardim. Seu marido estava cozinhando e batendo papo com o irmão dela, Kene, que os visitava. De repente, os dois saíram de dentro da casa. Enquanto caminhavam em sua direção, ela soube de imediato que tinha acontecido alguma coisa. Pensou: “Meu pai ou minha mãe morreu. Qual dos dois?” Pensou: “Não quero saber o que aconteceu, seja lá o que for, porque minha vida vai mudar para sempre.” O marido contou que James tinha sido sequestrado. Chimamanda gritou, vomitou e começou a chorar. O pai estava indo de carro de Nsukka para Abba, mas não havia chegado a seu destino. Quando sua mulher tentou falar com ele, não conseguiu: tanto o celular dele como o do motorista estavam desligados. Duas horas mais tarde, Grace recebeu uma ligação do celular do marido. O sequestrador disse: “Madame, ele está conosco”, e desligou. Grace não contou à filha porque teve medo de que ela abortasse.

Chimamanda se recompôs e grudou no telefone. Ligou para o governador de Anambra, seu estado natal. Ligou para o cônsul-geral dos Estados Unidos em Lagos, uma vez que James era cidadão americano, em razão de as duas filhas mais velhas terem nascido em Berkeley. O cônsul mandou um agente nigero-americano do FBI, especialista em sequestros, para a casa da mãe dela, e o agente explicou o que dizer quando os sequestradores tornassem a ligar. Chimamanda então telefonou para falar com o especialista do FBI, que lhe disse que era seu grande fã e que tinha lido todos os livros dela. Mais tarde, ela acharia aquilo engraçado.

Nenhuma exigência foi feita até o dia seguinte. Era praxe: os sequestradores demoravam para entrar em contato, a fim de provocar pânico na família. No dia seguinte, ligaram pedindo 5 milhões de nairas – cerca de 14 mil dólares – e disseram à mãe dela que, se contatasse a polícia, matariam James. Depois disso, só tornariam a telefonar no terceiro dia, então exigindo 10 milhões. Não era permitido sacar tanto dinheiro de uma vez só, mas como os sequestros eram comuns, os bancos abriam exceções.

Chimamanda ficou apavorada diante da ideia de que o pai estivesse morto. Quando os sequestradores ligaram para sua mãe, Grace pediu para ouvir a voz do marido e o sujeito se recusou a atender ao pedido. James era diabético e estava sem a medicação. O agente do FBI instruiu Grace a estabelecer um vínculo com o sequestrador, e ela então o chamou de “meu filho querido”, dizendo que era uma mulher muito velha e suplicava por misericórdia. A família traçou um plano para a entrega do dinheiro. Os sequestradores sabiam tudo a respeito dela: disseram que ou seu filho Okey ou um determinado genro poderiam fazer a entrega, e ninguém mais. Okey foi de carro até um ponto da estrada próximo de Nsukka e, conforme haviam instruído, pegou um mototáxi até o local combinado, levando 10 milhões de nairas numa sacola. Ninguém sabia se ele voltaria. Às vezes um membro da família levava o dinheiro, descobria que a vítima estava morta e ato contínuo era assassinado também.

Na garupa da moto, Okey falava com o sequestrador pelo celular. O motoqueiro perguntou para onde estavam indo, porque não havia nada ao redor. Okey apenas lhe disse que seguisse em frente. Quando entraram numa floresta, o sequestrador ordenou a Okey que parasse ali mesmo, não olhasse nem para a direita nem para a esquerda, caminhasse um tanto e depositasse a sacola no chão. Okey obedeceu; pelo celular, o sequestrador o mandou embora. Na casa da família, todos estavam com o celular na mão, querendo que tocasse e, ao mesmo tempo, com medo de que isso ocorresse. Então James foi libertado.

Passados alguns dias, os pais de Chimamanda voaram para os Estados Unidos. Aos olhos da filha, James parecia ter encolhido. Tinha um ferimento na cabeça, porque os sequestradores o haviam jogado no porta-malas do carro. Ao chegarem à floresta, deixaram-no horas sentado na lama. Ele não tinha comido nada, temendo que a comida estivesse envenenada. Agora, qualquer barulho mais alto o sobressaltava – seu genro passou a preparar suas vitaminas na garagem, pois o som do liquidificador o aterrorizava. Às vezes falava coisas sem sentido.

