esquina

Incompreendido e injustiçado

As pesquisas de Jared, o caçador, para provar que os gambás são legais

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2011

Quem entra na sala do zoólogo Carlos Jared no Instituto Butantan, em São Paulo, onde trabalha desde 1972, imagina que ele seja louco por sapos. Há um esculpido na madeira, outro de pelúcia e um ímã de geladeira na forma de uma perereca. Engano. Ele é fascinado pelo Didelphis, bicho incompreendido, e quiçá injustiçado, conhecido popularmente como “gambá”.

Carlos Jared evita começar qualquer conversa sobre o animal sem antes subir no banquinho e puxar da mais alta das estantes uma pasta vermelha com o título “Gambás – Variados”. Com doutorado em morfologia pela Universidade Federal de São Paulo e pós-doutorado em biologia integrativa pela Universidade de São Paulo, ele sabe que são necessárias provas documentais para desmistificar quase tudo que se julga saber sobre o Didelphis.

É preciso, pois, esquecer o desenho animado Pepe, Le Gambá − o rabo vistoso e a listra branca são típicos dos primos norte-americanos. O gambá que vive no Brasil tem características que, definitivamente, destoam da espécie. Para começar, ele não solta um cheiro tão pestilento como os de outras regiões. Jared jura que o odor dos nossos se assemelha a perfume francês. Acreditemos.

Na aparência física, no entanto, o brasileirinho deixa a desejar. Parece uma ratazana tamanho GG. Quando se sente ameaçado, faz uma careta sinistra, arrepia os pelos e escancara a boca para mostrar os caninos afiados. Tanto esforço o faz ficar a meio caminho entre o horrendo e o ridículo. Jared esclarece que as aparências enganam. Apesar da cara de mau, o gambá é um bichinho pacífico. Até se finge de morto para não entrar numa briga.



 

Há cerca de quinze anos, ao estudar o mecanismo pelo qual certas cobras liberam o odor que atrai o macho, uma pergunta esquisita se impôs ao espírito de Jared: “Como um gambá reagiria ao ataque de uma cobra?” Ele tinha a suspeita de que o vencedor da disputa poderia ser o Didelphis.

Como a pergunta e a suspeita não saíram do seu espírito, para respondê-la o zoólogo convenceu alguns colegas a caçar gambás pela cidade. Construiu arapucas de metal e, como isca, usou um prato que misturava bacon, aveia e banana. Como último ingrediente, o toque de mestre, usou a fragrância que atrairia irresistivelmente os gambás: a pasta de amendoim da marca Amendocrem.

Jared pegou Didelphis aos baldes. Com um bom plantel, e anos de pesquisa, comprovou sua hipótese: o nosso gambá é, sim, um predador natural das serpentes viperídeas, as cobras venenosas. O Didelphis, com seu jeitão boa-praça, não está nem aí para a peçonha das cobras. Em poucos segundos, começa a engolir sem cerimônia um dos perigos mais temidos das nossas matas. A refeição pode até picar o gambá, que, importunado com o beliscão, tasca-lhe uma bela dentada na cabeça.

Mas quando o embate é com a cascavel do cerrado, região que não abriga gambás, a cena quase se inverte. Com dez picadas da cobra, o faminto gambá perde o apetite, sente a pressão baixar e se afasta para o, digamos, canto do ringue. Não leva a refeição, mas consegue um empate ao se manter vivo. “Temos o vídeo aqui no Butantan para quem quiser ver”, disse Jared, com entusiasmo contagiante. “É fascinante a esperteza desses bichinhos.”

 

Com o fim dos experimentos, e com os papers redigidos, Jared ficou por muito tempo achando que jamais voltaria a caçar gambás. Sem êxito, algumas senhoras até tentavam convencê-lo a capturar os que teimavam em urinar no forro de suas casas. Até que um dever cívico o convenceu a voltar às lides.

Foi em 2005, quando a direção da Elektro – companhia de energia elétrica que abastece mais de 200 cidades de São Paulo e cinco do Mato Grosso do Sul – saiu à cata de zoólogos. O objetivo era discutir maneiras de enfrentar os gambás que, inquietos, invadiam estações elétricas e provocavam apagões. Em pouco tempo, chegaram ao nome de Carlos Jared e, em prol do bem da coletividade, ele topou voltar a estudar o animal.

A caçada foi feita praticamente da mesma maneira que a anterior. Com a diferença que, dessa vez, usou-se um aparelho GPS para determinar o local exato da mata em que o bicho deveria ser devolvido após os experimentos. Com os gambás capturados, construiu-se um simulacro de estação elétrica no Instituto Butantan. E, durante um ano e meio, ocorreu ali um verdadeiro reality show: os animais foram vigiados 24 horas por dia por seis câmeras.

No início de julho, Jared estudou os dados recolhidos e concluiu que uma reles chapa metálica, curvada a 45 graus e instalada nas extremidades das grades, impedia a invasão de gambás nas estações elétricas. Com expressão pensativa, conclui: “Isso mostrou como anos de pesquisas provam, muitas vezes, que a solução das coisas é mais simples do que imaginamos.”

Desde a soltura dos gambás, Jared voltou aos sapos. Trabalha com centenas deles. Mas tem saudade dos bichinhos. Torce para que surja a oportunidade de fazer uma pesquisa sobre eles realmente profunda, de longo alcance. Algo capaz de melhorar definitivamente a imagem e a fama dos gambás nacionais.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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