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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

esquina

Invasões bárbaras

O Country Club abre as portas para o dinheiro novo

Consuelo Dieguez | Edição 18, Março 2008

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Todas as tardes, um grupo de senhores de aparência estudadamente aristocrática (monogramas nas camisas, um eventual foulard) reúne-se no restaurante da varanda do Country Club do Rio de Janeiro. Alguns estão aposentados, outros sempre viveram de renda e muitos vivem apenas da lembrança do tempo em que tinham renda. Eles ficam ali até tarde da noite, jogando gamão, conversando e, principalmente, observando quem entra e quem sai do clube. Nos últimos tempos, vêm se surpreendendo com a quantidade de rostos novos que aparece. Esses senhores são sobreviventes de uma época em que todos os sócios do Country se conheciam ao menos de nome, e esses nomes – Didus, Carmens, Babys, Eugeninhos, Afrânios, Bibis, Celinhas – , acompanhados, é claro, de sobrenomes, eram um verdadeiro quem-é-quem da sociedade carioca. Para espanto dos remanescentes, e talvez desgosto, ultimamente eles se viram forçados a dividir espaço com gente da qual, em condições normais de temperatura e pressão, jamais teriam ouvido falar. O Country Club, que durante décadas foi o ápice do que havia de mais exclusivo na cidade, mudou.

Fundado em 1916 por executivos ingleses e americanos sediados no Brasil, e por uma pequena elite carioca, o Rio de Janeiro Country Club ou, simplesmente, Country, logo estabeleceu um rígido critério de seleção de associados. Salvo exceções raríssimas que imediatamente viravam assunto nas rodas sociais, durante muito tempo foi possível prever, sem medo de errar, quem entraria e quem seria barrado. O acesso ao clube era reservado aos nascidos em famílias tradicionais e influentes – além de ricas, desnecessário dizer – do Rio. Os apenas endinheirados que se aventuravam a tomar assento no banquete daquela rarefeita sociedade arriscavam-se a uma decepção quase certa, para não dizer fulminante. Em anos recentes, porém, o clube se curvou à dura realidade que teimava em ignorar: a de que o adjetivo “endinheirado” desde muito tempo deixou de ser aposto dos sobrenomes ilustres da cidade. “O Country estava morrendo, não havia renovação de sócios. Parte do quadro social tinha envelhecido. Outra parte, envelhecido e falido”, disse um dos conselheiros. “As dependências do clube estavam quase sempre desertas. Era uma desolação.”

Quando o atual presidente do Country, Eduardo Viana, tomou posse há quatro anos, decidiu-se que era preciso revigorar o clube. Foram meses de reuniões até chegar à verdade cruel: a única opção seria facilitar a entrada de novos sócios, o que significava correr atrás de dinheiro novo, aquele mesmo para o qual a turma sempre torcera o nariz. Não havia alternativa. Ou o clube abria as portas para o dinheiro sem sobrenome, ou acabaria sendo forçado a fechá-las.

No final de 2006, depois de exaustivas negociações, o estatuto quase secular foi enfim alterado. O foco da mudança incidiu justamente no sistema de aprovação dos candidatos a sócios. A criteriosa seleção acontecia uma vez por mês. Nesse dia, uma caixa de madeira circulava pela comprida mesa da sala de reuniões do clube, e nela cada conselheiro depositava seu voto, pró ou contra o aspirante a sócio: bolas brancas significavam aprovação, cilindros vermelhos, abstenção, e as famosas bolas pretas (na verdade, cubos), rejeição. A regra ditava que quem levasse três bolas pretas teria de buscar outra varanda para passar as tardes.

O ritual permanece o mesmo, mas as regras foram abrandadas. No caso de o candidato ser parente de um sócio, por exemplo, o número de bolas pretas exigido para deixá-lo de fora do bem-bom passou de três para cinco. Se o novo mandamento estivesse em vigor em 1991, Aparecida Marinho, ex-nora de Roberto Marinho, provavelmente não teria sido recusada. Na época, ela recebeu três bolas pretas. Para os sem-parentes, uma mudança sutil rompeu a barreira que os mantinha fora do templo dos ultrachiques: embora ainda bastem as três bolas pretas para manter um bárbaro do lado de fora, o número de conselheiros votantes diminuiu; hoje são apenas 21, em vez dos trinta anteriores. Logo, aumentaram as chances do candidato.

Desde que o estatuto foi mudado, muito ricaço que, através dos vidros de sua BMW blindada, lançava olhares lânguidos em direção ao Country tomou coragem para se candidatar à agremiação. No ano passado, doze pretendentes foram aprovados de uma só tacada. Em geral, são pessoas do mercado financeiro, advogados, outros profissionais liberais. Desde que o Country se tornou menos exigente em suas escolhas, o valor do título subiu de 85 mil para 150 mil reais. A taxa de transferência também subiu, de 30 mil para 75 mil reais. “Tem gente que, de tão desesperada para entrar, paga qualquer coisa”, disse um corretor de títulos.

