chegada

Intimidade conquistada

Na Arábia Saudita, a revolução passa pela lingerie

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ROBERTO NEGREIROS_2012

Difícil afirmar se a recente tomada de uma trincheira até então intransponível na Arábia Saudita também pode ser creditada à Primavera Árabe. Por decreto do rei Abdullah, e regulamentação do Ministério do Trabalho, todas as lojas de lingerie e cosméticos do país têm até junho para começar a empregar mão de obra exclusivamente feminina.

A novidade, que entrou em vigor neste início de ano, em nada se assemelha à virada de mesa provocada pelos povos da Tunísia, do Egito, Iêmen, Omã, Síria e outros quadrantes do norte da África e do Oriente Médio. Ainda assim, é uma revolução. Da intimidade. Vinte e oito mil candidatas já se apresentaram para vender calcinhas, sutiãs e, por tabela, sonhos sensuais a suas conterrâneas.

Até então, a mão de obra no setor era quase exclusivamente masculina e estrangeira – em grande maioria marmanjos asiáticos, imigrados legalmente. Isso porque, na versão mais fundamentalista da sociedade saudita, a mulher só pode conviver e falar com um grupo seleto de homens: pai, avô, tios, marido, irmãos e filhos. As cintilantes lojas de lingerie existentes em templos de consumo, como o Kingdom Centre, na capital Riad, simplesmente não podiam empregar atendentes mulheres.

Isso, por sua vez, levou a uma aberração ainda maior: cobertas da cabeça aos pés pelo hijab, obrigatório na Arábia Saudita, a elegante consumidora local muitas vezes acabava revelando suas medidas, curvas e predileções a homens desconhecidos. Não espanta que elas preferissem aguardar viagens internacionais para frequentar lojas de lingerie do circuito Elizabeth Arden. “A Marks & Spencer, de Marble Arch, em Londres, virou uma colônia saudita”, escreveu a consultora e professora de finanças Reem Asaad, da faculdade (só para mulheres) Dar Al-Hekma, de Jeddah.

“No ano passado, fui comprar calcinhas numa loja da minha cidade”, relatou Asaad ao Financial Times, “e encontrei todos os pacotes fechados, com uma tarja preta sobre a foto da modelo que vestia o produto. Impossível saber se aquela era a roupa que eu procurava. Escondi-me num canto da loja e furtivamente comecei a destacar a tarja para dar uma espiada. Fui prontamente interceptada por um vendedor apoplético: ‘Não faça isso, madame, vou acabar tendo problemas com a polícia religiosa.’ Obriguei o atendente a abrir o pacote e me mostrar seu conteúdo por inteiro.”

A partir de agora não será mais necessário comprar artigos íntimos de forma tão estressante. As grifes ocidentais já estão a postos para acolher o mulherio: sete lojas Victoria’s Secret operam nos países do Golfo, outras dez da grife Baci abrirão até 2016, e a Frederick’s, do grupo americano Hollywood, também implantará dez lojas em seis países da região. O último dado disponível, de 2010, detectou um mercado regional de roupa íntima feminina da ordem de 171 milhões de dólares.

A novidade não veio de atropelo, por clamor popular. O decreto foi assinado pelo rei no longínquo ano de 2006, mas emperrou na objeção – frontal como um sutiã – das lideranças religiosas. As vitrines de lojas atendidas por mulheres teriam de ser vedadas, exigiam os mais conservadores. Os próprios comerciantes argumentavam que a Arábia Saudita não dispunha de mão de obra feminina qualificada para a tarefa. Sem falar no alto custo da mudança: como as mulheres são proibidas de dirigir automóveis no país, seria necessário contratar motoristas para levar vendedoras ao trabalho.

Assim, até o ano passado, o decreto ficou oculto como uma calcinha em público. Apenas um punhado de lojas de lingerie e cosméticos tinha se adequado aos novos tempos. Foi a realidade sociodemográfica (40% de desemprego entre as mulheres) que levou o monarca Abdullah a usar de sua autoridade pessoal para pedir “cooperação” à Comissão para a Promoção da Virtude e a Prevenção do Vício, uma espécie de patrulha moral e religiosa.

Fundada em 1940, a Comissão da Virtude tem por função garantir que a sharia, o severo código de lei islâmica, não seja violada em público. Exatos dez anos atrás, sua aplicação teria impedido  que um grupo de meninas escapasse de uma escola em chamas na cidade sagrada de Meca – elas não estavam com a cabeça devidamente coberta e, no resgate, teriam contato físico com as equipes de salvamento masculinas. Catorze jovens morreram no episódio.

Mais recentemente o Comitê propôs que mulheres de olhos “sedutores” passassem a escondê-los quando estivessem fora de casa. A longa abaya e o lenço negro que já lhes encobre cabelo, cabeça e parte do rosto não seriam suficientes para evitar a lascívia masculina. Segundo o site noticioso egípcio Bikya Masr, a medida entrou em pauta depois que um membro da Comissão se sentiu atraído pelo olhar de uma saudita na rua, provocando uma briga com o marido, que a acompanhava.

Religião à parte, os responsáveis pelo planejamento econômico se preocupam com a crescente escassez de postos de trabalho para a mão de obra feminina, cuja escolaridade o próprio Estado banca até o último ano de faculdade. Com uma renda per capita banhada a petróleo (24 mil dólares, o dobro da brasileira) num país que está em 56º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano, enquanto o Brasil ocupa a 84ª colocação, o reino dos Saud começa a sentir a pressão interna.

A alforria para comprar e vender calcinhas sem constrangimento abre um boqueirão para mudanças maiores. Sobretudo na área do transporte público, praticamente inexistente, e no direito da mulher de dirigir um carro.

Por enquanto, toda saudita adulta ainda tem um membro masculino da família como “guardião” legal. Cabe a essa figura referendar, ou proibir, algumas escolhas de porte de sua tutelada, como viajar, trabalhar e estudar. Seis meses atrás, quando o rei Abdullah concedeu às súditas o direito de se candidatar e votar nas próximas eleições municipais, a exigência do aval do “guardião” não foi levantada.

Já o direito de vender lingerie e cosméticos chega sem qualquer fru-fru.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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