esquina

Imagina na Suécia

O paraíso mora ao lado

Leonardo Pinto Silva
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

O verão “espetacular”, com picos de temperatura que ultrapassaram os 25 graus centígrados, se insinuou pelo outono e reforçou as gorjetas dos garçons de Oslo. Tudo muito incomum, inclusive pelo fato de que esses rapazes e moças são majoritariamente suecos. E não só eles. Vagas no comércio varejista, nos serviços e até na pujante indústria pesqueira norueguesa vêm sendo ocupadas por cidadãos do país vizinho, onde a taxa de desemprego ronda os 9% – contra meros 3,5% na Noruega.

Pierre Sjalin deixou Karlstad, 260 quilômetros a oeste de Estocolmo, há seis anos, logo depois de concluir o ensino médio. “As perspectivas aqui pareciam melhores”, explicou o jovem de 25 anos. Em Oslo, ele trabalha como vendedor de uma multinacional de vestuário. Dois anos de emprego foram o bastante para que comprasse um apartamento. Voltar à Suécia nem lhe passa pela cabeça. “Meus amigos todos também se mudaram. Sinto falta da família, mas ganho 380 mil coroas norueguesas (140 mil reais) por ano. Posso visitá-los.”

Segundo o governo norueguês, há 50 mil imigrantes suecos em Oslo, uma das poucas capitais europeias com menos de 1 milhão de habitantes. Como em qualquer metrópole globalizada, veem-se pessoas de toda parte, inclusive de países pobres. A novidade são escandinavos deixando a terra natal por ocupações de menor qualificação.

Nunca antes na história da Suécia (renda per capita: 57,9 mil dólares) registrara-se algo parecido. O país que, no Brasil (renda per capita: 11 mil dólares), é metáfora de paraíso social-democrata não chega a aparecer mal na foto, mas já viveu dias melhores. A entrada na União Europeia, há dezenove anos, coincidiu com o apogeu econômico sueco. De lá para cá, a situação ficou um pouco pior.

Seus vizinhos a oeste (renda per capita: 100 mil dólares) foram consultados em dois plebiscitos e, ainda que por margem estreita, preferiram manter distância da Eurolândia. Os noruegueses haviam encontrado reservas gigantescas de petróleo no mar do Norte, e o que já era um idílio socioeconômico tornou-se paroxismo: 5 milhões de almas, o maior Índice de Desenvolvimento Humano do mundo, dinheiro sobrando no fundo soberano e, de vez em quando, até um verão para chamar de seu.

 

“Paira a impressão de que os jovens noruegueses não querem mais trabalhar porque acham que não precisam”, disse Gard Sveen, consultor do Ministério da Defesa da Noruega e autor de O Último Peregrino, romance policial que será lançado no Brasil em 2015. “Em parte é verdade. Os pais enriqueceram tanto que muitos não trabalham – não porque estudem, mas porque preferem viver no vai da valsa”, disse.

Na busca por empregos em Oslo, os imigrantes suecos levam vantagem. Além das semelhanças linguísticas e culturais com os vizinhos, são qualificados e, em geral, mais polidos do que o norueguês médio, cujas maneiras assaz “objetivas” – uma secura que flerta com a rispidez – podem soar descorteses. “Não há quem reclame dos suecos”, disse Sveen.

“Existe uma cultura profissional mais sólida na Suécia”, atestou Karina Jämtoft, natural de Estocolmo e gerente de um restaurante de frutos do mar em Oslo. Ela não emigrou por razões econômicas – casou-se com um norueguês e tem um filho de 11 meses –, mas, tal como o vendedor Sjalin, não pensa em voltar. Karina não declinou quanto ganha, mas contou que os garçons faturam em torno de 5 mil coroas (quase 2 mil reais) por semana, sem contar as gorjetas. É o bastante para um mês frugal na cidade mais cara do mundo segundo o Índice Big Mac, que mede o poder de compra em relação ao dólar.

Na Suécia e na Noruega não há um salário mínimo definido por lei – cada categoria faz seus acordos coletivos. Os impostos podem passar de 50%, e a contrapartida são serviços públicos de excelência. O dinheiro que se ganha é usado para, por exemplo, viajar. Karina já tinha rodado o mundo com o marido – então namorado – antes de baixar acampamento na terra dele.

O reverso da bonança para os suecos é o enxugamento de vagas especializadas e temporárias para os noruegueses. O sommerjobb, marco da iniciação dos jovens nativos no mercado, já escasseia; até vagas de enfermeiros vêm sendo preenchidas por médicos suecos. Com a economia de vento em popa, isso pode ser um detalhe com o qual nem cabe se preocupar.

“Mas eu meio que me preocupo”, disse a norueguesa Aina Berg, de 28 anos. Formada em educação física, ela ralou durante anos em diferentes bicos. Agora que concluiu o mestrado em psicologia do esporte, não pretende renovar o aluguel até conseguir um emprego fixo. Em último caso, cogita retornar para a casa dos pais em Molde, cidade costeira de 26 mil habitantes.

Enquanto estudava, Aina recebeu bolsa do governo. Tinha um padrão de vida superior ao da classe média brasileira. “Eu fiz escolhas: vendi o carro porque era caro mantê-lo e, em vez de sair à noite, preferi economizar para viajar”, contou. Só neste ano foi a dois resorts no Mediterrâneo, o último deles all inclusive.

 

Há um componente simbólico no fato de os noruegueses estarem hoje por cima do salmão defumado. Neste ano, celebraram-se 200 anos da constituição própria da Noruega. Historicamente, o país foi o patinho feio da Escandinávia: mais empobrecido, mais religioso, mais rural e menos industrializado. O oposto da Suécia, cuja “neutralidade” na Segunda Guerra não a impediu de consolidar seu parque industrial exportando armas para os nazistas, a quem abriu o território para que ocupassem o vizinho – uma cicatriz na relação bilateral. Mas a roda da história girou. “Já não temos mais medo do nosso irmão mais velho. Crescemos e o encaramos de igual para igual”, resumiu o norueguês Sveen.

Enquanto embrulhava as roupas de uma cliente, Pierre Sjalin parecia alheio a tais refregas geopolíticas. Disse que um dia pretende ingressar na universidade, mas não tem pressa. Como a diferença de classes virtualmente inexiste na Noruega, a situação poderia muito bem ser inversa: ele no papel de freguês. “Me sinto muito bem fazendo o que faço.”

Leonardo Pinto Silva

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