Chimamanda afligia-se o tempo todo, embora soubesse que James estava em segurança. Ia com frequência ao quarto dele, para se certificar de que ainda estava lá. Durante meses, ao longo da gravidez, ela mal dormia, e quando dormia sonhava com o sequestro. Sonhou que tinha descoberto o cativeiro do pai, mas que não conseguia chegar até ele, e acordou chorando e cheia de suor. Sentia-se culpada. Os sequestradores haviam dito a James: “Fale para sua filha Chimamanda arrumar o dinheiro.” E ela pensava: “Foi culpa minha, eu deveria saber que, por minha causa, meus pais poderiam ser alvo desse tipo de coisa, eu deveria ter contratado um segurança. Por que não fiz isso?”

Por seis meses ela se recusou a ir à Nigéria ou ler as notícias de lá. Doía ainda mais pensar que o problema não era apenas seu país, mas a Igbolândia. Ali os sequestros eram mais comuns do que em qualquer outra parte da Nigéria, e todos sabiam que muitas vezes os sequestradores eram parentes das vítimas.

 

A menina está com 2 anos. Logo vai entrar na escola e fazer parte do mundo, o que acarreta vários dilemas sobre os quais sua mãe prefere refletir mais tarde. Recentemente, Chimamanda publicou um breve manual sobre como criar uma filha – Para Educar Crianças Feministas: Um Manifesto. Embora hoje seja autoridade sobre o tema, com publicações sobre o assunto, e embora tenha sólidas opiniões a respeito de, por exemplo, como estereótipos de gênero aprisionam meninos e meninas, ela acha que, quando se desce dos princípios para a logística, as coisas se complicam. Ela não pode criar um filho da mesma maneira que cria um personagem, é claro, mas pode escolher o cenário e a língua da infância da filha, o que já significa privilegiar uma identidade em detrimento de outra.

Chimamanda quer criar a filha na Nigéria, porque quer vê-la tão protegida como ela foi ao crescer ali, sem saber que era negra. Um dia, vai conversar com a filha sobre o que significa ser negra, mas não agora. Por enquanto, só quer a menina num lugar em que raça, da forma como ela a experimentou nos Estados Unidos, não exista.

Mesmo na condição de uma americanah privilegiada, Chimamanda experimentou quão tenso podia ser o desembarque num aeroporto americano – um lembrete de que, de novo, era negra e estrangeira. E não eram apenas funcionários brancos da alfândega que a atormentavam. “Tem um certo tipo de negro americano que nutre um ressentimento profundo contra africanos que julga privilegiados”, ela diz. “Sobretudo contra nigerianos privilegiados. Meu marido e eu desembarcamos e nos disseram: ‘Vocês são nigerianos. Aposto que têm 25 mil dólares na mala. Quero ver.’”

Sua região em Maryland é mais diversificada que a maioria, mas ainda são os Estados Unidos. Ela se mudou para sua casa atual pouco antes da eleição de Donald Trump, em 2016, e na manhã seguinte começou a entrar em pânico ao ler sobre o vandalismo pós-eleitoral em Baltimore; leu também que alguém havia pintado a palavra nigger no carro de uma mulher negra e que Trump, na verdade, havia sido eleito não pelos trabalhadores brancos, mas pelos moradores dos subúrbios. Estava convencida de que seus novos vizinhos tinham armas e iriam atirar nela e no marido por serem negros e apoiadores de Hillary Clinton. Não saiu de casa o dia inteiro. Então a campainha tocou: eram os vizinhos com presentes de boas-vindas – um casal japonês, outro de Bangladesh, um casal birracial e outro de brancos esquerdistas. Ficou tão aliviada que quase chorou.

“Não existem negros de classe média o suficiente para todo mundo”, disse Bill. “Muitos brancos liberais estão procurando amigos negros.”

Outra vantagem de criar a filha na Nigéria seria o fato de ela passar mais tempo falando igbo. Chimamanda estava determinada a fazer com que a menina crescesse falando a língua, mas seu marido não é igbo nem fala bem o idioma, o que a levou a contratar uma babá igbo. Tinha notado que a filha estava aprendendo muitas palavras e frases dos livros infantis da biblioteca da mãe, todos eles escritos em inglês. Pensou em traduzi-los, mas descreviam coisas – elefantes voadores, por exemplo – para as quais ela não conseguia imaginar equivalentes em igbo. Decidiu então que tinha de escrever alguns livros infantis em igbo.

