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Imagina na Copa

O que o México fazia durante os jogos

Carol Pires | Edição 94, Julho 2014

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“Senado aprova venda das pirâmides de Teotihuacan aos Estados Unidos durante o jogo do México”, anunciava a manchete. “Os jornalistas descobriram que, durante a partida, foram aprovadas três reformas, cinco novos impostos, a Constituição foi mudada e foram vendidas seis reservas naturais do país”, seguia a notícia no . O nome do site é uma sátira ao jornal mexicano Reforma e as notícias que divulga são tão falsas quanto irônicas.

O informe sobre a venda de Teotihuacan era piada, mas só tinha graça porque fazia alusão a uma notícia real. Em 14 de junho, dia seguinte à vitória do México sobre Camarões por 1 x 0 na Copa do Mundo, os senadores do PRI (criado pelos revolucionários de 1910 e hoje o pilar do governo de centro-direita) e do PAN (partido conservador) debateram e aprovaram, em apressados 55 minutos, novas leis da água, da indústria elétrica e da energia geotérmica (que vem do calor do centro da Terra).

As leis são parte de um pacote de reforma de todo o setor energético, que permitirá a exploração dos recursos naturais do país por empresas privadas, incluindo estrangeiras. Ele acabará inclusive com o sacrossanto – pelo menos até a Copa – monopólio de 76 anos da Petróleos Mexicanos, ou Pemex, a Petrobras deles.

 

A reforma exige a alteração de treze leis e a aprovação de oito novas. Com esse objetivo, o Senado montou um calendário extraordinário. Os debates deveriam ter começado dia 6 de junho, mas foram adiados para o dia 10 – antevéspera da abertura do Mundial. A previsão era que todo pacote fosse aprovado até 23 de junho, dia do jogo do México com a Croácia.

“Havia muita coisa em jogo na véspera do São João”, escreveu em 24 de junho, no Reforma, Juan Villoro, reconhecido no México tanto pelas suas habilidades literárias quanto por seu fanatismo por futebol. “Dizia-se que o Congresso, tão resistente ao debate, poderia usar o jogo como uma cortina de fumaça para aprovar a reforma energética. El Tri [como é conhecida a seleção mexicana] teria entrado em campo com o calção cor de petróleo em alusão ao patrimônio perdido? Seria extraordinário que a paixão nacional transbordasse o estádio para analisar o que está sendo feito com os recursos naturais que não são treinados por El Piojo Herrera”, disse, referindo-se ao técnico do selecionado asteca.

Cerca de 40 mil mexicanos vieram ao Brasil para a Copa. Entre os que ficaram em casa, 81% disseram que acompanhariam os jogos pela televisão, segundo um levantamento do instituto Gabinete de Comunicação Estratégica. Depois de ver essa pesquisa, o site Sin Embargo, referência em notícias online, passou a incluir um parêntese irônico em suas manchetes – “Você, siga com o Mundial.” Exemplo: “Sequestro e extorsão chegam a cifras históricas (… você, siga com o Mundial)”, anunciava o título de 17 de junho, dia do empate (0 x 0) entre Brasil e México.

 

 

“O PRI foi eleito com 38% dos votos, em uma eleição cheia de irregularidades e de compra de votos. É um partido de minoria. Então só pode avançar com sua agenda voraz e neoliberal se agir sem transparência, camuflando o debate atrás da neblina”, vitupera o escritor americano Francisco Goldman, de mãe guatemalteca e coração mexicano, que recentemente publicou “Enganando torcedores mexicanos”, um artigo sobre o uso do futebol para despistar os eleitores. Ele lista pelo menos duas vezes em que o PRI recorreu a esse expediente.

Para abrir passagem à exploração dos recursos energéticos por empresas estrangeiras, o Congresso Nacional aprovou uma reforma constitucional em 12 de dezembro de 2013, quando se comemora a aparição da Virgem de Guadalupe, padroeira do país, há 483 anos. Nesse dia, a Televisa, maior conglomerado de mídia da América hispânica, interrompe a programação dos seus quatro canais para transmitir a festa católica ao vivo, durante horas.

O PRI já havia usado a data da “patrona dos pequenos e oprimidos” para aprovar outro projeto polêmico. Em 12 de dezembro de 1998, ano em que completou 69 anos no poder (ficaria mais dois antes de ser derrotado em 2000, mas voltaria em 2012 com o atual presidente, Enrique Peña Nieto), seus parlamentares aprovaram um resgate de 67 bilhões de dólares a bancos quebrados na crise asiática.

 

 

A Pemex é a oitava petroleira do mundo, segundo a Forbes. Na crise da dívida externa, nos anos 80, o governo mexicano teve que recorrer ao petróleo para cobrir os gastos públicos. Até hoje a petroleira entrega 79% do seu lucro ao governo e tem fechado os últimos anos no vermelho. Sem dinheiro para investir, viu sua produção cair 25% na última década. O México importa gasolina dos Estados Unidos.

Somados, PRI, PAN e seus aliados menores têm 100 dos 128 senadores. Logo, ninguém duvida que as reformas serão aprovadas. Para a esquerda, o país corre o risco de reviver o modelo das privatizações dos anos 90, quando a telefônica estatal foi vendida. “Antes, os mexicanos tinham a Teléfonos de México (que não funcionava), hoje têm o homem mais rico do mundo, Carlos Slim, que a comprou do Estado (e com ela faz o que quer, já que detém o virtual monopólio da telefonia nacional).”

Quando os esquerdistas do PRD, o Partido da Revolução Democrática, pediram que o debate das novas leis ficasse para depois do Mundial, David Penchyna, legislador do PRI, respondeu que o argumento era “de idiotas”. E recorreu ao Dicionário da Real Academia Espanhola para se explicar: “Se refere à carência de ideias e a fazer prevalecer uma ideia particular sobre outra de interesse geral.”

Não foi possível, porém, concluir todas as votações como fora previsto. As reuniões foram remarcadas uma e outra vez e o resto das leis só será apreciado em julho. “Por quê?”, perguntou Alejandro Páez Varela, editor do Sin Embargo. “Por uma razão simples: porque deputados e senadores também assistem a futebol.”

Carol Pires
Carol Pires

É jornalista, roteirista, colaboradora do New York Times e colunista da Época online. Foi repórter da piauí de 2012 a 2016

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