 

Quem visita o clube pela primeira vez custa um pouco a entender a razão de tanta sofreguidão. O velho casarão de cor alaranjada, na avenida Vieira Souto, em Ipanema, não lembra nem de longe as mansões cinematográficas que costumam encarnar a idéia de luxo e abastança. As instalações são acanhadas, até. Da recepção, segue-se por um comprido corredor até um amplo hall. Uma porta lateral de vidro dá acesso ao restaurante, no qual, sobre as mesas cobertas por toalhas floridas, repousam taças de vidro, pratos de cerâmica e talheres de inox. Nada de cristais, porcelanas ou prata. O hall se comunica com uma varanda, também usada como restaurante. Ali, as velhas mesas de madeira branca estão cobertas por toalhas de um grosso algodão azul-marinho já desbotado pelo uso.

A poucos metros da casa ficam as quadras de tênis, consideradas as melhores da cidade. O mesmo não se pode dizer da piscina, pequena, quase espremida contra um muro. Qualquer condomínio de luxo oferece muito mais conforto. Mas ninguém escolhe o Country por sua piscininha sem graça ou sua comida passável. Quem compra um título está adquirindo posição social, como se dissesse: “Venci!”

Apesar do espírito liberalizante, para vencer, é preciso, ainda hoje, remar muito. O número de títulos não pode ultrapassar 850. Para comprar um deles, algum sócio tem de se dispor a vendê-lo. A compra, por si só, não garante nada. Com o título na mão, o candidato é obrigado a passar pelo crivo do conselho. Deve se expor a um ritual que alguns julgam humilhante, além de demorado: sessenta dias. “A espera é uma tortura”, diz um sócio recém-admitido que ainda carrega no espírito as marcas do suplício.

O primeiro passo é pôr o nome “na pedra”, isto é, num quadro de avisos de madeira, forrado de feltro verde, estrategicamente pendurado na entrada da sede. Ali fica exposta a ficha com a foto e o nome do candidato, o nome de seus familiares, do sócio que o indicou e dos que apóiam sua pretensão. Como não estamos ainda em plena democracia racial, se for japonês, melhor nem tentar. Provavelmente com a piscina espremida em mente, um sócio explica: “Japonês só anda em bando, e o clube não tem condições de receber tanta gente”. No período de observação, é aconselhável que o candidato freqüente o clube com assiduidade, de preferência acompanhado da família (mas não da parentela), para que os da casa avaliem se eles se comportam bem e sabem usar os talheres apropriados.

Em dezembro, cinco nomes estavam na pedra, à espera do veredicto. Entre eles, o do empresário Jonas Barcellos, ex-dono da rede Brasif, de free shops. Os critérios para barrar um candidato são, até hoje, bastante fluidos. Ex-sogra é uma categoria que costuma exercer grande influência no conselho. Sabe-se de candidatos que tomaram bola preta por intervenção da furiosa mãe da ex-mulher. Homens casados com beldades também podem ser prejudicados. “É que algumas sócias não gostam de concorrência”, confidenciou um membro do clube. No final de janeiro, Barcellos recebeu as cobiçadas bolas brancas.

A união da velha aristocracia com a nova burguesia continua polêmica. Parte dos sócios se diz a favor da abertura, alegando que o clube deixou de ser um reduto da terceira idade. “O clube está muito mais alegre”, defende Myrian Atalla, sócia de muitos anos que nas décadas de 60 e 70, ao lado do marido, o empresário Antônio Gallotti, era uma das figuras mais conhecidas da alta sociedade carioca. Outros, claramente contrários às mudanças, atribuem às regras mais flexíveis uma enxurrada malsã de convivas que, em épocas de maior compostura (e dinheiro), não passariam do portão.

Depois de um fim de semana ensolarado, um sócio se disse chocado com a presença de Bruno Chateaubriand e André Ramos, conhecidos pela assiduidade com que aparecem em revistas de celebridades. Tinham sido vistos na piscina do clube. “Estão deixando entrar sócio que se dá com esse tipo de gente”, resmungou. Um diretor do clube reagiu: “Não vejo qual é o problema. Eles estavam fazendo alguma coisa errada? O que não pode é a direção distribuir a Caras para os porteiros, para eles saberem quem entra ou quem não entra”.

Entre muxoxos e celebridades, o Country vai se acomodando à realidade. “O país tem experimentado uma forte mobilidade social e o Country reflete isso”, avalia o empresário Hélio Ferraz, que já nasceu habitué do clube. Ares progressistas andam soprando com intensidade cada vez maior. Como disse um sócio, “aqui tem árabe, judeu e acho que até um preto”.