Por outro lado, criar sua filha na Nigéria significava que muito provavelmente ela aprenderia bem mais cedo – e em caráter mais definitivo do que nos Estados Unidos – que é uma menina. Chimamanda tampouco quer que a filha aprenda isso cedo demais. É claro que também há sexismo nos Estados Unidos; no entanto, numa escola americana ninguém diria a ela: “Ei, você aí, vá para a fila das meninas.” No livro Sejamos Todos Feministas, ela conta que, aos 9 anos de idade, queria muito ser a monitora da classe, porque o monitor podia patrulhar a turma empunhando uma vara e anotando o nome dos baderneiros. Ao saber que quem tirasse a nota mais alta numa prova seria escolhido, ela se empenhou e conseguiu a nota máxima; aí ouviu da professora que o monitor tinha que ser um menino. Assim, o garoto que tirou a nota mais alta depois dela assumiu o posto, embora não fosse a pessoa indicada para tal responsabilidade. “O menino era uma alma bondosa e doce que não tinha o menor interesse em vigiar a classe com uma vara”, ela conta, “que era exatamente o que eu almejava.” Caso a filha crescesse nutrindo ambições como essa, não gostaria que a demovessem delas.

Qual a idade certa para introduzir o feminismo à menina? “Se eu disser a ela, aos 4 anos, que as mulheres não podem fazer isso ou aquilo, que efeito isso vai causar?”, se perguntava. “Será que vai se tornar uma daquelas pessoas suscetíveis?” Mas, por outro lado, talvez a mãe não devesse se preocupar com isso. Por que a filha não podia ser suscetível? Não faltavam razões pelas quais se suscetibilizar.

Teria que escolher entre tentar proteger a menina do racismo ou tentar protegê-la do sexismo? Se tivesse, escolheria protegê-la do racismo. Contudo o sexismo a enraivece com mais frequência, porque a luta é mais solitária. Seus amigos jamais perguntam: “Isso foi mesmo racista?” Mas perguntam: “Você acha mesmo que foi pelo fato de ela ser mulher?”

Por enquanto, ela observa a filha brincando no playground em Maryland com meninas e meninos de raças variadas, e se permite ficar satisfeita com isso. Se a menina só conhece histórias sobre elefantes voadores, escritas na língua errada e num gênero infantil no qual tudo pode acontecer; se quer ser benquista e não é ainda feminista, tudo bem. Ela vê a filha brincando e pensa: “Neste exato momento, ela ainda não sabe. Nenhuma dessas crianças sabe. Mas é só uma questão de tempo.”


[1]  Chinua Achebe (1930-2013), poeta e romancista nigeriano considerado um dos mais importantes intelectuais da África; de uma geração mais recente, igualmente reconhecido, Ben Okri (1959) escreve romances em geral focados em sua experiência na Guerra Civil Nigeriana.

[2]  Região ao sul da Nigéria composta de vários estados de língua e cultura igbo.

[3]  A autoproclamada República de Biafra declarou sua independência da Nigéria em maio de 1967 e capitulou em janeiro de 1970. O conflito separatista ficou conhecido como Guerra de Biafra ou Guerra Civil Nigeriana.

[4]  Organização filantrópica norte-americana fundada em 1970, com sede em Chicago e escritórios na Nigéria, na Índia e no México.

[5]  Em 1º de dezembro de 2015, o livro foi lançado na Suécia e distribuído a todos os estudantes do 2º ano do ensino médio; a medida visava estimular o debate sobre a diversidade sexual e a adoção curricular da obra nos anos seguintes.

[6]  Derek Walcott (1930-2017), poeta nascido em Santa Lucia, no Caribe, Prêmio Nobel em 1992.

[7]  Introduzida nos Estados Unidos pelos escravos vindos da África, a melancia passou a ser associada aos negros – segundo o estereótipo, eles seriam criaturas simplórias que se contentariam com sombra e melancia. O frango frito, prato típico da culinária sulista, é outro estereótipo, popularizado a partir de uma cena do filme Nascimento de uma Nação (1915), de D. W. Griffith, na qual durante uma sessão na Assembleia Legislativa um homem negro devora pedaços de frango frito, que retira de um balde.

[8]  A capital da República de Biafra, quando de sua fundação, era Enugu; em decorrência da guerra, foi transferida para Umuhaia e depois para Uli, que caiu em 11 de janeiro de 1970.

[9]  A “fraude nigeriana” existe há mais de trinta anos – hoje o correio eletrônico substitui a carta que era enviada às pessoas. Há inúmeras variantes, mas em geral o estelionatário pede os dados pessoais da vítima ou um pagamento antecipado pela promessa de um benefício futuro.

Larissa MacFarquhar

Jornalista norte-americana, é autora de A Vida pelos Outros, da Companhia das Letras

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